O imaginário das crianças: Os silêncios da cultura oral – Capítulo II

Amas-me como eu te amo? Os ciclos de vida

A questão

Parece uma matéria impossível de ser pensada por parte das crianças. No entanto, julgo ter percebido que, na interacção adulto-criança, há uma ponte emotiva nem sempre fácil de cruzar. Porque não há ensino de relações emotivas, elas existem de forma diferenciada através dos tempos (Mead, 1933; Fortes, 1959; Süskind, 1984) e das culturas (Godelier, 1996; Bourdieu, 1972; Netting, 1981; Iturra, 1988, 1990 e 1995c). A afectividade, especialmente quando se trata da relação entre o adulto e a criança, constitui um dos aspectos mais difíceis e controversos nas sociedades. Nos grupos que tenho estudado, no período que vai do nascimento à puberdade, o sentimento de pertença dos pequenos aos adultos, bem como o sentido de posse que os adultos têm dos pequenos não é questionado. E, no entanto, há uma emotividade que resulta de querer ser mais aceite e mais acarinhado, de obter mais cuidados por parte dos adultos. Será que para o adulto a criança é um resultado normal de uma relação, enquanto para a criança o adulto é uma via que se está a experimentar, a descobrir? Fica-me a dúvida se a infância se importa com o carinho da interacção com o adulto, quando esta falta, se se importa quando a relação harmónica e amorosa não existe entre os progenitores – quando a comunicação entre adultos é pobre e difícil, a aprendizagem do mais novo faz-se pelo abandono e pela disputa para chamar a atenção do adulto.

Eis a razão por que o meu título é uma verdadeira hipótese para explorar a afectividade em interacção. Uma interacção na qual uma das partes vive na fantasia de ter de procurar alternativas para assegurar a reprodução do grupo, enquanto a outra vive a realidade de explorar o mundo dentro do qual vai crescendo, de conhecer os seus limites, de aceitar uma disciplina, de entender o imaginário do prazer. Dois mundos em interacção cujos objectivos diferentes tornam difícil a comunicação conceptual. O adulto tem perante si alternativas; a criança tem o universo da continuidade eterna, igual e semelhante no tempo, onde acaba por ser, ou querer ser, o centro das atenções e actividades. Os pequenos sentem, naturalmente, que são pertença do adulto, e a certeza da afectividade não é abalada pelas zangas, mágoas e imposições do adulto. No entanto, se estivesse na mente da criança o conjunto de conceitos afectivos que os adultos desenvolveram, perguntar-se-ia se o adulto a ama. Porque amar é fazer com que o outro cresça, sem o substituir nas actividades que é capaz de realizar.

A filiação

Ao longo do tempo, tenho observado o David, hoje com 14 anos. David tem irmãos mais novos que aprendem com ele, um processo que acaba por dinamizar a troca de ideias entre eles; a interacção quotidiana deste grupo de irmãos conduz a um processo de ensino-aprendizagem mútuo, no qual circulam ideias desenvolvidas através do tempo.

O David nasceu na época em que os seus pais se conheceram, se amaram e se desejaram. A mãe, natural de Vila ruiva, via nos marcos alemães que o pai dizia ganhar a base material estável de um lar feliz. Ela provém de uma família cujas mulheres precisam de um homem em casa para orientar os trabalhos agrícolas: o seu pai, taxista, retira o sustento do aluguer dos seus serviços; o seu irmão solteiro, tio do David, comporta-se como um futuro herdeiro que vive na dependência afectiva e económica do seu pai. Este último, na sequência de grave e prolongada doença, resolve pôr termo à vida lançando-se ao poço da casa, para tristeza de toda a família – particularmente do filho que, desde então, expressa publicamente a sua depressão com lágrimas nos rituais da aldeia. A harmonia da casa transforma-se numa divisão permanente e sistemática. A ansiedade dos desencontros entre adultos é tratada com álcool, do qual fica mais dependente o próprio pai de David que, afinal, não tinha os marcos que dizia ter ganho; e, depois de ter feito mais dois filhos com a sua mulher, é praticamente corrido de casa. É o primeiro divórcio assumido publicamente que ocorre na aldeia. A capacidade de trabalho do grupo doméstico fica reduzida à avó de David e à sua tia-avó; ambas, descalças, trabalham as terras próprias e as dos outros, quando é preciso. Durante esse tempo, a conjuntura desta família é a de um lar que se desfaz, na qual os membros sofrem, se separam do conjunto dos outros seres humanos e vivem entre eles a sua tristeza; uma tristeza que também não tem conceitos positivos para ser aliviada.

