230, 180 deputados, para quê tantos?

A discussão à volta do número de deputados na Assembleia da República é inútil, se não colocarmos também em cima da mesa a questão dos círculos uninominais. Infelizmente a questão, séria e urgente, foi colocada em cima da mesa pelas piores razões, o ministro Jorge Lacão que defende há vários anos uma reforma do sistema político, prestou agora um péssimo serviço à causa, ao pretender utilizá-la como manobra de diversão, no exacto momento em que parte significativa da população portuguesa, viu diminuído o salário ou pensão, acompanhado por um brutal aumento da carga fiscal. O PSD aproveitou para cavalgar a oportunidade, sem que esteja tal como o PS, muito interessado em reformar o que quer que seja. Desde logo porque reduzir o número de deputados, seria interessante reduzir também o número de assessores, autarcas eleitos e demais pessoal político, iria significar desemprego para muitos boys que não sabem fazer rigorosamente mais nada na vida, a não ser lamber umas botas ou espetar umas facas nas costas uns dos outros.

O aparelho do PS em fim de ciclo, apavorado que está pela previsível perda de lugares de confiança política na administração, nem quer ouvir falar no assunto. O PSD diz defender há muito a redução do número de deputados, mas nem uma palavra sobre autarquias ou círculos uninominais, este é o partido em que se chegou a suspeitar, existirem declarações de renúncia aos mandatos assinadas pelos eleitos, por forma a que a direcção do partido tivesse sempre os lugares à disposição. Já bastam os problemas com alguns autarcas rebeldes, para quê círculos uninominais, se podem controlar os deputados como marionetas, votando em bloco? Percebo a lógica do PCP, para os comunistas o colectivo sobrepõe-se ao individual, um sistema eleitoral que elegesse individualmente o deputado e reduzisse proporcionalidade, significaria também dificuldades acrescidas, levando muito previsivelmente à redução do seu peso político, colocando em causa a própria sobrevivência do partido. Já o BE vive numa lógica diferente, a meu ver até poderia ser beneficiado pela eleição directa dos deputados, tal como aliás o CDS, seria uma questão de escolher os círculos onde apresentar os melhores e mais mediáticos candidatos, que derrotariam muito possivelmente boa parte do pessoal dos partidos do centrão, principalmente aqueles que nunca ou raramente colocam os pés nos distritos que os elegem.

Há quem defenda um círculo nacional único, como forma de garantir total proporcionalidade, mas aí pergunto, para quê 180? Deixam de representar as diferentes regiões, atrevo-me a dizer que uns 100 seriam mais que suficientes, para mais votando em bloco, como passaria a acontecer, se actualmente eleitos por diferentes Distritos, os grupos parlamentares salvo honrosas excepções, já têm um comportamento de manada, imaginem num círculo único, seguiriam apenas as directrizes do partido que os elegeu, a quem devem o emprego, só que ficam cada vez mais afastados dos eleitores.

Não há volta a dar ao assunto, nos países mais desenvolvidos, os políticos são eleitos de forma directa, respondem perante o povo que os elege, de vez em quando aparece um Tiririca no Brasil ou Cicciolina em Itália, é a Democracia, por cá, temos o sistema proporcional, que nos trouxe ao estado a que isto chegou, com a abstenção cada vez maior. Não há sistemas perfeitos, mas qual preferem? Por mim, círculos uninominais e redução de deputados, já!

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