as crianças crescem

(texto em quatro andamentos, escrito velozmente ao som de Tchaikovsky)

Piano concert 1 em B Flat Minor

Bem sei que estamos em época de eleições, de lutas políticas, de enganos e mentiras, ou dos mais lutadores que lutam pela justiça e a igualdade. Como Babeuf em 1785, assassinado pelo seu candor em 1795, guilhotinado pelas pessoas do seu partido por falar a verdade, como o nosso Primeiro-ministro demissionário. Não há quem nos governe nem sabemos quando vamos ter um governo apropriado para nós salvar da falência que caiu sobre nós por causa dos próprios governantes. Vamos esquecer e falar do mais importante na vida: as crianças e a sua educação. Se for homem de fé, diria: haja deus para salvar as nossas crianças da hecatombe causada pelos que pretendem governar-nos…

1º ANDAMENTO

O crescimento das crianças, é o que tenho observado ao longo do tempo. Os das minhas, que são um candor, um doce, uma alegria. Essas as minhas crianças sãs para mim e a sua mãe, as pessoas mais importantes do mundo. Feitas por mim, em conjunto com a pessoa da minha paixão. Mas, há mais crianças que pessoas que se dedicam à ciência, as observam e com as quais aprendem. Menores que acabamos por não incluir nos nossos estudos. Porque para um observador das ideias com as quais as pessoas transformam a materialidade da vida para a sua continuidade histórica, voir, a sua reprodução, a criança acaba por ser um dado inexistente.

A Ciência tende a ver a criança como a pequenada que está aí sem mexer nem dizer nada. Só cala e observa e serve para ser mandada ou para aliviar a trabalheira que o adulto deve realizar.

Atitude diferente tiveram através dos tempos, John Locke (1693), Jean Jacques Rousseau (1762), Bronislaw Malinowski (1922), os etnólogos portugueses como Teófilo Braga (11914-1915), Adolfo Coelho (1882-1916), Maria Rosa Colaço ( s´d ), Maria Emília Traça (1992), e toda a equipa que tem comigo trabalhado nas duas ultimas décadas em Portugal, Espanha, França, Holanda, África, América Latina. Philippe Ariés (1960-1972) soube caracterizar muito bem essa atitude diferente, ao longo do tempo.

É com esse respeito de aprender com as crianças que as pessoas que investigavam o seu pensamento, formávamos uma equipa, com debate, criamos uma Revista: Educação, Sociedades e Culturas, um grupo de cientistas, trabalhamos em em vários Países e Continentes. Equipa de que fazem parte Luiza Cortesão, Stephen Stoer, Helena Costa, Telmo Caria, Ricardo Vieira, Filipe Reis, Amélia Frazão, Darlinda Moreira, Ângela Nunes, Paulo Raposo, Luís Souta, Henrique Gomes de Araújo, Rosa Maria Melo, Eduardo Costa, Alexandre Silva, Elvira Lobo, José Maria Cardesin, José Maria Valcuende, Marie-Elisabeth Handmann, Paula Iturra, Blanca Iturra, entre outros. Outros, porque não é minha intenção aborrecermos o leitor com uma longa lista de estudiosos do comportamento infantil.

Quero só dizer que todos nós, como equipa, temos tido a preocupação de andar de papel e lápis na mão, a brincar, a recolher histórias da memória social do grupo no qual a criança vive.

O problema é que a Ciência da Educação fecha-se na instituição escolar, enquanto a Psicologia no problematiza a relação da criança com o adulto e deste com a criança ou na questão da violência intrafamiliar. Tchaikowsky (1877) e Schumann (1838) souberam ver o poema da pequenada nas suas músicas, as quais me acompanham nesta escrita veloz para que o texto chegue a tempo à editora do jornal.

Acabo de regressar da América do Sul. Aí, na comuna de Pencahue, Chile, no dia do aniversário do Libertador Bernardo O’Higgins em 20 de Agosto de 1779, parei o trabalho de pesquisa que estava a realizar com um grupo de crianças para redigir o texto publicado como ensaio num blogue anterior. O debate entre autores, o trabalho de pesquisa que lá realizei com as crianças, causara um imenso debate entre vários autores. Hoje, quero referir-me às crianças que conheci e estudei, faz agora 25 anos, na minha aldeia galega, à antiga camponesa  Vilatuxe. Aldeia onde morei e trabalhei há 25 anos e onde voltei a morar e investigar, após todos esses anos, trabalho acabado faz oito meses, que resultara num livro que combina os comportamentos das crianças de Pencahue e Vilatuxe: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedicões, Porto, Portugal, 1998.

