A minha guerra colonial

Setembro de 1972. Escola Prática de Infantaria, em Mafra. EPI – Entrada Para o Inferno. Vivia-se um dos períodos mais intensos da guerra colonial. Uma parte do convento abria- se diante de mim numa voragem de tácticas, de fogo real, de crosses para a Ericeira, de slides na foz do rio Lisandro. Granadas, G3, campo de infiltração, progressão nocturna que, no entendimento do capitão que metralhava de perdigotos os cadetes das redondezas, “às vezes demora dias”! E o alferes instrutor, bronco como um bacamarte, a inverter os pronomes nas respostas às questões dos cadetes instruendos em fase de aprendizagem acelerada nas artes da guerra: “Não foda-me, nosso cadete”. “Fique descansado, meu alferes.” O que eu queria era que não me fodessem a mim.

E o insuportável odor a caril em frangos de que, no prato, só se viam estilhaços, como se apenas tivessem pescoços destruídos a granada! E a semana de campo, já na especialidade, a fazer parte do IN (inimigo), carregando um rádio transmissor/receptor, que acompanhava o pequeno pelotão de sapadores. E após uma emboscada simulada às NT (nossas tropas), a voz do major no posto de comando, a levar aquela merda bem a sério: “Quantos mortos?” E eu: “Nenhum”. E ele: “Foda-se! Uma emboscada sem mortos não é emboscada!” “Ai não?!”, pensei eu. Parti a antena do rádio e nunca mais comuniquei. Testemunhos posteriores garantiram ao major que a antena se partira na sequência da resposta aguerrida das NT. Ele quis acreditar e eu escapei. E assim fizeram de mim um oficial miliciano de infantaria, conquanto as provas físicas finais no percurso da pista de obstáculos redundassem intencionalmente num rotundo zero. Parece-me, mas não garanto, ter ouvido então a um tenente: “Porra, pá! Este gajo nunca será um Aquiles, nem sequer um Heitor!” E mandaram-me para uma especialidade de elite – analista de informações. Dito de outra forma – assim a modos que um especialista da inteligência militar.

Passaporte para o Estado Maior do Exército, depois de passar pelo BRT, na Trafaria (Batalhão de Reconhecimento das Transmissões ou Batalhão de Recreio e Turismo, conforme as ocasiões), onde me especializaram na decifração de códigos encriptados e onde aprendi a jogar bridge e a gostar de caracóis. Com um primeiro e segundo comandantes de nome Batista. O primeiro, descomunalmente cabeçudo, era o Batistão; e o segundo, de cabeça pequenina, de alfinete, o Batistinha.

Estado Maior do Exército, Maio de 1973. A chefiar a equipa de informações responsável pela Guiné-Bissau, onde o Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) ameaçava cada vez mais com um massacre militar. Aqui, em Santa Apolónia, não havia guerra. Havia sim os ecos trágicos de uma guerra a sério. Travada nas matas e nas bolanhas de Guidaje, de Guileje, de Bambadinca, de Cufar, de Catió, de Madina do Boé… Amílcar Cabral fora assassinado há pouco tempo e o PAIGC intensificava os combates. Ataques a aquartelamentos, emboscadas, flagelações sucessivas. Minas e mais minas. E mortos. E feridos evacuados. E mais mortos. Divulgados a conta-gotas em informação filtrada pela Censura e quase sempre “vítimas de acidente com arma de fogo”, segundo a propaganda do regime. Só que o fogo tinha origem habitualmente nas armas do inimigo. E a cada dia me chegava o retrato cruel de uma guerra criminosa alimentada a mentiras. Com a independência declarada unilateralmente pelo PAIGC nas áreas libertadas de Madina do Boé. E Marcelo Caetano, na TV, a garantir que não. “Sem Madina e sem Boé”, dizia. Mentiroso. E os relatórios que tinha que enviar semanalmente ao general, chefe da 2.ª Repartição do Estado Maior. Retirados da análise de documentos classificados – muito secreto, secreto, confidencial, reservado. Que, oriundos do teatro de guerra, me chegavam quotidianamente às mãos, com a crueza das tragédias vividas. E verbetes inúmeros em ficheiros intermináveis com a movimentação de guerrilheiros, alguns deles de nomes cacofónicos inesquecíveis – Mostrápila à Xixa, Fodé Dabó… E havia João Bernardo Vieira, o comandante Nino, recentemente assassinado, acerca do qual eu sabia tudo, mesmo tudo. E a moral das nossas tropas cada vez mais baixa. E mortos. E feridos, estropiados, evacuados. E aviões abatidos por mísseis terra-ar.

Quatro numa semana em Julho de 1973. Quatro Fiat G91. E a eminência de um massacre militar.

Até que… Abril de 1974. Pouco tempo depois o cessar-fogo com o PAIGC. E a “minha” guerra acabou aí. E agora que revivo tudo isto, chego novamente à conclusão que não fez sentido nenhum. Anos perdidos de uma geração criminosamente estropiada. Sem remédio.

Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 13 de Abril de 2011

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Muito bom texto. Irónico e trágico. Eu vivi a guerra em seu pleno coração, sempre no mato da Guiné. Identifico-me muito bem com a ironia, um bom marcador do que é o ridículo da tropa profissional e o nojo da mentira política, e com a tragédia que se abateu sobre a nossa juventude que nada tinha a ver com aquela merda, empurrada para ali para defender a quinta da CUF e da Casa Gouveia.

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