A mãe do David habituou-se a falar comigo, contando-me factos e as circunstâncias em que ocorreram; por simpatia e por respeito, guardo em segredo os detalhes. O trabalho absorve as pessoas, especialmente um trabalho como o agrícola que exige tanta actividade para tão pouca satisfação económica; no caso da família do David, ao trabalho agrícola acrescentava-se a gestão de um café e de um comércio.

Num contexto como o que descrevo, não sobra tempo para tomar conta dos filhos, os quais ficam sós. Há várias ideias que ordenam ou dão sentido ao processo que conduz estas crianças a tornarem-se, desde muito cedo, gestoras de si próprias: a ordem da mãe que manda o mais velho tomar conta de si e dos mais novos, um dos quais é praticamente um bebé; as ideias de ordem social pública, que mandam os pequenos ir à escola e reiteram conselhos e disciplina a toda a família. É neste contexto que a família se distancia do resto do povo. Excepto os pequenos, que  interagem livremente com os vizinhos, os quais estão habituados a uma forma dominante de organizar as suas vidas: casais unidos que trabalham e se visitam uns aos outros, que festejam e trocam presentes e jantares, sentindo uma imensa pena pela condição social destes divorciados e seus filhos pequenos. Estas ideias organizam o agir de um lar diferente dos outros, um lar de portas fechadas onde ninguém é convidado a entrar.

David, com carinho, toma conta dos seus irmãos e de si próprio. Nos dias de aulas, levanta, veste, lava e dá o pequeno-almoço aos outros. No meio da cozinha do café que possuem, lava a loiça, serve o leite, reparte o pão, dá o cereal ao mais pequeno. Nos dias de festa e de férias, tudo acontece mais tarde. No entanto, sobra sempre tempo para ele e os seus irmãos brincarem entre eles e com o seu grupo de vizinhos, sob o olhar atento deste “chefe de família”. O tempo vai passando, os vizinhos prosseguem as suas actividades, a família reparte as suas preferências por pessoas diferentes, e todos são adoptados emotivamente, protegidos por outros. O grupo que, paradoxalmente, fica mais sólido, é o do lar de David, justamente por se sentir estruturalmente excluído da forma de vida dos outros: um avô falecido por suicídio; uma avó, viúva e proprietária, com quem ninguém fala; uma tia-avó, solteira, que bebe em privado; um tio que, simultaneamente, tenta agir como herdeiro dedicando-se à agropastorícia e procura, fora da aldeia, alternativas de vida; uma mãe que cuida da sua reputação, não misturando a sua pessoa com homem nenhum que não seja professor dos seus filhos ou comigo, em público, para falar com recato dos seus segredos; um pai que passa da vida doméstica a pai fora do lar, a trabalhar e a morar perto dos seus filhos.

Estes filhos cujo desempenho social é de tão grande sucesso. Poder-se-ia dizer que o sucesso da reinserção do grupo se deve, entre outros, ao facto de David aparecer, sem ele dar por isso, como o herói que salva a família. A necessidade de carinho dinamiza a conduta desta criança que se torna líder dos seus pares. Lembro-me de, durante o Verão em que preparámos a festa de são João, ter sido o David quem imaginou os versos que foram recitados na noite da fogueira. Mais crescido e bem-sucedido na escola, começa a trabalhar numa padaria, durante o Verão, em horário nocturno.

