Geração da Casinha e Carrinho dos Pais…

Às portuguesas e portugueses que vivem há décadas na casinha dos pais desejo que tenhais, grátis e para sempre, uma auto-estrada à porta de vossa casa; e, acaso vos percais, haverá sempre uma placa a apontar o Progresso e o Futuro da vossa (minha) geração: a fuga…

A Bélgica e a instabilidade política

Sempre que convém, o fantasma da estabilidade política é usado para assustar os portugueses, em particular, onde mais lhes toca: no bolso, via impostos a pagar caso os “mercados” (quem?!) se assustem com a dita instabilidade.

Foi essa a abordagem recente do PS quanto à possibilidade de haver em breve uma moção de censura; igual justificação para que se aprovasse o orçamento de estado foi usada; e esta mesma linha discurso teve lugar ad nauseam na última campanha eleitoral.

Acontece que os belgas estão há 7 meses sem governo. Serão loucos os belgas? Não terão eles medo dos “mercados”? Estará o país à beira do colapso? Parece que a resposta a estas questões é a mesma, um redondo não.

Portanto, senhores políticos, deixem-se de merdas e façam o que lhes compete. A saber, governar, uns, e outros, fiscalizar a governação. E fazer cair o governo quando este não se mostra capaz de fazer o que lhe compete. O que é mais do que notório há tempo demais.

Ah!, e pelo caminho, já que tanto gostam de fazer leis para tudo e mais alguma coisa, não se esqueçam de mudar as leis eleitorais para que, em caso de queda, se possa voltar a ter governo em apenas algumas semanas e sem períodos de defeso. Não estão sempre a usar os exemplos de outros países quando vos convém? Então, que olhem para os ingleses, que num mês caiu um governo, fizeram-se eleições e entrou em funções novo governo.

todo o ensino deve ser público

todo o ensino deve ser público, gratuito e sem colégio privados

O título deste ensaio parece um mandamento. De facto, é uma ordem, não entregue pela divindade, mas sim pelo totem como definia Durkheim no seu texto de 1912: Les structures élémentaires de la vie religieuse, Felix Alkan, Paris (não conheço versão portuguesa). Mandamento parece-me que é, conforme os tempos e as cronologias, por se tratar do processo de transferência de saber de uma geração a outra, sendo uma obrigação que a lei garante, passando a nova obrigação, a de aprender, para os mais novos de um grupo social.

A literacia é a que garante a memória, o saber, as descobertas e os avanços científicos de uma sociedade ou de um grupo dela. No ensaio de ontem, filosofava sobre as diferenças e a complementaridade, e definia esses conceitos como palavras substantivas capazes de, por guardar a diferença, as formas complementares apareciam dentro do debate e do saber. No caso do ensino, actividade definida por mim como transferência de saberes, é uma obrigação. [Read more…]

O crime compensa, ou nem é crime

João Rendeiro, o nosso Madoffezinho, queria que o banco que levou à falência lhe pagasse “4,25 milhões de euros, mas na lista entregue pela comissão liquidatária ao tribunal são reconhecidos apenas 25,19 euros”. A natureza é compensadora, e a  “sociedade Zenith SGPS, criada em maio de 2004 e presidida por João Rendeiro, que reclama uma dívida de 31,8 milhões de euros junto do BPP, viu ser reconhecido pela mesma comissão um montante superior em mais de 3 milhões de euros ao que era pedido, ascendendo a um total ligeiramente superior a 35 milhões de euros.” Esta conta o Expresso.

O Público descobriu uma trafulhice fiscal do Santander Totta, que passa pelo Luxemburgo, Londres e a Caimão do costume. Não é bem uma trafulhice, o esquema é legal, e permite a uns fugir aos impostos que pagam os outros.

E por aqui me fico, até tenho medo de olhar para outro jornal online hoje.

Até que a morte nos aproxime

Comecei a morrer há alguns anos, quando ainda respirava, o que é só um sinal aparente de vida. Comecei a morrer quando já não conseguia contar as rugas, quando o simples acto de caminhar se transformou em ginástica. Comecei a morrer, quando tudo em mim se tornou incómodo: a incontinência, os nomes que me fugiam da cabeça, a tendência para contar várias vezes as mesmas histórias, a dificuldade em perceber os programas de televisão. Passei a viver num cemitério e morri em casa. Parece que, de vez em quando, davam pela minha falta, o que é diferente de sentirem a minha falta, claro. Se alguém sentisse a minha falta, talvez não tivesse morrido tanto como morri. [Read more…]

as minhas memórias-11-o meu fuzilamento e pena de morte para mubarak

Víctor Jara, com as mãos partidas pela tortura, morra canta à liberdade

O povo derruba um ditador, frase da primeira página do Diário de Notícias de hoje, Sábado 12 de Fevereiro de 2011. O ditador de mais de trinta anos do povo do Egipto, Hosni Mubarak, renunciou ontem ao seu cargo, que não era mandato, era flagelação dos pobres cidadãos do país das pirâmides, a quem congratulo e digo, como membro de Amnistia Internacional, que ao longo de todos estes anos salvámos muitos cidadãos da morte ou do apedrejamento.

Felizmente, os ditadores acabam sempre assim: escondidos, sem dinheiro – no caso específico, este detinha entre 50 a 70 bilhões de dólares. Todos os bancos, [Read more…]

O desemprego, afinal, não cresceu

Seria péssimo jornalismo ser um jornalista a evidenciar uma verdade tão absoluta que nunca poderia ser uma notícia. Para isso, existe a Ministra do Patronato do Trabalho. Se a senhora continuar nesta senda de honestidade ainda se arrisca a reconhecer que o governo, afinal, só tem conseguido acentuar a tendência para aumentar o desemprego. Corre, ainda, o risco de ver o Câmara Corporativa realçar o seu duvidoso passado de sindicalista, do mesmo modo que o Governador do Banco de Portugal passa a antigo chefe de gabinete de João de Deus Pinheiro mal emite alguma opinião incómoda para a rósea governação.

Talvez por ser rósea a governação é que Valter Lemos veja cor-de-rosa onde a coisa está preta: o impagável secretário de estado manifesta um quase regozijo ao descobrir que o desemprego cresce muito, sim, mas devagarinho, o que deve servir imenso de consolo para os que se vão desempregando.

Uma vez que a estupidez desperta em mim o mais acentuado espírito competitivo, proponho que se passe a afirmar que não foi o desemprego que cresceu: foi o emprego que encolheu. E mais esta, para ajudar Sócrates, quando for, finalmente, confrontado com a recessão técnica (outro conceito que faz muita diferença aos que vivem com cada vez mais dificuldades): bastará afirmar que, se é certo que o país saiu da crise, a verdade é que a crise não tinha saído do país.