Sair do euro é mesmo uma opção?

Os economistas terão uma resposta técnica. Não sendo o meu caso, limito-me a opinar sobre a minha memória dos anos 80. Nesse tempo, de cada vez que havia uma crise orçamental, desvalorizava-se o escudo e todos ficavam mais pobres de um instante para o outro. A inflação era galopante e os juros concedidos aos depósitos a prazo andavam na casa dos dois dígitos. Pura ilusão, já que esses juros nem cobriam o que a inflação levava. Quem tinha meios para isso, teria as suas contas em moeda estrangeira para fugir a este problema. Os restantes mortais simplesmente viam as suas poupanças desaparecer e, simultaneamente, o mesmo salário numérico não chegava para as mesmas compras.

Hoje, com o euro, tal mecanismo não é possível ao nível de um só país mas também ficamos mais pobres. Pagamos mais impostos e cada vez sobra mais mês no fim do ordenado. Mesmo imaginando que sair do euro não teria outras implicações, se fosse possível termos neste preciso momento o escudo, logo este seria desvalorizado como nas décadas anteriores. O mesmo empobrecimento nos atingiria porque o que é importa é resolver o problema e isso passa por parar o descontrolo da despesa. Não vejo por isso que sair do euro seja uma opção, já que o problema não é a moeda mas o que com ela se faz.

Comments

  1. Ana Bento says:

    …« o problema não é a moeda mas o que com ela se faz.»GOSTO

  2. Carlos Fonseca says:

    Ainda há que contar com outro efeito de grande impacto negativo: toda a dívida externa continuaria titulada em euros e, com o escudo desvalorizado, o esforço dos portugueses ainda maior se tornaria. A não ser que os credores aceitassem perdoar dívida na mesma proporção da desvalorização, ou seja, aquilo a que chama uma ‘reestruturação da dívida’.

    • jorge fliscorno says:

      Certo. Mas se bem percebo, uma eventual ‘reestruturação da dívida’ não implica uma saída do euro.


  3. O Estado era mal gerido com o Escudo e continuou mal gerido com o Euro. Daí, a desvalorização do Escudo in illo tempore e a falência actual. Mas enquanto com o Escudo o FMI veio mais cedo (por isso mais a tempo de corrigir a trajectória) agora o descalabro não tem precedentes na sua dimensão. A moeda própria é uma válvula de segurança; o Euro não – é o marco alemão com outro nome. As duas intervenções anteriores deram um suplemento de alma ao sector produtivo; o Euro destruiu uma parte do sector produtivo e incentivou, por termos taxas de juro alemãs, o endividamento privado e público e o consumo de bens importados. Estranho caso: A miragem do desenvolvimento pelo passe de mágica de termos moeda de outros mais eficientes é tão poderosa que não reconhecemos o tiro nos pés que a adesão foi; e sem esse reconhecimento é claro que só podemos persistir no erro – até que nos empurrem para fora, o que já há muito deveria ter sucedido.

    • Carlos Fonseca says:

      Completamente de acordo, Limito-me a dizer: agora o que foi feito apenas será corrigível à custa de muito sacrifício colectivo.

    • jorge fliscorno says:

      Certo. Quanto a esta perspicaz observação

      A miragem do desenvolvimento pelo passe de mágica de termos moeda de outros mais eficientes é tão poderosa que não reconhecemos o tiro nos pés que a adesão foi

      lei-o-a em função do erro de precipitação de aderir ao euro. Continuar no euro, quanto a mim, não é a questão mas sim se sair resolve alguma coisa. E se voltar à moeda nacional, pelo contrário, não nos traria mais problemas.

      • Alberto Almeida says:

        ja passou algum tempo. Hoje Setembro de 2011, o problema já não é só Portugal.

        Os pressupostos estão incorrectos.

        O problema de Portugal, foi não ter aproveitado a baixa taxa de juro, inicial, com entrada no euro, para inovar e investir em novos negócios e promover o 3ºD da Revolução dos Cravos. ERRO POLITICO NOSSO E SÓ NOSSO. Desde a derrota de Cavaco Silva, nas legislativas de 1995, que se vem falando da alteração do modelo de desenvolvimento economico e deixar de assentar nos baixos salários e no betão.

        O problema da Europa. É o problema do crescimento económico, associado ao envelhecimento população. O Estado Social, já não é sustentável se não existir crescimento económico. Só há crescimento económico se existir investimento. Como o estado social, está a secar a capacidade de investimento (existencia de poupança) (maiores impostos), e com o envelhecimento da população existe menor capacidade para inovar ( menor apetencia pelo risco) dificilmente se cresce.

        As economias dos paises emergentes, e resto do mundo. Embora pujantes, têm crescido a custa dos mercados desenvolvidos, reduzindo ainda mais a capacidade de promover o dessenvolvimento das economias europeias, via aumento da produção, e por aoutro lado reduz o output (produção) reduzindo o PIB. O mesmo significa permanecer, ou agravar a capacidade de criar riqueza. Alem disso, levou a orientação da capacidade de investimento, pois remuneram melhor as poupanças (ocidentais) que investem nos novos negocios e mercados dos paises emergentes. Os dolares e os euros, fojem todos para esses paises.

        O problema de Portugal é por assim dizer um problema duplo: Fraco crescimento (problema da europa) e; Problema Estrutural, a capacidade de criar riqueza por ter a sua capacidade produtiva, desfocada das necessidades colocadas pela procura mundial. O tecido produtivo, é antigo, pouco inovador e de baixo valor acrescentado, (há excepções mas apenas isso, não têm dimensão para absorver o excedente de mão-de-obra, desemprego). Mas mais grave, a capacidade de gestão dos recursos, em Portugal, é muito baixo. Não há visão estratégica, e as barreiras culturais (inveja e mal dizer) impede premiar a capacidade de inovação e de assunção de risco.

  4. manuel.m says:

    Saír do Euro será uma opção ? Mas ter opções é ter liberdade de escolha coisa que Portugal obviamente não terá.Tem-se como certo que a Grécia vai entrar em default seguindo-se a Irlanda e nós .Mesmo com um valente hair cut (redução da divida em 15%,20%?) ir pagando o resto será praticamente impossivel .Mais a mais os credores, lixados que ficarão com o calote,não nos emprestarão mais um chavo .Falidos e sem crédito que saída nos restará ?
    Pense nisso.

    manuel.m

    • jorge fliscorno says:

      Seja duma forma, seja de outra, estamos tramados. Neste momento, além de se procurarem eventuais soluções, quanto a mim importa também perceber como chegámos aqui.