Estas crianças conquistam o carinho de pais, avós e tio, que parecia não terem nenhuma ternura por eles. Este grupo de crianças assiste ao desencontro entre adultos e desenvolve o imaginário para aprender e ensinar-lhes carinho. No filme que fiz deles, é possível ver a felicidade do pai sem família e só, enquanto descreve as façanhas do filho mais velho. Esse carinho de pai que se materializa também nas ofertas de guloseimas, roupa e uma bicicleta, sinais que socialmente lhe permitem mostrar que é pai.

Os ciúmes

O David foi sempre o herói dos seus amigos. Foi sempre o herói do seu professor e de mim próprio. O carinho que sempre tive por ele derivava da sua alegria pela vida e do cuidado paciente com que tomava conta dos seus irmãos. Nunca deixou de ser um bom camarada de jogos e animado nos debates. Dá o carinho que nem sempre recebeu dos seus, um carinho que lhe faltava, pelo menos visto do exterior. Na idade da puberdade, ou seja, passado o ciclo do nascimento à puberdade, como eu gosto de denominar (Iturra, 1994a), começou a ajudar a sua mãe de forma mais constante e directa, auferindo um pequeno salário. A mãe, sem homem em casa para fazer os trabalhos que a divisão sexual organiza, era a pessoa que guiava a carrinha para comprar as mercadorias que vendia no seu café. O David, aos 13 anos, conduzia já o automóvel, dentro dos limites da freguesia, transportando o que fosse preciso. As portas fechadas da casa familiar, o não falar com os vizinhos, o ostracismo a que as crianças estiveram sujeitas por causa dos desencontros entre os pais, empurraram o David para responsabilidades que estão, normalmente, para além da sua idade cronológica; o Tonito, seu irmão, para um tremer sorridente em frente das pessoas; e o pequeno Nuno, cinco anos mais novo que os outros, para uma dependência mimada dos irmãos, dos adultos que frequentavam o café e da sua mãe: calmo e sério, andava sempre com um pedaço de pão na mão a comandar o resto do mundo. David soube organizar o lar, dinamizando relações fraternas e vicinais graças à sua personalidade simpática, derivada, em grande parte, da boa relação que manteve com o seu pai e com o seu professor, assim como do apoio que a mãe procurou nele, o que o tornou adulto muito cedo na vida.

As portas fechadas da casa e a falta de diálogo carinhoso entre adultos ou colocam pequenos na rua, ou por detrás das portas. Tudo depende, nestes casos, se são pequenas ou pequenos. A filiação é, curiosamente, transferida dos pais para os filhos, quer dizer, é-lhes entregue a responsabilidade do cuidado de si próprios. O que me faz lembrar do caso de uma rapariga carinhosa e querida, a Suzana (v. Genealogia 9), e das suas irmãs, amigas do David, Tonito e Nuno.

Curiosamente, o pai do David e o pai da Suzana fizeram-se também amigos, compartilhando a leitura de jornais e copos de aguardente num dos cafés locais. A Suzana é uma de entre três irmãs, cuja mãe teve um varão, um bebé que trouxe a calma ao lar. O pai de Suzana é filho de uma respeitada mulher jornaleira, que tivera antes um outro filho com o jovem herdeiro do proprietário local mais abastado. Por este facto, a mulher teve de abandonar a casa onde servia e criar o pequeno perante o desprezo da família paterna que distinguia bem entre patrões e empregados e a falta de apoio da sua própria família. A criança nascera, assim, dividida entre dois grupos que não a aceitam até que a capacidade do rebento, a sua utilidade social, faça dele uma pessoa importante, ou até que um membro do grupo dominante queira responsabilizar-se pela criatura e, eventualmente, pela mãe. Estes factos contextualizam a atitude do pai da Suzana para com as mulheres em geral e as suas filhas em particular: para ele, as mulheres não agem bem e não respeitam a ordem social. Se assim foi com a sua mãe, o mesmo pode suceder com as suas filhas e mulher. Por este motivo despreza-as, vigia-as e anseia por um filho. Há um mito que joga no seu imaginário, como no imaginário de todos os católicos nesta área cultural.

