Ana Maria Bettencourt: outro membro da coligação negativa contra a Educação

 

Em entrevista ao Público de ontem (não disponível na Internet), Ana Maria Bettencourt, presidente do Conselho Nacional de Educação, reaparece para voltar a dizer o que já disse várias vezes. Entre outras coisas, diz que não pode haver tanto abandono e tanta reprovação, que as escolas devem detectar e apoiar com celeridade os alunos com problemas e que “não se pode contar com as famílias”.

Relativamente aos dois primeiros pontos, nada a opor. O problema é que isso exige recursos humanos suficientes, o que não acontece em escolas com falta de psicólogos e de assistentes sociais, com falta de tempo para o trabalho individual dos professores, com um estatuto do aluno que serve para mascarar o abandono escolar, com a diminuição do número de funcionários não docentes, com o amontoamento de escolas em mega-agrupamentos, entre muitos outros aspectos. Um Conselho Nacional de Educação teria de chamar a atenção do governo para todas estas questões, mas, para isso, teria de ser um organismo independente e não uma instituição que serve para produzir estudos e conclusões que sustentem as políticas educativas desse mesmo governo.

Depois, já não é a primeira vez que Ana Maria Bettencourt aparece a desvalorizar a importância das famílias no sucesso escolar dos alunos, caminhando ao contrário da ideia de que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A senhora, servil como habitualmente, pretende acentuar a ideia de que os governos devem reduzir ao mínimo políticas sociais, como já tive ocasião de afirmar aqui.

Entretanto, nesta reportagem, ficamos a saber que o sucesso dos alunos apoiados pela EPIS (uma instituição de contornos suspeitos, é certo) está também ligado à mediação que é feita entre professores, alunos e famílias. Estranhamente, um dos parceiros da EPIS é o Ministério da Educação. Em que ficamos? Contamos com as famílias ou não?

Comments


  1. … Gosto muito de escrever, na sequência de gostar muito de reflectir… No entanto, começo a questionar-me se faz sentido hipotecar o tempo que, ler-vos e comentar, me levam, na medida em que os poderes estão perdidos, e os poderosos e fracos recusam-se à reflexão, acabando inócuas as observações que aqui e noutros espaços são feitas.

    Eu diria, inclusive, que os poderes se familiarizaram com a vergonha e absorvem, com grande naturalidade, todo o tipo de manifestação. De facto, temo que só a violência possa interromper a marcha da horda dos irresponsáveis; porque, entretanto, as palavras, as manifestações, os votos em branco e a abstenção… não me parece que surtam efeito.

    Como dizia, ontem, a um amigo com quem conversava, vista daqui, a Humanidade está carecida de um ou mais ditadores; alguém que trace um caminho sensato, que compreenda os segredos da Vida, que nos entenda meros elementos necessariamente sujeitos às leis que nos transcendem, e refaça, por isso mesmo, aquilo a que chamo a coluna das prioridades —a saúde e a educação que compreenda não só o ensinamento ou a aprendizagem das ciências exactas, mas, também, a que, pelo uso do Pensamento, ajuda a suster os ímpetos da ambição desmedida.

    Na sequência, eu dizia que essa pessoa ou essas pessoas tinham que ser, inevitavelmente, lúcidas e cruéis, porque não pode haver recuperação dos equilíbrios sem que haja vítimas; e é difícil, muito difícil, conjugar a Razão e a razão afectiva.

    Quando outro dia se falava da hipótese de recuperar o Latim, percebeu-se que um ministro ou secretário de estado terá dito que já tinham sido feitas consultas, junto dos pais, creio… e que a repercussão não foi no sentido de que a disciplina tivesse acolhimento…

    É claro —digo eu!— que, nesta altura, os pais —nem todos, obviamente— prefeririam, antes, que as escolas ajudasem os filhos no domínio das consolas; sendo, até, possível que, facilmente, a “nitendo” ou a “microsoft”, ou as duas, se propusessem suportar os custos de professores e alunos —a exemplo do que aconteceu com o “Magalhães”, com os fabricantes e os servidores disponíveis para todo o apoio… Porém, por azar, de uns e de outros, começa a perceber-se ou a suspeitar-se que a Vida sobrevive sem informática, e não permite a sobrevivência a quem não lhe apreender as bases, por muito que domine os computadores.

    Quero eu dizer, então, que a Escola deve ser pensada por especialistas, por gente preparada e capaz de estruturar os cursos e os respectivos curriculos disciplinares, tendo em atenção as prioridades e a eficácia…

    Aos pais, caberá, única, natural e obrigatoriamente, proporcionar, aos filhos, condições de vida que os levem à Escola, já pensada, e dela extraiam aproveitamento —as situações especiais, como a sobredotação ou qualquer impedimento que seja obstáculo ao desenvlvimento dos alunos, devem ser contemplados por escolas especializadas. A má educação não é uma característica especial nem pode ser motivo de perturbação do funcionamento da Escola. Por razões de má educação, os psicólogos não devem estar na Escola; devem, antes, ir a casa dos pais, por ser lá, a montante, que se encontra a razão dos problemas…

    É, sim, uma questão social; ela própria reflectindo os dislates governativos; necessitando, cada português, de acompanhamento psicológico, ou mesmo psiquiátrico; porque há o risco e há o facto, já, de haver famílias inteiras de pacientes sucumbindo à ausência de linhas de orientação. Em consequência, a Escola tornou-se, pouco a pouco e acelaradamente, o esgoto e a etar de um Pais a caminho da putrefacção e carecido de reciclagem.

    Não vejo —sinceramente, não vejo—, entre os que se perfilam —no fundo, mais coisa, menos coisa, os mesmos!— quem tenha lastro para pensar profundo; para traçar linhas programéticas que recuperem a Escola e a paz de que o ensino e a aprendizagem não prescindem.

    O que eu vejo é a aflição pelo poder, pelas mordomias; as demonstrações, constantes, de falta de princípios, os quais torpedeariam as “negociatas”. Como é que esta gente pode reabilitar e dar sossêgo à Escola?…

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  1. […] de novo, vindo de uma entidade tutelada por Ana Maria Bettencourt. Nas escolas, os problemas são, na maioria dos casos, detectados e diagnosticados, mas muitos […]


  2. […] tem sido apoiado por ministros da educação e por alguns satélites, como é o caso de Ana Maria Bettencourt, a presidente do Conselho Nacional de […]


  3. […] E tudo começa no berço Posted on 28/02/2012 por António Fernando Nabais O título deste texto é copiado descaradamente de outro de um livro lançado ontem. Já não é a primeira vez que trago ao universo do Aventar a magna questão do peso que os factores extra-escolares têm no rendimento dos alunos, questão essa recorrentemente ignorada pelos vários responsáveis políticos e teóricos da Educação. […]


  4. […] na prática, para disfarçar problemas educativos e não para os resolver: Bettencourt esperava que a Escola fizesse tudo sozinha e Capucha defendeu o […]

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