2º ANDAMENTO

Estamos habituados a ver as crianças. Aí estão. Choram. Têm fome, são queridos enquanto exploram os mundos que mal conhecem. Com esforço e atenção concentrada, ouvem, vem e calam. Nessa Vilatuxe galega do começo dos anos setenta, Berta e Pedro Tomé brincavam com os porcos e andavam a cavalo nos mesmos. Os adultos riam e deixavam. Até porque no seu imaginário tinham baptizado os animais com os nomes dos antigos príncipes, hoje Reis depois da morte do Ditador. Era assim que esses pequenos, como a vizinha Beatriz Ramos, exprimiam o que em casa era sentido mas não falado, o descontentamento das pessoas com o sistema político.

Esse sistema político que não permitia que as pessoas exprimissem o que pensavam e desejavam dizer. Esses pequenos sentiam o sentir dos adultos e punham palavras ai onde as meias frases segredavam o que os adultos pensavam do poder político. Neruda (um adulto que escrevia com a dor dos mais velhos, para os pequenos) tinha dito nos anos vinte – por que no enseñan a sacar miel del sol a los helicópteros? Como esse outro Prémio Nobel Chileno, Gabriela Mistral, que pelos mesmos anos 20 tinha escrito Piececitos de niños, azulosos de frios, como os vem y no os cubren, Dios mio…Diferente do saltitar de Berta, Pedro, Beatriz e Paula, por cima das lombadas dos porcos exprimindo a proibida crítica política ao ditador, morto santamente anos depois, com o consentimento dos adultos, que não mandavam calar, era uma verdadeira forma de protesto contra a construção do mundo adulto que a criança percebia mas não sabia explicar. Só sabia sentir o que o adulto sentia e não podia dizer. Nenhum deles, nem o pai de Paula, observador silencioso dos factos para analisar os comportamentos dos pequenos. Mas, foi aí que esses quatro e muitos outros que refiro num livro da minha autoria, aprenderam a dizer, depois de sentir e pensar e elaborar, por pura afectividade respeito pelos seus maiores, o que os seus adultos calavam.

O protesto democrático pela liberdade que Rousseau tanto procurou para o pequeno e para o adulto, de exílio em exílio, só podia ser dito pelo pequeno. Era a criança, como é agora, que condicionava a conduta do adulto. Porque no segredo da casa, tudo se falava, mas tudo dito para não ser repetido lá fora. Excepto, nas brincadeiras que a pequenada imaginava a partir do que ouvia e sentia dos adultos que amavam. Adultos que sabiam dizer de forma tangencial, para não serem tão abertos que viessem a aparecer palavras comprometedoras para a segurança do grupo doméstico que amavam.

A brincadeira, saiba a pequenada ou não, é política e como política, liberta a opressão dos adultos responsáveis pelas crianças. Foi assim em Portugal, como foi em 1848 na Comuna de Paris que abalou o mundo e fez entrar a Prússia em França. Como no Chile de hoje, onde as crianças utilizam a fala oficial frente aos seus mestres e nas suas brincadeiras utilizam os palavrões que revelam os silêncios das pessoas adultas.

3º ANDAMENTO

Porque a conduta do pequeno condiciona a conduta do adulto. É um facto observado por mim e pelos meus companheiros de pesquisa em vários Continentes e Países. Nem digo os pequenos mortos em Ruanda, que Paula Iturra em Amesterdão trata analiticamente para os pais fazerem o luto. A conduta dos pequenos condiciona mais a dos adultos que o contrario. É bem verdade que as palavras vêm do adulto, bem como as ideias. Como é também verdade que a realidade a ser aprendida pela criançada, é a verdade exprimida pelo sentimento do maior. Um maior que nem repara que o gesto da cara, o protesto da palavra, a poupança nos ingressos raros, o comentário com a vizinhança em presença do puto e em voz calada, mostra aos mais novos a contradição entre a lição dita oralmente e com punição, caso for repetida, e o riso forte Das Auroras e Pepes Tomé Fernández, dos Pepes Ramos, e o riso profundo e forte e honesto dos mesmos perante a ironia dos inventos dos príncipes porcos, hoje Reis respeitados ou distantes.

O adulto vê condicionada a sua conduta, conscientemente ou não, pelo temor de ouvir as suas palavras serem repetidas pela pequenada. Sem reparar que a pequenada é fiel quando há, como nos casos supracitados, amor, cuidado, histórias que se contam, agasalho, comida quente, passeios quando possível.