A mulher, na mitologia católica, que orienta o comportamento, é o pecado, quer dizer, o mal, que anda a dar voltas pela terra para tirar a vontade e a força aos homens, esses seres virtuosos cuja força permite construir monumentos, decidir, pensar, semear, produzir para aqueles que não querem trabalhar fisicamente. Esta mitologia, ensinada desde muito cedo à infância, especialmente àqueles que não foram feitos conforme a normatividade local – sacramentalmente, quer dizer, resultado de uniões públicas entre iguais aceites por todos –, define na mente do pai da Suzana que toda a mulher é preguiçosa e lasciva. A sua, em particular, deve viver dentro de casa e tomar conta das crianças. Uma segurança de que não é só a mãe que é honrada, também o pai é verdadeiro, porque fica limitado todo o acesso, a outro varão, ao corpo da mulher. Já a mitologia fala de que havia dúvidas na cabeça de José quando recebeu a noiva grávida mas que, por ser uma gravidez divina, é aceite pelo esposo que entende espiritualmente esta diferença de ordem do social. Nem todos os homens são José, e tão-pouco são seres que assumam a história mitológica como um facto que tenha qualquer coisa a ver com eles. Entre os homens há sempre risos e brincadeiras sobre a ingenuidade do varão, ainda que haja respeito pelos resultados milagrosos do filho assim feito, uma parte do mito pouco entendida e pouco explicada pela voz da Igreja. O pai da Suzana não permite que a sua mulher fale com varão nenhum pelas ruas. Habituado como estava a falar com todos na via pública, não reparei nos problemas que lhe causava; até que um dia ela própria, sem abrandar o passo, a caminho das compras, me solicitou que não voltasse a cumprimentá-la. Apesar de surpreendido, respeitei o seu pedido, e só entrei em sua casa depois do nascimento do pequeno varão que fez a delícia do pai e o fez mudar de atitude perante o mundo. As pequenas podiam andar pela rua, desde que juntas. O seu problema consistia em ter cinco rebentos, dos quais quatro são raparigas, nenhuma das quais, na sua ideologia, servindo para o trabalho que ele faz: recolher resina. Apesar de ser um trabalho desempenhado por raparigas e mulheres, o pai da Suzana não o considerava adequado para qualquer uma delas. A pequena Suzana, com 7 anos de idade, caminhava calada e só saía de casa para fazer recados ou para ir à escola, sem falar com ninguém. Durante uma das sessões de Tempos Livres, onde procurámos que as crianças expressassem as suas concepções de família, vizinhos, amigos e da vida em geral, Suzana foi escolhida como a noiva de um matrimónio representado pelo grupo. O facto de ter regressado a casa pintada com bâton fez com que os pais proibissem o seu regresso ao grupo, porque se convenceram que as raparigas estavam a ser tratadas como prostitutas.

