Dicionário do futebolês – comentadores

Na minha juventude, ficava à espera das imagens da jornada no Domingo à noite e acabava saciado com os resumos de três minutos por jogo. Para o adolescente que ansiava por imagens de pontapé na bola, o mundo de hoje é um banquete pantagruélico que começa no Youtube e acaba na Sporttv.

Nesses tempos distantes, começou, a pouco e pouco, a insinuar-se a figura do comentador, que, para meu desespero, retardava o aparecimento do fundamental – as imagens dos jogos – com explicações para o resultado final, naquele tom de quem já sabia tudo antes de o jogo terminar. Já nesse tempo, o jogo começava a perder terreno para a conversa.

Com o aparecimento das televisões privadas, a televisão tornou-se cada vez pior, sempre pronta, até hoje, a explorar os sentimentos mais baixos e as pulsões mais rasteiras. Rapidamente foi inventado o conceito do programa sobre futebol, com comentadores ligados, normalmente, aos três grandes. Num mundo minimamente sério, a televisão poderia servir, também, para fazer um pouco de pedagogia. Na realidade, estes programas servem para levar a casa das pessoas as mesmas figuras tristes que qualquer um de nós é capaz de fazer num café, entre amigos e adversários, gritando grandes penalidades a nosso favor e chamando virilidade a agressões perpetradas pelos nossos.

Não gosto de olhar para a televisão e encontrar o pior de mim. Para isso, já basta o dia-a-dia. Quando leio, procuro quem escreva melhor do que eu. Quando vejo televisão, dispenso o consolo de ver outros a fazer figuras tristes, sobretudo se se trata de pessoas que teriam, em teoria, a obrigação de dar o melhor de si.

Rui Gomes da Silva é um dos muitos papagaios que pululam pela televisão a defender o indefensável, como o faz Manuel Serrão ou como fazia até há pouco Dias Ferreira, para incluir referências aos três grandes e a lista poderia continuar, porque, com raras excepções, os maus exemplos não faltam.

Ora, um cidadão decente, face a tais espectáculos tristes tem duas hipóteses, no máximo: ou se diverte com bonomia ou muda de canal. Um cidadão decente não vai, decerto, perder tempo a agredir, nem que seja verbalmente, alguém que se dedique a prescindir completamente do cérebro para atacar ou defender clubes.

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