o bicentenário da independência da República do Chile

Chile, um país que se inventa dia após dia, como diz Isabel Allende

Tenho a premonição de o Chile ser uma República desconhecida, ou conhecida pelos acidentes políticos e criminosos acontecidos no século passado. É natural, o povo português colonizou a África e a Índia, mas, na divisão das novas terras, apenas lhe coube uma pequena parte, o Brasil. Todas as restantantes colónias foram arrebanhadas pela coroa do Reino de Espanha. O Século XVIII foi a época em que espanhóis e portugueses decidiram fixar fronteiras entre os diversos grupos nativos que tinham conquistado. Uma conquista sem honra nem glória. Contrariamente ao acolhimento dado pelas etnias indígenas, que pensavam tratar-se da chegada de deuses que iam beneficiar os seus povos, estas foram feitas escravas, servidoras e sem as suas terras que passaram a ser propriedade das coroas de Espanha e Portugal. Foi assim que a hoje América Latina, foi organizada. A justificação para tanta pilhagem e roubo, surge por motivos religiosos: as etnias que as habitavam tinham de ser cristianizadas, baptizadas e conhecer a doutrina da Igreja Romana, quisessem ou não. Para traçar os limites desta pilhagem de pessoas e terras, Portugueses e Espanhóis solicitaram ao Vaticano que adjudicasse terras às coroas de tão triste conquista.

O Papa Clemente VI que nada sabia de geografia, solicitou um Mapa do Novo Mundo, e com uma régua dividiu o Mapa das Novas Terras em Dois, e sentenciou: as que ficam à esquerda, serão da coroa Portuguesa, as do lado direito, serão propriedade da coroa de Espanha. Antes, havia sido assinado um tratado pela Cúria e as coroas conquistadores, o de Tordesilhas. Neste Tratado, assinado a 7 de Junho de 1494, por Portugal e Espanha, os domínios dessas duas nações seriam separados por um meridiano que passaria a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Todas as terras leste desse meridiano pertenceriam aos portugueses e as que ficassem a oeste aos espanhóis. Assim, seis anos antes do descobrimento do Brasil, já a posse desse país estava garantida para Portugal.
O meridiano de Tordesilhas nunca foi demarcado. Também o tratado não dizia qual a

ilha do arquipélago de Cabo Verde que deveria ser usada para começar a contagem das 370 léguas. Entretanto, a opinião mais generalizada é que o meridiano de Tordesilhas passava no território brasileiro pelos lugares onde, mais tarde, foram fundadas as cidades de Belém do Pará e Laguna, em Santa Catarina. Nessas condições, a superfície do Brasil seria três vezes menor que a actual. Se continuasse a vigorar, na actualidade, o Tratado de Tordesilhas, não pertenceriam ao território brasileiro os Estados do Amazonas, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, quase todo o Pará e extensas regiões de Goiás, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Mas nem as bandeiras nem as expedições dos padres que foram ao interior catequizar os índios respeitaram o que estava estabelecido no Tratado de Tordesilhas; terras, que eram espanholas, foram ocupadas e percorridas por expedições que partiam do Brasil. O governo português, permitiu que colonos do sul do Brasil fundassem, em 1680, a Colónia do Sacramento, na margem esquerda do Rio da Prata, em pleno território espanhol, actualmente integrado na República Oriental do Uruguai. Por tudo isso eram necessários novos tratados para que fossem separados na América do Sul os domínios de Espanha dos de Portugal.
. O primeiro tratado foi o de Lisboa, de 1681: confirmou o direito de Portugal sobre a Colónia do Sacramento, fundada no ano anterior.
Em 1713, Portugal assinou com a França o Tratado de Utrecht, que estabelecia o rio Oiapoque ou Vicente Pinzón como limite entre o Brasil e a Guiana Francesa. Em 1715 outro tratado com o nome de Utrecht foi assinado entre Portugal e Espanha: confirmou a posse portuguesa da Colónia do Sacramento, tantas vezes atacada pelos colonos espanhóis de Buenos Aires.
Mas o tratado que deu ao Brasil a forma aproximada que possui actualmente, foi o de Madrid, entre Portugal e Espanha (1750).

Fonte: António José BORGES HERMIDA – compêndio de História do Brasil (1963)   OS TRATADOS DE LIMITES

Mas, esta é História Antiga. O que interessa é saber como o Chile se libertou da escravidão da coroa de Espanha. Uso a palavra escravidão propositadamente. O que os invasores queriam, era ouro, terra e alguém que trabalhasse por eles, para poderem, assim, gozar a vida como entendessem. Não foi fácil a tarefa. As etnias nativas do Chile, que no idioma Aimara significa o país longínquo, habitavam as áreas fronteiriças com os países que hoje são a Argentina, Bolívia e Peru, enquanto em Quechua significa o país do frio. E frio é, ao estar ladeado pela Cordilheira dos Andes e o frio Oceano Pacífico, que de sereno tem apenas o nome. Não pode ser esquecido que geograficamente, o Chile é um país singular: O Chile é um país situado na América do Sul, localizando-se entre o oceano Pacífico, Argentina, Bolívia e Peru. A forma territorial do país é certamente uma das mais incomuns do planeta. Do norte ao sul, o Chile estende-se por 4  270 quilómetros, ao passo que entre leste e oeste estende-se por 177 quilómetros. No mapa, o Chile aparece como uma longa faixa que se estende do meio da costa oeste da América do Sul até o extremo meridional do continente, onde se curva levemente a leste. Cabo Horn, o ponto mais ao sul das Américas, onde o oceano Atlântico e o Pacífico se encontram, é território chileno. Os seus vizinhos do norte são o Peru e a Bolívia, e a fronteira com a Argentina, a leste, uma das mais longas do mundo, estende-se por 5 150 quilómetros.

