"Memórias de Moçambique"


Pintura documental, na qual se retrata as derradeiras décadas da soberania portuguesa em Moçambique: a vida administrativa, económica, familiar, usos e costumes de colonos e populações nativas.
Exposição a ser inaugurada a 11 de Setembro, pelas 16.00h no Palácio dos Aciprestes, Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha
Av. Tomás Ribeiro 16

“Ana Maria (Plácido Castelo Branco Graça Ferreira) nasceu no povoado Errego, sede da circunscrição do Ile, Província da Zambézia, na então colónia portuguesa de Moçambique, a 27 de Abril de 1933. É filha de Arlindo Dias Graça, por sua vez filho de um brasileiro, proprietário, de Ouro Preto (Minas Garrais) e de uma portuguesa de Valadares (Vila Nova de Gaia); a Mãe, Alice Augusta Castelo Branco, nasceu em S. Miguel de Seide (Famalicão) naquela que é hoje a Casa-Museu Camilo Castelo Branco sendo, por esta via, bisneta de Camilo Castelo Branco e de Ana Plácido. O Pai, funcionário administrativo, era um curioso amante das artes e na família materna há vários artistas amadores, quer de Pintura, quer de Escultura.
Acompanhou o Pai e a Mãe, nas diversas funções paternas exercidas ao serviço da administração colonial; viveu, então, nos distritos da Zambézia, Lourenço Marques, Gaza e Inhambane, por vezes, em pequenos povoados em que era escassa a presença portuguesa, bem como os indianos e mestiços, sendo a grande massa populacional de origem africana da etnia prevalecente na região.
Nesses pequenos povoados (anos 30, 40 e 50 do último século) faltavam, muita vez, as comodidades que se viviam nas vilas e cidades coloniais; sobrava, porém, a vida tranquila nesses largos espaços, propícios a quem se interessasse pela pujança da Natureza e pelos usos e costumes locais. Volta e meia passavam viajantes que estavam ao serviço do governo, de grandes empresas coloniais, no trato comercial ou, ainda, em demanda de paraísos cinegéticos.
Esses contactos eram, por vezes, inesperados como aconteceu quando o grande actor e declamador João Villaret passou por Panda (Inhambane), refeiçoando e pernoitando na casa do administrador; agradeceu aos Castelo Branco-Graça e aos seus pouco convidados, com um magnífico recital de poesia portuguesa à luz dos “Petromax” que alumiavam o interior da casa, momentos retidos, para sempre, na retina e nos ouvidos da jovem Ana Maria.
Esta, apreciava, muito, os tons rosa, amarelo e laranja, por vezes o vermelho vivo, do pôr do sol que ao cair das tardes trazia o ruído da terra, a brisa da vegetação pujante e o encantatório das vozes dos animais da selva ou, também, os gritos dos macacos que viviam em traquinices e malandrice no quintal.
A família e um ou outro funcionário sentavam-se na varanda que circundava a casa, conversando ou vendo revistas (por cuja data de edição tinham passado semanas) que chegavam da Europa, via Lourenço Marques: Studio, National Geographic, Saturday Evening Post, Paris Match, Século Ilustrado, etc. Era o contacto com a distante Europa.
Vivia-se em casas de alvenaria cobertas a zinco (Panda) ou na “Residência do Chinde”, uma grande casa colonial de madeira e zinco que ia sendo mudada de local, quando as águas do delta do Zambeze comiam a terra, ou, ainda, em outras habitações mais modestas cobertas a madeira e zinco, mesmo, até, a colmo. Levava-se uma vida que favorecia a reflexão e a estima pelos valores da paz, da concórdia familiar, da criatividade e, também, em alguns casos – não tantos como se possa imaginar -, a observação do que passava em redor…, apreendendo a alma, as práticas, as práticas e os usos africanos.
Na casa do administrador Graça também havia, para além de revistas, livros, em especial de aventureiros viajantes por todo o Mundo, com atenção para aqueles que nos séculos XVIII desbravaram o Brasil, o far-west americano e os sertões de África e, aqueles outros, que navegaram pelas Índias, Chinas e Japões.
Começou a pintar a guache e a óleo, e a desenhar à pena, por volta dos 12 anos de idade. Autodidacta, teve, apenas cerca de duas semanas, aulas no ateliê de Mestre Frederico Ayres – um discípulo de Carlos Reis -, pintor que viveu largos anos em Moçambique, onde leccionou dezenas de alunos.
Expôs, individualmente, no Chinde, em Lourenço Marques, Johannesburg (União Sul Africana) e em Famalicão, aqui, uma exposição dedicada a Camilo no 1.º Centenário da sua morte), participando, ainda, em várias exposições colectivas.
Em Dezembro de 1973, apresentou uma exposição sobre temas africanos na lendária “Casa Amarela”, na Pç. 7 de Março (Lourenço Marques), a última que efectuou na, então, cidade colonial. Dado o êxito da exposição, logo do dia da inauguração, obrigou-se a seleccionar para a colecção familiar, uma série de trabalhos de que alguns chegam, agora, ao público português. Depois de um largo período de pausa, retomou os pincéis e, também, as imagens do quotidiano da sua vivência moçambicana, tanto mais que se trata da rememorar uma vida que passou, a curiosidade e a paixão pela terra natal – a saudade tão portuguesa! – já que mantém viva a percepção visual e mental dos tempos vividos.
Calma, tímida até, sempre repousada, esta é a imagem da autora que nos traz a ardência, o mistério, o perfume de uma terra de sabores e cheiros que nunca se esquecem.”
Vítor W. Ferreira

Comments

  1. xaneca says:

    muito bem feita a descrição daquelas terras distantes e tão perto.parabéns

  2. zita carvalho says:

    Que bons tempos de Moçambique Ana Maria!!!
    O Sr Administrador Graça e Sra D. Alice Castelo Branco.
    Ninguem sabia melhor que os administrativos, tudo o que se passava naquelas maravilhosas terras coloniais-

  3. zita carvalho says:

    Penso que tenha sido no Chinde onde começou a sua pintura.
    Imagem bem clara de uma menina tímida,serena, sempre com um sorriso (triste e misterioso).Era assim a Ana Maria que conheci no Chinde.
    Parabens Ana Maria

  4. Nuno Castelo-Branco says:

    Obrigado pelas suas palavras, Zita. Não deixarei de transmiti-las à minha mãe. Se quiser saber dela, aqui tem o meu e-mail: ncb@sapo.pt

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