Mudam-se os tempos – II

Deve existir algum equívoco nesta notícia, seria lá possível que as forças armadas comandadas por um Prémio Nobel da Paz, lançassem mísseis sobre um país soberano, visando derrubar um governo, mesmo que liderado por ditador sanguinário. Até a França, outrora crítica das sucessivas administrações americanas, parece estar envolvida, acredito pois que se trata de uma bem intencionada operação de paz. Até a esquerda europeia, portuguesa incluída, permanece no mais absoluto silêncio, sem vigílias pela paz ou bandeiras americanas queimadas, o folclore habitual nestas circunstâncias. Mantenho no entanto a ideia que tudo seria diferente caso George W. Bush ainda ocupasse a Casa Branca.

Comments

  1. A. Pedro says:

    Claro que era diferente e muito, ou melhor, é mesmo muito diferente. Primeiro porque os srs. Bush, Rumsfeld, Dick Cheney e outros falcões não disfarçavam nada, todos sabíamos ao que iam e os atropelos à legalidade internacional, aos direitos humanos e, até, às suas próprias leis (vide Guantanamo, por ex.) que cometeram. Segundo, porque Obama ainda tem, por enquanto, credibilidade e tem-se pautado, até ver, pela legalidade internacional. Terceiro, porque há um mandato claro das Nações Unidas e, para já, a iniciativa até tem pertencido sobretudo à França. Quarto, estes ataques são decididos porque e quando Kadhafi chacina o seu povo e ninguém mexeu uma palha quando, ou porque, o povo curdo foi chacinado, não foram essas as razões da invasão do Iraque.
    Diferençazinhas, António, que fazem toda a diferença.


  2. A credibilidade de Obama ainda não lhe permitiu encerrar Guantanamo, já leva 3 anos de presidência. Veremos no final os resultados, afinal a Líbia também tem petróleo, noutros sítios do planeta sem riquezas por explorar, povos são deixados à mercê de ditadores no mínimo tão sanguinários quanto este. Não vou defender a anterior administração americana, apenas critico esta, muito em particular a atribuição do Nobel da Paz que desde a primeira hora considerei despropositado. Do futuro, falaremos a seu tempo…

  3. A. Pedro says:

    As guerras, sabe-se como começam e não se sabe como acabam. Agora mesmo estão a morrer pessoas, vão seguramente morrer inocentes, vai haver “danos colaterais”. Defender uma guerra é uma coisa que não se faz de ânimo leve. Não sei se haveria formas melhores de evitar a chacina dos líbios opositores de Kadhafi.
    A minha resposta prende-se com o facto de afirmar não ser, sequer, semelhante à invasão do Iraque, a qual se deu evocando motivos falsos (armas de destruição maciça) e completamente obscuros:
    “De acordo com o New York Times, Bush informou Blair em Janeiro de 2003 que estava decidido a invadir o Iraque mesmo sem uma resolução da ONU e sem que alguma arma de destruição maciça tivesse sido encontrada.

    O jornal cita um memorando secreto britânico sobre um encontro dos dois políticos a 31 de Janeiro na Casa Branca, revelando que Bush e Blair constataram que nenhuma arma de destruição maciça tinha sido encontrada no Iraque pelos inspectores da ONU e que o presidente norte-americano referiu a possibilidade de provocar um confronto sacrificando, por exemplo, um avião de vigilância norte-americano pintado com as cores da ONU.” http://tv1.rtp.pt/noticias/?article=58784&visual=3&layout=10

    Agora evoca-se uma razão clara. Discutível, eventualmente como desculpa para outros objectivos mas, para já, clara.


  4. Também concordo consigo que a guerra do Iraque foi uma questão de má consciência, em 91 poderiam ter ido de Koweit city até Bagdad que teriam o apoio da comunidade internacional, não o fizeram, porque não sabiam que fazer com Saddam e temiam que os Xiitas, apoiados pelo Irão, dominassem o país. As mesmas razões que justificam agora uma intervenção na Líbia ou justificaram a Bósnia e Kosovo, poderiam ter sido invocadas quando Saddam bombardeou os Curdos, mas aí temeram levantar um problema à Turquia, que não massacrou, mas também está longe de inocente quanto ao problema do Curdistão. Depois finalmente entraram no Iraque, e 8 anos depois, já conseguiram estabelecer por lá algum governo credível? Que critérios levam agora a tentar remover Gaddafi, porque não Mugabe? E outros? Saberão o que fazer com a Líbia, ou vão construir mais um ninho de vespas? E o Bahrein? Aí interveio a Arábia Saudita, que várias vezes tem conspirado para tentar derrubar o Irão… O meu ponto é que nada mudou nos EUA ou na Europa com Obama, aliás, os Balcãs foi com Clinton…

  5. Antonio Coelho says:

    NUESTRA POSICIÓN SOBRE LA SITUACIÓN EN LIBIA
    —————————————————————-

    1.º Estamos de acuerdo en que la Comunidad Internacional debe intervenir.