A família tem por alcunha o nome de “Beato”. A avó Elvira, uma fervorosa católica ortodoxa, só saía de casa para ir trabalhar, evitando falar com os vizinhos em público. Não esqueço o dia em que fui levado a sua casa por uma senhora proprietária e madrinha da maior parte das crianças. D. Elvira esteve, ao princípio, muito faladora, contando da sua vida e dos santos da sua devoção, até que colocou a questão de onde é que eu vinha, que seminário frequentara e quando tinha sido ordenado. Quando respondi que era um homem divorciado e não crente, embora respeitoso das crenças dos outros, isso fê-la calar e pensar profundamente antes de contar mais sobre a sua vida. Talvez o facto de eu estar presente com a sua madrinha e protectora, outra católica fervorosa mas muito liberal, a tenha colocado em situação de ganhar confiança comigo, até ao dia de hoje. Esta mãe, de terço quotidiano, que encomenda missas pelas almas e possui um altar doméstico com vários santos que mostram os símbolos da verdade que orientam a sua vida, criou o filho numa estrita, quase monástica, disciplina; assim criado, o filho reproduz a casa da mãe em santos e fatos domingueiros, ramos e terços benzidos, assiduidade às procissões, colaboração devota na preparação dos andores e participação das filhas na mordomia da festa da padroeira. Aquilo que, noutras dimensões, se poderia denominar uma conduta rígida, disciplinada, é, neste caso, a via para a interacção dentro deste grupo; uma interacção entre adultos e crianças, orientada através da Bíblia e da fé. A família “Beato”, fruto do pecado, vigia para que este não se repita; distingue e classifica as condutas dos vizinhos.

Há os mais fervorosos católicos, assim como há os que acreditam, porque não conhecem pensamento alternativo. A cultura tem tomado conta da natureza destas pessoas para domesticar a relação entre elas com a maior das ortodoxias. O amor filial é permitido na medida em que o comportamento seja sério e santo e haja uma profunda veneração aos artigos da fé e cumprimento do que uma verdade manda. Contrariamente à casa de David, onde a anarquia reina nas inter-relações, na casa dos “Beato” é esse conceito de fé – acreditar, sem prova, que existe uma vida para além da vida histórica – que orienta a vida. Enquanto o David conquistou uma família para tomar conta do património e da harmonia, na casa do Beato o imaginário está pré-determinado pela vida no além, e pela ideia de esta vida ser um castigo que serve para ganhar a vida eterna, um facto que às vezes parece ser contraditório com o que as pessoas fazem no real, ao contabilizar alianças. Neste processo, pode observar-se que a solidariedade vicinal e a procura de estabilidade nas relações acabam por ser os princípios pragmáticos que orientam as relações, para além da procura do Bem e da vida eterna. Contudo, os ciúmes existem e comandam as interacções, ciúmes que só podem combater-se através da fé. É assim que o pai do David e o pai da Suzana se tornam amigos íntimos, que conversam, trocam lamúrias e bebem em conjunto. Eis o imaginário que constrói a mente das crianças: as ideias contraditórias dos seus progenitores e dos seus parentes e amigos. Contradições que parecem não entender nem aceitar, embora obedeçam. Ficarão, desta forma, incutidas na sua mente até serem adultos?

A herança

Não falo dos bens que se transmitem enquanto materialidade. Falo dos bens que se transmitem enquanto ideias, comportamentos e preparação das pessoas para serem colaboradoras da casa. Talvez os adultos da família do David não estejam a pensar no contributo que as crianças venham a dar quando sejam adultos, ocupados como estão agora a bater-se uns contra os outros e contra os seus descendentes. Nem é relevante para o Joaquim “Beato” o que as suas filhas virão a fazer, excepto, talvez, um bom casamento. Falar em herança de bens e formação de pessoas para que saibam gerar dinheiro é um tópico de alto interesse para toda a família, a qual, sem o planificar, prepara os mais novos para serem produtores, tema ao qual farei referência mais adiante.

