Dicionário do futebolês – marcou para lá da hora

Ganhasse eu cinco euros sempre que esta frase é proferida e já tinha comprado um clube de futebol, com árbitros incluídos. Trata-se de mais um momento criado pela magia dos comentadores de futebol: o golo para lá dos noventa minutos, que é mais do que uma hora, em jogos sem prolongamento, entenda-se. É por isso que é estranhamente possível ouvir dizer que um golo foi marcado aos 93 minutos, por exemplo.

Fosse eu ainda menos versado no fenómeno futebolístico do que já sou e ficaria a pensar que isto do golo para além da hora poderia acontecer quando um jogador manhoso, por volta das três da manhã, reentrasse sozinho no estádio e marcasse um golo, “apanhando a defesa adversária a dormir”, outra expressão futebolesa que ganharia, agora, um sentido muito mais aceitável. Aliás, no dia seguinte, o treinador, na presença da equipa, iria rever o vídeo – não do jogo mas das câmaras de segurança do estádio –, onde se poderia ver o furtivo marcador do golo tardio, e iria urrar na direcção dos defesas: “Olha pa esta merda! Até parecia que estavam a dormir, porra!”

Traduzindo para português, marcar para além da hora corresponde ao acto de marcar um golo durante o tempo de compensação decidido pelo árbitro, sendo que esse tempo se deve à necessidade de que o jogo de futebol dure, exactamente, noventa minutos. Consequentemente, e descontando a hipótese de o árbitro se distrair ou enganar, qualquer golo que seja marcado depois da hora não poderá ser válido e qualquer golo marcado dentro do tempo de compensação não será marcado para lá da hora.

No vídeo que se segue, o jogador que ia marcar golo não percebe como é possível o árbitro apitar para o fim da primeira parte só porque a primeira parte acabou.

 

José Sócrates, esse brincalhão

O Sócrates que é José tem em comum com o mestre de Platão a maiêutica, ou seja, de certo modo, a arte de fazer nascer ideias naqueles que o ouvem. Estas declarações do Secretário-Geral do PS fazem nascer em mim os seguintes comentários:

 

1. Se é verdade que uma crise política prejudicaria a economia e tendo em conta que a economia está tão prejudicada, ficamos a saber, afinal, que vivemos em crise política.

2. Se são portugueses aqueles que estão “a fazer [um esforço] para a consolidação das contas públicas”, será fácil concluir que não o são todos os que não estão a fazer esse esforço. Seria conveniente que algumas empresas públicas fossem fiscalizadas, porque deve haver por lá muito estrangeiro sem autorização de trabalho.

3. Sócrates tem, ainda, a preocupação de afirmar que o PS é um partido de centro-esquerda, num exercício da mais fina ironia, que poderá passar despercebida aos menos atentos. Segundo parece, Sócrates terá proferido estas palavras, enquanto piscava um olho maroto ao auditório, ao mesmo tempo que tentava abafar o riso.

4. As palavras sobre educação (“O objectivo não é dar educação a todos, é dar a todos uma boa educação para o futuro”) foram já ouvidas com muita dificuldade, tal era a quantidade de gente que se rebolava de riso. O próprio Sócrates estava agarrado ao palanque, com dores abdominais resultantes das gargalhadas. “Não aguento mais, pá!” terá o Primeiro-Ministro declarado a Pedro Silva Pereira.

Luiz Vaz de Camões, de mistério em mistério

o poeta dos poetas portuguezes, historiador, feitos de armas

Referir a vida da Luiz Vaz de Camões, é reiterar o que em Portugal e vários outros sítios do mundo, é já conhecido. Quer na Europa, nas antigas possessões portuguesas na África, na hoje América Latina, na Índia, especialmente Goa, sítio importante da Índia, passando por Macau e por Ceuta. Não era apenas um poeta, que descobrira outras terras que inspiraram os seus textos e exaltaram a sua imaginação; não era apenas um soldado que entendeu ao ser humano após ter conhecido tantos e de tão diversas espécies, era, antes de nada, quem inventara, como descoberta, aos portugueses, denominados lusitanos na sua época. Época final do romantismo europeu.

A Península Ibérica era a sua Pátria, não apenas Lusitânia, como era denominado Portugal no Século XVI e que ele, como sabemos, imortalizara na sua grande obra, escrita em 1571 e publicada em 1572 com o apoio do seu mentor desse

[Read more…]

Rui Pedro: outra nódoa da justiça portuguesa

Os casos de justiça, ou de falta dela, constituem temas de cidadania. Banalizados por revelações quase diárias, acontecimentos demonstram a disfuncionalidade e a irresponsabilidade reinantes no  sistema de justiça português.

O costumado recurso a justificações, nem sempre hábeis e esclarecedoras, não ilude a expressão da incontornável verdade: por motivos vários e incapacidade endémica,  há demasiados processos a percorrer longos ou mesmo infinitos caminhos desde a investigação à sentença. 

Os agentes do sistema de justiça, é consabido, estão compelidos a assegurar celeridade e  rigor no exercício das funções que lhes compete. Todavia, falhas e demoras são recorrentes. Um novo exemplo pode ser extraído das declarações da responsável do DCIAP, Dr.ª Cândida de Almeida. Referindo-se ao ‘caso Rui Pedro’ – o jovem desaparecido em Lousada há 13 anos, repito há 13 anos – a procuradora elogiou publicamente a equipa que, agora – e só agora, digo eu –, acabou de analisar todo o processo “numa investigação profunda”. [Read more…]

Sem surpresa

É compreensível algum silêncio incómodo em Portugal perante as declarações de Thomas Stephenson, assunto que já mereceu um post do Jorge. A reacção corporativa surgiu do General Loureiro dos Santos, que desvalorizando as questões sobre a compra de equipamentos, procura tratar o assunto como uma divergência de interesses económicos, entre os EUA e as Forças Armadas. Mas deixando de lado a questão dos equipamentos, que não é de forma alguma uma discussão inútil, importa debater que Forças Armadas pretendemos, sem esquecer que Portugal reivindica a continuidade da plataforma continental até aos Açores, a somar ao arquipélago da Madeira, o que implica algum esforço financeiro em meios navais e aéreos, quais será uma discussão para especialistas.

[Read more…]

As Ilhas de Bruma

O autor dá pelo nome de Septimus e o album intitula-se “Experimentar na m’incomoda”. Este tema conta com a voz de José Medeiros. Ouçam:

Fantástico, este disco que anda por aí -já o ouvi integralmente- e do qual quase ninguém ouviu falar. Anda tudo surdo?

No céu de lusco-fusco

No céu de lusco-fusco

No céu de lusco-fusco eras a luz do sonho e do infinito anoitecer chuvoso com cheiro a terra molhada

eras a fragrância dos campos no suspiro de um violino à sombra da figueira nos primeiros chuviscos do verão

eras a luz da tarde tombada num ramo de flores colhidas ao fim do dia

eras o gesto de quem diz que os braços se enlaçam para aquecer o coração frio

eras a fome e a sede que o êxtase celeste inspira sob um tecto de magnólias

eras o veludo do orvalho nas lágrimas da noite pura ao romper da madrugada

eras tudo… e nada.