O adulto quer manter a sua vida como se não houvesse entendimentos diferenciados, horários diferenciados entre as duas gerações, ou às vezes três. Quando o adulto não repara que os horários e hábitos de interacção social limitam a liberdade assim denominada, que o adulto tem. Porque esse mais velho já não pode, por um tempo, fazer só o que quer: tem de tomar conta de fraldas, de perguntas, de não substituir iniciativas, de sugerir ideais alternativas quando os pequenos podem ofender os mais velhos com as suas brincadeiras. Ou, pôr em aperto os outros, com as suas opiniões espontâneas, nascidas da diferença do que vê no seu lar e do que observa no lar dos outros. Aí nasce a crítica feita dentro de casa, quando o adulto manda calar o mais novo, sem reparar que o mais novo está a construir uma lógica que virá a reger a sua vida mais tarde.

Eu diria que o adulto não cresce. Porque para crescer, deve separar em debate com o novo, o que sente e pensa, do que o mais novo observa.

Beatriz disse-me há poucos meses, 25 anos depois da sua infância: a tua sogra, Raul, bebia e fumava até não poder mais. O que acontecia é que ela era uma dama que não trabalhava e que, de visita à sua família na aldeia durante as suas férias, tomava o seu aperitivo e fumava o seu cigarro depois do jantar. Ora isto, contemplado pelo hábito da mulher que só trabalhava e tinha hábitos diferentes do homem, era uma perversão para uma pequena e para o seu lar. Lar que nunca usou o método comparativo para explicar que o mundo não é etnocêntrico, que é relativo.

4º ANDAMENTO

Relativismo que, crescida, a pequenada passa a conhecer e não só não critica, como aprende e prática de forma parcimoniosa. Vinte e cinco anos depois, quando o matrimónio acontece, e ao par se junta, a profissão, o cálculo, a liberdade para utilizar o imaginário no cálculo e já não a brincar aos príncipes com os porcos.

Crianças monárquicas por hábito, para assegurar a democracia hoje vivida em tanto País por onde tenho andado. Criança que nem o adulto anterior, acaba por entender. Porque os Pedros desenhadores arquitectos, sem voltarem à aldeia, as Bertas mestras, as Beatrizes proprietárias e comerciantes, as Paulas psicanalistas, tratam os seus adultos com a distância que lhes dá o saber da Ciência que praticam. Uma Ciência que acham diferente da dos seus adultos e os levam a tratar os mesmos como se fossem seus clientes. Tudo isto agravado pelo novo ideal da autonomia e do individualismo, não vividos pelo adulto maduro. A geração anterior está muito perto em idade, por assim dizer, mas entende de forma muito diferente o real.

A criança cresce agora numa família restrita, de pares sucessivos, procurando a emotividade da família alargada. Mas, com o objectivo de serem autónomos, individualistas, de pares de vida celibatária, heterogénea, com acordares novos para a afectividade. As crianças crescem e fazem  do adulto anterior, uma pequena criança. Porque o adulto anterior guarda a afectividade e comemora o sucesso de mudança de vida, em silêncio, sem entender muito o conteúdo das conversas. Num curto espaço de tempo, as duas culturas, a adulta e da infância que tenho observado durante décadas, têm ganho distância no entender, no saber, na prática.

Ali, onde há 25 anos encontrei um conjunto de seres com um modo de vida rural a tratar do campo, encontro agora um passado que desaparece para dar passo a raros empresários rurais, e uma multidão de profissionais que fazem da vida anterior, quotidiana, um eventual fim-de-semana. Com correcção dos mais adultos. As crianças crescem com a ética desses adultos, transformada pela entrada nos Países das ideias semeadas no Séc. XVIII e tendo hoje o lucro como principal objectivo. Objectivo que, há 25 anos, nem era percebido pelos mais novos, nem estava nos cálculos dos mais velhos.

Porem, a criança precisa de ser estudada no seu contexto conjuntural, transitório, mutável. Reiterado como o tempo, todos os quarenta anos…Como vamos voltar a explanar depois. Orgulhosamente à laia de Rousseau, como defendem Stoer e Magalhães (1998). Como todos nós. Porque as crianças crescem, aprendem a ser adultas, enquanto nós, os adultos mais velhos, devemos aprender de novo saberes das suas descobertas.

Raul Iturra

Fonte: Vilatuxe, Galiza, Espanha, 25 de Setembro de 1998

Parede, 31 de Março de 2011

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Muito boa escolha musical. Dos meus preferidos.

    Os Monty Python fizeram uma paródia simplesmente deliciosa sobre este concerto:

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