Há uma outra herança que os adultos transmitem à infância e que é contraditória dentro dos seus objectivos. A vida dentro da cultura católica tem por fundamento a fraternidade, a que Durkheim (1898) chamou “solidariedade orgânica”. Esta nasce na mente de pessoas que se pensam como filhas de um mesmo Pai e irmãs de um mesmo Filho. A douta Igreja Católica tem sido muito cuidadosa na sistematização desta ideia em homilias, sacramentos, introspecção e confissão, sacrifícios e jejum. Através dos séculos, a Doutrina e os Cânones têm definido a vida como transitória e mortificada, onde a falta de alegria e prazer devem ser aceites em prol de uma vida eterna de calma e serenidade; calma e serenidade que dependem do comportamento histórico ajustado à norma e à lei que o poder político fixa. Outro assunto é o que tratei noutro texto (Iturra, 1991), quando afirmo que a mente cria a vida eterna para adiar a morte que acontece na vida presente. O que interessa no meu argumento, agora, é que as mentes são preparadas para aceitar o trabalho e a solidariedade que ajude os seres humanos a serem pessoas leais e que se apoiam. Há uma via de introdução de cada indivíduo na interacção social. Habituados como estamos a vivê-la na nossa cultura, não a pensamos: agimos quase que mecanicamente.

O imaginário da criança é preparado desde o dia do seu nascimento. No momento especial do baptizado, este sacramento não só define a pertença do pequeno, bem como o incorpora simbolicamente na vida social e responsabiliza pela sua sobrevivência um grupo, que deve criá-lo. O melhor exemplo disso é o facto de os pais conseguirem pais substitutos, denominados padrinhos, escolhidos de entre outros adultos com os quais há comunicação e simpatia, respeito e entendimento. O grupo que o nascimento de um bebé obriga a formar, é uma genealogia acrescida e transformada – todos os indivíduos aparentados consanguineamente sobem um degrau em direcção à vida madura: os jovens são pais; os irmãos destes, tios; os pais de todos, avós; e, se ainda houver avós, passam a bisavós. O costume, a lei e a empatia definem as obrigações de todos, especialmente no que diz respeito a cuidados, mimos, exemplo e carinho. Uma genealogia acrescida, porque a entrada de um novo ser na vida social traz dois pais substitutos, casos os outros faltem. Este ritual apenas testemunha a existência de um ser que agora deve ser ensinado a viver no meio dos outros e começar a respeitar a genealogia que já existia na época do seu nascimento.

As formas de ensinar são heterogéneas e mudam conforme o grau de proximidade: formam-se as alianças e os tabus, as pontes e os evitamentos. O carinho do adulto fica demonstrado na correcção sistemática do que deve ser feito e evitado, no acolhimento do colo, no diagnóstico do que tem, na orientação sobre o que deve ser feito. A criança, considerada inocente porque o adulto acredita que não entende o mundo, é o elo de união de todos os que por ela estão interessados. Quando se considera que já está na idade do entendimento, é-lhe permitido falar, argumentar, debater. Começa, então, a entrar no real feito pelo grupo, assim como no real construído pelas próprias crianças ao desenvolver relações dentro do grupo de pares.

Duas instituições tomam conta do seu ensino e aprendizagem: a catequese, que em Portugal como em Espanha e na Grécia é socialmente obrigatória; e a escola, que a lei obriga a frequentar. O grupo da genealogia, que até aqui tenho analisado, é o da comunicação de afectividade, porque lhe corresponde fazê-lo ou porque lhe cabe treinar a criança; o grupo da catequese e o da escola são os da formação na interacção social com seres desconhecidos, todos da mesma geração. Enquanto a genealogia permite interagir com seres de diversas experiências e saberes, o grupo da catequese e o da escola levam, ou conduzem, a uma interacção horizontal entre iguais. O ritual da primeira comunhão é uma das formas de introduzir a esta forma de interacção. Geralmente, realiza-se para um grupo de crianças na festa litúrgica do Corpo de Deus, em que se celebra a derrota da morte e o consumo da memória do dito facto em forma de pão. O grupo social prepara, durante o ano, o dia da entrada da criança na responsabilidade civil: a inocência acaba por dar lugar à responsabilidade dos factos. Durante um tempo longo, a rapaziada é treinada principalmente na introspecção, quer dizer, no entendimento dos seus próprios actos: a confissão e a meditação. Os códigos orientadores, civil e canónico, são semelhantes, ambos derivados da Doutrina criada no ocidente a partir do século IV (santo agostinho, O Livre Arbítrio, de 367) e cuidadosamente desenvolvida por Tomás de Aquino (século XIII, Summa Theologica de 1267-1273) no que diz respeito à interacção social, circulação de pessoas, aliança, lucro e outros temas e, finalmente, transformada em lei civil liberal por Napoleão no século XIX, lei derivada do Direito Canónico (cf., entre outros, o art. 1505). A introspecção é a análise do dolo ou da vontade deliberada de romper a ordem social hegemónica, o que, na linguagem quotidiana, é denominado pecado, como já referi no Capítulo I. Não é a absolvição dos pecados aquilo que se procura na confissão, é a acumulação da experiência que vai ficar dentro do inconsciente que determina o ressurgir consciente (Freud, 1932). O grupo de jovens colabora nesta interacção introspectiva acusando de injusto, bom ou mau, o comportamento dos colegas. É aí que se aprende quem manda e quem obedece entre eles. É nessa altura que se começa a entrar no real.