A geografia do Chile é extremamente distinta, visto a abrangência de diversas latitudes no seu território, o que lhe confere diferentes tipos de clima, vegetação e distribuição populacional. Ao passo que, no norte, encontra-se o mais árido deserto do planeta (Atacama), no sul encontram-se geladas florestas húmidas, na chamada Patagónia Chilena. Toda a fronteira com a Argentina é acompanhada pela Cordilheira dos Andes, o que faz com que grande parte dos rios do país sejam de regime nival, isto é, como têm a sua origem na Cordilheira dos Andes, frios como o gelo.

O país está localizado sobre a placa tectónica de Nazca, muito activa, o que ocasiona violentos terramotos e maremotos – inclusive o maior terramoto já registado na história, que atingiu 9,5 graus na escala Richter na região de Valdivia, em 1960. O sismo deu origem a ondas de 10 metros de altura, destruindo toda a costa próxima da ilha de Chiloé. A leste o país é serpenteado pela Cordilheira dos Andes e a sua costa apresenta um grande declive, tendo o oceano Pacífico, mesmo próximo ao litoral, grandes profundidades – o que nada mais é do que um reflexo da grande actividade sísmica ao longo da costa, fruto dos constantes choques da Placa de Nazca com a Placa Sul-americana.

A corrente marítima de Humboldt percorre toda a costa chilena. De águas frias, move-se até ao norte, activada pelo regime de vento predominante na borda oriental do anti-ciclone subtropical do Pacífico. Tal corrente modifica as temperaturas no norte do país, fazendo com que sejam mais frias do que corresponde a latitude do local. Fonte: Nova Enciclopédia Barsa: Macropédia. São Paulo: Encyclopædia Britannica do Brasil Publicações, 1998. v. 4, 123-125 ISBN 85-7026-441-0.

O liberalismo no Chile entrou pela mão de Napoleão. É verdade que Napoleão guerreava na Europa, o seu domínio foi-se estendendo pelo Velho Continente e pelas suas Colónias. A doutrina de Napoleão Bonaparte era a de libertar todos os cidadãos oprimidos pelas cabeças coroadas da Europa. Especialmente as que estavam sujeitas a servidões de cultivar a terra e entregar o produto ao novo proprietário, ou ao espanhol – godo, como se diz no Chile do rico e poderoso, originário de famílias ibéricas, que, confundido com os godos invasores de Ibéria, formaram parte da nobreza quando foi constituída a nação espanhola, nação que derivava dos povos germânicos ou godos, que a invadiram. Palavra usada com desdém pelos nascidos no Reyno do Chile, que, após a morte do fundador Pedro de Valdivia, passou a ser uma colónia com Governador. Mateo de Toro Zambrano y Ureta (Santiago, 20 de Setembro de 1727Santiago, 26 de Fevereiro de 1811), visconde prévio da descoberta do Chili, conde de la Conquista y cavaleiro da Ordem de Santiago, militar e político criollo chileno, era um senhor já ancião que queria ver-se livre de tão pesada carga de governar um país impossível, sistematicamente atacado pelos Mapuche, os verdadeiros proprietários da terra que a queriam recuperar, assaltando e incendiando as cidades do Sul do Chile em forma de malón, ou erupção de ataque inesperado de indígenas. Por outras palavras, sem prévio aviso entravam nos villorios, denominados cidades do Sul do Chile, assaltavam, queimavam, roubavam, violavam e raptavam mulheres jovens e bonitas para serem oferecidas aos reis Mapuche e Pehuenches, designados Toqui na sua língua Mapudungún. Muitas, especialmente as mais pobre e abandonadas, optavam por ficar a viver entre os Mapuche e abandonavam a sua condição de Huinca (estrangeiro), como eram denominados os não Mapuche na sua língua Mapudungun. Foi também assim que de foi nascendo um país mestiço, de pele cor de cobre e queixo proeminente, de estatura baixa, como tenho descrito nos meus ensaios sobre Lautaro neste mesmo sítio de debate. Toqui, que quase conseguiu matar os invasores e enviá-los de volta para as suas terras, não teve sorte, os Mapuche pensavam, por causa de uma tormenta no dia do assalto, que as suas divindades, entre elas a mais importante, Pillán, queriam os godos no Chili e fugiram. Mas Lautaro, já elevado à categoria de Toqui Mapuche, conseguiu emboscar um grupo de espanhóis, entre eles encontrava-se Pedro de Valdivia, o Fundador de Chile, que foi submetido a julgamento, dado como culpado e sentenciado à morte. O método foi cruel: sentado nu sobre um pau que entrava pelo recto até atingir o coração; após largas horas de sofrimento, o invasor faleceu aos gritos.

