O voto é uma arma dos professores, afinem lá a pontaria

No dia em que o PS perdeu o voto dos professores, e de muitos dos seus familiares, a cabeça de muito boa gente aqueceu. É natural, até na minha que já declarou publicamente o seu voto passou por uma fracção de segundo um desvio para os lados do PSD.

Como o tempo arrefeceu espero que passe aos os meus colegas. Serve este intróito para comentar o que ontem escreveu o Paulo Guinote e o Reitor resumiu assim

Pois é, para quem não quer o que está nem quer aquilo que não é solução, só pode votar no PSD ou no CDS. (Peço-te para não levares a mal o facto de ter dito claramente aquilo que apenas quisestes sugerir).

É uma leitura mais oportunista que oportuna, sabemos do que a casa gasta, mas quando Paulo Guinote escreveu isto:

Se for o PS, sozinho, coligado ao centro-direita ou à esquerda, duvido que os parceiros tenham força e interesse em tornar a questão dos professores um problema central no arranjinho.

pôs-se a jeito. Vamos lá a fazer contas à vida como ela é: não há coligação possível do PSócrates à esquerda. E se houvesse os parceiros fariam muita questão na questão dos professores, pelo simples facto de que seria uma das poucas coisas que um Sócrates imaginário deixaria cair: não lhe afecta os interesses económicos e sociais, e essa é a parte essencial do problema, é uma mera teimosia, bem menos relevante do que a sua natureza de ex-JSD que foi fazer carreira política para onde lhe pagavam mais.

Nem é essa a questão. Os problemas dos professores estão muito mais para o lado da gestão das escolas que para a patética avaliação de compadres e papéis. E os problemas do país também. Espero que Passos Coelho ganhe por meia-dúzia de votos, com a consequente exportação de José Sócrates para o aterro sanitário da História. Mas espero também que a direita não tenha maioria, que o PS se refaça (para pior é impossível), e sobretudo que a esquerda cresça.

Uma maioria de direita lançaria as escolas no caminho da municipalização e privatização (o objectivo final do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues), coisa muito pior do que aquilo que temos. Uma direita com vitória de Pirro no mínimo não piora as coisas. E para uma vitória de Pirro basta que se leiam as sondagens com olhos de ver: o PS não está a subir, o PSD vai descendo por sua obra e graça (e ou cala os Leite de Campos ou perde mesmo) e quem sobe são os indecisos. Mesmo a deslocação de votos do BE para o PS é recuperável, contemos com o FMI & associados para isso.

Donde muito corporativamente (que também não tenho vergonha disso) ou se vota à esquerda, ou se vota para pior, se já não vos basta assim.

O resto são quedas de granizo. Os tornados são bem piores.

Comments


  1. Nesse post também escrevi isto:

    Se for o PSD, sozinho, coligado ao centro-esquerda ou à direita, apresente que modelo apresentar, haverá sempre um sector muito militante e vocal que se insurgirá contra algo que será – antes de qualquer análise – de Direita. E então veremos reverter muitos dos argumentos agora usados.

    Só para contextualizar.
    Claro que o Reitor extrapola o que bem entender…


  2. O voto não é arma de nenhum grupo profissional. É antes arma dos 6.000.000 de portugueses que vivem do Estado. Estado que os tornou pedintes e subsidiodependentes, precisamente para se manter a fachada democrática e criar nos incautos a ideia de que o voto é arma de portugueses livres.
    Portugueses cuja liberdade depende, na sua esmagadora maioria, do pão do Estado.
    Só que, se o Estado não produz, quem dá o pão…

  3. AntónioA says:

    “Uma maioria de direita lançaria as escolas no caminho da municipalização e privatização (o objectivo final do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues), coisa muito pior do que aquilo que temos. ”

    Contra (não) factos não há argumentos…


    • A actual lei de gestão das escolas, como facto, chega perfeitamente. O facto de aos municípios já terem sido entregues responsabilidades nas gestão das escolas (edifícios escolares e escola a tempo inteiro) iniciou o caminho: muito municípios privatizaram a contratação de monitores, por exemplo.
      E convém lembrar que durante o reinado de MLR os subsídios às escolas privadas aumentaram.

  4. Rodrigo Costa says:

    … Primeiro, seria necessário esclarecer se os professores, todos, querem ou não querem ser avaliados, para que não fique a dúvida de que todas as rejeições são desculpas para rejeitar a avaliação.

    Depois, proporia aos professores ou alguém que os representasse —e partindo do princípio de que aceitavam ser avaliados—, qual o modelo de avaliação que achavam mais adequado.

    Esta proposta —chamemos-lhe assim— não é uma casca de laranja, mesmo que possa parecer. A verdade é que há-de haver, tem de haver, entre os professores, pessoas cuja entrega à profissão e experiência justificarão que se os ausculte; experiência que, não tenho dúvidas, será maior do que a de qualquer político que faça conjecturas. Isto era o que eu faria, por ser, indubitavelmente, a única forma de não legislar contra os professores.

    Saliente-se, no entanto, haver sempre, no mínimo, três interesses: o dos professores, o da comunidade e o dos que são professores-porque-do-mal-o-menos. E como acredito que estes estarão em significativa maioria, a pergunta que deixo é: o voto é a arma de quem, por quê e para quê?…

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