Podemos, porém, perguntar o que é o real. Se a infância é introduzida na responsabilidade do grupo social, o real acaba por ser o entendimento das obrigações e direitos que se têm. Parte do real é entender o que a cultura do seu grupo define para as pessoas da sua idade e condição. Talvez tenhamos de esclarecer duas ideias: por um lado, o que é o real e, por outro, a sua conjunturalidade. Vou definir este primeiro: o real é conjuntural porque os direitos e obrigações, as responsabilidades, mudam com a passagem do tempo. Na época em que se é parte do grupo lógico, a realidade consiste em identificar o posicionamento de cada indivíduo e o tipo de relações que com ele se pode ter; uma altura da vida em que o mundo parece eterno e o prazer governa o comportamento, onde o limite é a autoridade do ancestral que nos diz o que fazer e quando. Esta idade pode prolongar-se através de muitos anos se a criança não conseguir entrar no grupo de pares e formar a sua rede de crianças amigas, um conjunto de relações significativas que passam a sobrepor-se às opiniões do grupo genealógico. É quando um novo ciclo é iniciado, com a procura de um parceiro que partilhe ou comparta a intimidade afectiva e erótica, o Ágape e o eros de que falava lacan (1953), derivado das ideias platónicas (cf. Fedro, de 407 a.C.). Pode ou não converter-se numa relação pública, numa relação com um grupo apenas, ou ainda, numa relação a dois. Os limites do que é razoável fazer fazem parte da racionalidade emotiva que deriva da relação onde a intimidade própria é partilhada e entendida por quem se deseja e ama. Época histórica que, para muitas pessoas, passa a ser a de fazer filhos que complementam a relação e a passagem de amantes a pais. A mudança para pais é, praticamente, a mudança para educadores, para pessoas que treinam a criança para que esta possa lidar com os outros, fixando as distâncias do “meu” e do “teu”, da obediência e do comando, da demonstração da afectividade e da sua continuidade, em suma, para colocar o novo ser dentro do entendimento do que acontece ao seu redor.

É isto que nos leva a definir, em segundo lugar, o conceito de real como esse universo de alegrias e tristezas, de desenvolvimentos e frustrações, da vida e da morte de que a História está composta. O real é a interacção onde a nossa vontade passa a ser um elemento entre vários, na heterogeneidade social de vontades, onde é possível distinguir o que gostamos e o que não nos atrai em outros seres humanos, onde a ansiedade não é o medo sem causa que empurra ou dinamiza o nosso comportamento. Este conjunto de entendimentos é apreendido pela constante introspecção que transfere o saber cultural, tão mecanicamente aprendido que não nos lembramos dele, para a consciência, formando assim a nossa identidade, definindo os nossos objectivos ao saber o que procuramos na vida, o que queremos obter para viver e como encontrar um bem-estar, desde que as condições de sobrevivência estejam asseguradas.

