A expectativa dos grandes para o futuro dos miúdos

“O que queres ser quando fores grande?”

A pergunta adivinhava-se a todo o instante. Os adultos têm destas coisas, uma vontade tremenda de saber o que a miudagem quer ser quando ‘for grande’. Os petizes é que não estão para essas coisas, querem é que os deixem em liberdade. O que querem ser quando forem grandes não faz parte da ementa nestes dias de pouca responsabilidade.

Mas exigia-se a resposta. Os enormes olhos dos grandes aguardavam, em expectativa muda. “Mecânico de automóveis”. A resposta foi dada em instantes, quase sem pensar. Não queria nada ser mecânico de automóveis, mas tinha ouvido uma conversa onde alguém, um outro grande, disse que era profissão um pouco suja mas segura e com rendimentos garantido.

“É uma boa profissão”, disseram os dois grandes quase em uníssono. Satisfeita a curiosidade, viraram-se para o lado, onde outro miúdo tinha a mesma árdua tarefa de definir, ali mesmo, o futuro da sua vida. “Mecânico de… aviões”. “Ainda melhor, ganha-se mais”, confirmaram os grandes, com um aceno afirmativo de cabeça.

O segundo puto sorriu. O primeiro ficou embaraçado. O outro miúdo tinha levado a melhor uma espécie de competição que nenhum dele parecia saber que existia. O jogo da previsão do futuro terminou ali. Serviu aos grandes para entreter conversa. Já os pequenos foram brincar. Cada um para o seu lado, porque aquela falta de sintonia tinha deixado marcas.

Hoje, nem um nem outro têm qualquer daquelas profissões.

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