Os obscenos dinheiros do futebol

Sou um apreciador de futebol em final de processo de desintoxicação. Diversas e substantivas razões levam a alhear-me do dito “desporto-rei”. Cheguei ao ponto de, pela TV do café mais próximo, me dispensar de assistir a um jogo daqueles que há tempos considerava imperdível – por exemplo, um ‘Barcelona-Real Madrid’, dito assim, em respeito pela ordem alfabética.

A violência, sobretudo entre as claques dos ‘dois grandes’, e todo esse espectáculo degradante de confrontos entre uns e outros e a polícia a tirotear, mostrados nos telejornais, constituem motivos de sobra para a minha repulsa.

Todavia,  também dão forte contributo notícias como esta, da saída Villas-Boas poder representar a receita de 15 milhões de euros para o FCP; ou então esta, em que é contado que Ronaldo ganhou 71 mil euros diários, em 2010.

Tais casos, e ainda é mais grave, são meras gotas de água de vastíssimos mares. Nos quais também  navega a construção do ambientalista Sócrates de 10 estádios de futebol e de outras infra-estruturas que entram – e de que maneira! – na contabilização do défice público, assim como do défice externo total. Os tais défices que trouxeram até nós a troika e tudo o mais que se vai seguir na caminhada, de cada vez mais portugueses, na direcção da pobreza ou mesmo da miséria.

Não é, obviamente, redutível a Portugal o fenómeno da obscenidade dos dinheiros futebolísticos. É impossível ignorar os mais de 4,5 milhões de desempregados em Espanha; ou, em síntese, as percentagens da população em risco pobreza publicadas pela EUROSTAT para 2009 (últimas estatísticas publicadas). Observe-se as elevadas percentagens da Itália e do Reino Unido, destinos eventuais apontados para Villas-Boas.

É o futebol e o mundo, como diria Rodrigo Guedes de Carvalho. Triste, muito triste, acrescento eu.

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Pão e jogos, uma receita antiga. O primeiro vai faltado mas compensa com o segundo.

  2. Carlos Fonseca says:

    Nem mais.

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