O nosso quinto bisavô queria estar livre, usou o subterfúgio de que não havia rei, Napoleão o tinha roubado e levado para França, para colocar nesse cargo o seu irmão José, não reconhecido como rei nem por godos nem por criollos. O Governador convocou um Cabildo Aberto ou Assembleia de Notáveis ou ajuntamento (corporação municipal). Falou assim: Não temos rei, no temos dono, somos livres, que era o que o nosso quinto bisavô desejava, somos livres. Entrego-vos o bastão e o mando porque somos livres. Escolham o melhor de nós para que nós governemos. Resultado, por honra, ele presidiu ao ajuntamento que governava o país, mas poucos meses depois, renunciou, foi embora para casa e faleceu. O Ajuntamento escolheu um membro da família Cem, um Larraín, mas o aristocrata José Miguel Carrera y Verdugo, organizou um golpe palaciano e autoproclamou-se Cônsul para Governar só o país. José Miguel de la Carrera y Verdugo (Santiago, 15 de Octubre de 1785[2]Mendoza, 4 de Septiembre de 1821), político y militar chileno. Prócer de la emancipación de Chile y destacado participante en las guerras de independencia, jefe de gobierno y primer general en jefe del Ejército. Considerado como el primer caudillo en la historia republicana de este país, y uno de los primeros de América. Fonte: História de Chile, Encina-Castedo, Tomo I, pág. 523, Segunda Edición, 1956.

Carrera redigiu a primeira constituição do Chile, que declarava o país como República Independente e autónoma, com três poderes: em 15 de Novembro de 1811, Carrera organizou um segundo golpe, que manteve formalmente o Congresso, criado na primeira constituição do Chile, mas estabeleceu um triunvirato integrado por José Gaspar Marín (por Coquimbo e Bernardo O’Higgins – como suplente de Rozas – por Concepción, encabeçado por Carrera (por Santiago), dando começo à controvérsia sobre as suas motivações e intenções. Acabou por ser fuzilado, por anarquista, na Argentina. Hoje em dia, é reconhecido como um patriota que salvou o Chile, juntamente com Bernardo O´Higgins e Manuel Rodríguez, membro da câmara de Deputados a pedido do seu colega e amigo José Miguel Carrera.

É sabido que os irmãos Carrera foram fuzilados na Argentina. Manuel Rodríguez, ao inteirar-se da notícia da morte dos irmãos Carrera, tomou vantagem de um Cabildo Abierto (17 de Abril) e organizou uma tentativa de revolta, entrou a cavalo no Palácio do Governo chileno, demandou pelo da “intromisión argentina” e da  abdicação do “Huacho Riquelme”, na sequência destes factos, foi feito prisioneiro e submetido a julgamento, contudo não havia provas concretas do seu assalto. Cabe considerar que a ausência do regimento do combate pode ser tida como deserção em tempos de guerra, cargo que pode ter consequências sérias. Em breve tempo, o regimento dos Húsares da Morte foi dissolvido e Rodríguez apresado e, conforme dizem muitos historiadores, assassinado en Til Til, el 26 de Maio de 1818. Fonte: Ricardo Latcham: Vida de Manuel Rodríguez: CAPITULO XIII El Cabildo del 17 de Abril. Prisión del Tribuno; e Diego Barros Arana, Historia General de Chile, Vol. VIII, Capítulo X: Revolución del 15 de noviembre; elevación de don José Miguel Carrera; disolución del Congreso Nacional (noviembre – diciembre de 1811).

O leitor pode aperceber-se que o país que este 18 de Setembro de 2010 comemora 200 anos, foi, desde os começos, um país de revolta, guerras civis, suicídio do Presidente José Manuel Balmaceda em 1891, um país constitucionalista ora com mando do Congresso, ora com mando da Presidência da República.

Falar do assassinato de Allende, seria redundante. Mas, embora com um PIB alto, nem com o retorno da democracia passou a ser um país calmo e sereno, pois as catástrofes nacionais deixam-nos aflitos, como o terramoto de 27 de Fevereiro deste ano do Bicentenário que destruiu a maior parte do país, tal como o descalabro dos mineiros soterrados debaixo de 700 metros de terra e os ataques dos Huinca aos Mapuche, dificilmente pode ser denominado, como dizem por aí, a Inglaterra da América do Sul. É um país inventado, como diz Isabel Allende, cujo bicentenário como República é-me impossível comemorar, pelo luto dos terramotos, dos mineiros soterrados e do genocídio da Nação Mapuche e a sempre chorada morte do Presidente Constitucional do Chile, Salvador Allende.

Comments

  1. carlos fonseca says:

    Interessantissima lição Prof. Iturra. Tenho amigos chilenos, com quem passarei uma semana em Novembro, e desde sempre o Chile é um país de que gosto muito. Assim, como das suas gentes.

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