    2.º Manifestamos que esta intervención no debe consistir en una guerra.

    3.º Creemos que existen otras formas de arrestar o neutralizar a un dictador.

    4.º Cualquier opción, incluso las ‘no perfectas’, será mejor que una guerra.

    5.º Las guerras apenas afectan a los tiranos, pero sí a la población civil.

    6.º Nos preguntamos por qué no se detuvo y juzgó a Gadafi cuando se pudo.

    7.º Nos preguntamos quiénes vendieron armas al régimen de Muammar al-Gaddafi durante todos estos años, y por qué ignoraron el crimen que implica armar a dictadores terroristas.

    8.º Nos preguntamos por qué los motivos para actuar contra Muammar al-Gaddafi (Libia), siendo idénticos, no justifican actuar de igual modo contra Teodoro Obiang Gnema (Guinea Ecuatorial), Khalifa bin Zayed Al Nahayan (Emiratos Árabes Unidos), Kim Jong-il (Korea del Norte), Abdalá bin Abdelaziz (Arabia Saudí), Ali Abdullah Saleh (Yemen), Hamad ibn Isa Al Khalifah (Baréin) o Sidi Mohammed ben Hassan ben Mohammed ben Youssef Alaoui (Marruecos).

    9.º Muammar al-Gaddafi debe ser puesto a disposición del Tribunal Penal Internacional, pero la detención de un presunto criminal, por sí sola, no puede valer de pretexto para emprender, incorporarse o alentar una guerra.

    10.º No a la guerra.

    ___
    Firmado: el equipo de administración de la página de la Declaración Universal de los Derechos Humanos. En la ciudad de Bilbao, el día 20 de marzo de 2011.

    .Ver mais
    Por: Declaración Universal de los Derechos Humanos

  6. Rodrigo Costa says:

    … Meus Caros,

    Como é que se coloca Kaddaffi perante o Tribunal Penal Internacional?… Notifica-se o homem; manda-se-lhe uma carta, na qual é intimado a comparecer, acompanhado de advogado, e, se não o fizer, paga uma multa pecuniária?…

    Será que o Obama —ou ouitro—, pelo facto de ter sido Prémio Nobel da Paz, está impedido de tomar medidas violentas? Como é que acham que se pode apear um estúpido armado? Junta-se o populacho em Tripoli e dá-se-lhes uns cravos, e eles aí vão, feitos “toinos”, acabar com os sanguinários, e a cantar ” agora, o povo unido, nunca mais será vencido”, e como agora, em Portugal, também, continuar como está, a perder?…

    Por que é que as pessoas não páram de criar slogans sem substância, e se ligam à realidade?…

    É claro que havia alternativa. Deixar que Kaddafi chassinasse a população. Até, porque, realmente, trata-se de um país soberano, onde ninguém teria que meter bedelho… Porém, se a ONU não interviesse… era porque não intervinha, ou porque deveria intervir diplomaticamente, fazendo deslocar, por exemplo, negociadores em fila, cada qual com uma bandeira branca; e, chegados à porta do palácio do Kaddafi, esperariam que ele se decidisse recebê-los, ou, então, vir à janela e mandar-lhes um balázio.

    Ou —por que não?— juntar a rapaziada das últimas manifestações de Março, em Portugal, e esperar que, com a sua força e determinação, pudessem pôr fim ao conflito.

    Peço desculpa, mas eu acho que, por vezes, as pessoas não fazem a mínima ideia do que pode fazer um tipo como Kaddafi. Ainda há pessoas que continuam a pensar que a violência extrema pode ser tratada com delicadeza. Não pode. Do mesmo modo que não se pode, nunca, chegar a acordo com alguém que, de modo algum, quer concordar —a diplomacia tem limites; e eu não acredito que, antes de intervirem, os países afectos à ONU não tivessem tentado, através de conversações, que Kaddafi alterasse o seu modo de dirigir.

  7. Artur says:

    Há por aí muita malta da esquerda que ainda está à espera que os seus sacerdotes opinem sobre o ataque à Libia para eles próprios se pronunciarem sobre o assunto. Neste momento muitos haverá que não sabem se devem continuar a dar o beneficio da duvida ao Sr. Obama ou começarem já crucificá-lo.
    Esta rapaziada precisa de um inimigo de estimação. O sr. Obama não corresponde bem ao perfil desejado de inimigo: é negro, tem um nome cool, bom orador, low profile, etc
    Podem ter a certeza que se tivesse sido o Bush a tomar precisamente as mesmas decisões que o Obama tomou perante a situação na Libia, já o Largo de Camões se tinha enchido de anti-imperialistas a tocarem jambé.

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