O que se passa com Soares?

Mário Soares, inegável raposa velha, não dando ponto sem nó, lançou no panorama político estas pérolas, numa entrevista ao jornal i:

Se é possível atribuir culpas, de quem foi a culpa de termos chegado aqui, à necessidade de pedir um empréstimo ao FMI outra vez?

Para responder com isenção a essa pergunta, dir-lhe-ei que as culpas são repartidas. Não interessa nada agora afirmar que as culpas são de uns ou de outros. (…)

Porque é que Sócrates e Passos Coelho não se entendem?

(…) Custa-me a compreender isso. (…) É verdade, acho que [Passos Coelho] é uma pessoa com quem se pode falar e acho que é necessário falar com ele e, se possível, chegar a acordo (…).

A ideia de pedir um compromisso aos partidos foi sua?
Não, a ideia foi de várias pessoas. Reuniram-se espontaneamente porque estavam ansiosas quanto ao que podia acontecer. Naquele dia, de quarta para quinta-feira, em que chegou a temer-se que houvesse uma corrida aos bancos para levantar o dinheiro, as pessoas começaram a ficar aflitas, os banqueiros em primeiro lugar, mas não só, as pessoas mais variadas, de todas as condições e de todos os partidos. Houve então uma meia dúzia de pessoas que se puseram de acordo para fazer um apelo aos responsáveis dos partidos, para se entenderem entre si, sem se injuriarem nem atribuir reciprocamente as culpas. (…)

Tem sido acusado de às vezes dizer bem de Pedro Passos Coelho. Quais são as melhores qualidades do líder do PSD?
(…) Sempre foi, comigo, uma pessoa cordial e aberta. Acho-o simpático, mas nunca tive com ele grandes relações de intimidade. Ultimamente tivemos alguns encontros, para estabelecer algumas pontes necessárias. Sem dificuldades. Acho-o uma pessoa bem-intencionada, embora, para meu gosto, demasiado neoliberal. Mas isso nunca impediu um diálogo construtivo entre nós.

Em linha com a campanha que o Expresso tem vindo a promover para que se estabeleça um governo PS/PSD, Soares estabelece mais umas pontes nesse sentido. Os tais 47 que apareceram no Expresso de há duas semanas, ontem o presidente da Mota-Engil, hoje Soares e diariamente várias pessoas a escreverem e falarem sobre a inevitabilidade de um governo com os dois do costume. Esta é sem dúvida a melhor estratégia para que aqueles que têm governado nas últimas décadas (e não me refiro aos partidos) mantenham o poder. É também a melhor forma do próprio PS não ser varrido do mapa e de se manter no poder (estratégia esta muito coadjuvada pelo inacreditável amadorismo do PSD de Passos Coelho).

É também uma estratégia de combate à linha PCP+BE que se começou a formar e que poderia obrigar o PS a ligar-se à esquerda, com as mais do que prováveis preocupações que isso traria ao gigantesco grupo de gente que faz os habituais negócios encostados ao Estado. Não que esta ala esquerda defenda menos Estado, pelo contrário até querem nacionalizar muita coisa. Mas é abordagem à economia, que colide com o presente modus operandi, que acaba por ser um catalisador do centrão.

Paralelamente a esta linha de união para não ficar de fora, têm surgido diversas manifestações da tese “são todos iguais”, o que acaba por contribuir de forma eficaz para as pessoas acharem que não vale a pena votarem. Que a sua escolha em nada vai alterar o curso dos acontecimentos porque, precisamente, venha quem vier, “eles são todos iguais”. A abstenção favorece quem está no poder e o PS sabe-o. Marinho e Pinho, por exemplo, deu voz a esta tendência de uma forma extraordinariamente explicita.

Para nós, contribuintes, o problema desta abordagem é saber se o centrão nos serve, já que aos 47 e afins serve seguramente. A minha carteira sucessivamente aliviada do vil-metal por décadas de progresso magalhónico-alcatroado-bpnizado avisa-me que será melhor pensar noutras possibilidades.

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