É por este conjunto de factos e conceitos que acaba por passar a nossa vida para entendermos se somos amados e como amamos. Sem dúvida que é esta a grande diferença que separa a criança do adulto ou o mundo da criança do mundo do adulto. O mundo da criança tem por objectivo a afectividade sem disputa por parte dos mais velhos; enquanto o mundo do adulto tem um duplo objectivo: a satisfação emotiva de si por meio da resposta amorosa de outrem, quer esse outrem goste de tudo em nós, ou só da parte de nós com ele compatível; e, em segundo lugar, ganhar a corrida para juntar os meios que a nossa sociedade define como economia. Este segundo elemento é outra parte da contradição à qual fiz referência anteriormente. E um dos nossos mandamentos prescreve que sejamos capazes de manipular recursos que passem a ser convertidos em bens úteis para o mercado e, em consequência, para nós próprios. Este objectivo, imposto sobre nós pela divisão do trabalho da nossa sociedade, distingue entre os que sabem e os que não sabem manipular saberes que rendem dinheiro ou não, e entra no conhecimento emotivo dos grupos domésticos de que falava. No caso do Joaquim Beato, a sua frustração é não ter filhos varões que o acompanhem no seu trabalho e no seu futuro, para criar uma pequena empresa de produção ou de recolha de resina. Na sua ideologia, sendo a mulher o corpo que dá corpos e proporciona o prazer do homem, uma filha é uma entidade negativa, pouco adequada ao trabalho que se faz com força; a filha gasta, consome, vive para seduzir homens e não para acompanhar o pai no seu trabalho. Paradoxalmente, e graças às suas ideias sobre a mulher, a cozinha de Quim Beato está cheia de trabalhadoras, enquanto o mato está vazio de mãos que apanhem a resina, para obter o dinheiro que é preciso para abastecer a cozinha. Caso diferente é o do David, onde a casa da geração anterior estava cheia de mulheres que não têm força para o trabalho, enquanto a da nova geração está cheia de homens que, potencialmente, trarão mulheres que vão encher a casa de novas crianças, tomar conta do comer e manter satisfeitos os homens que assim vão trabalhar melhor. É a contradição entre sermos todos filhos de um Pai que nos criou, contida no mito, e a interacção desigual entre indivíduos e grupos da mesma condição. A contradição que significa a corrida para a riqueza individual que é gerida por um para todos, acaba por dinamizar a herança de saberes e ideias que se transformam e se legam de uma a outra geração. Na geração que o grupo social vai formando, e que virá a governar a interacção no futuro, um deles, ou delas, virá a gerir os bens. A troca entre as pessoas é feita pelas conveniências e pelos afectos que juntam dois seres, com ou sem consentimento familiar. Porque o que denominamos troca é a aliança de seres que juntam forças para guardar a memória social da reprodução individual e do grupo. Forças que se juntam a partir do amor, da simpatia, do desejo, das ideias de paternidade e maternidade definidas como objectivo individual e social. Não há Davides nem Suzanas que duvidem deste objectivo, herança sagrada e primordial que o grupo de adultos transfere para o imaginário da criança.

A troca

Nem sempre é de bens por bens. Os bens estão mediados por pessoas. Estamos habituados a colocar produtos no mercado e a retirá-los com dinheiro. Como se a troca fosse sempre um acto de compra e venda. A antropologia não é assim que a vê. Na vida social, a troca acaba por ser de seres humanos que representam bens e que os deslocam através da aliança. No caso do David, o pai apresenta-se como possuidor de abundante moeda estrangeira e com o poder suficiente para levar a futura mulher para um país estrangeiro. Procedente de outro lugar, Valpaços, e quase vinte anos mais velho do que ela, seduz a rapariga, pequena proprietária, pobre, inexperiente, com a ideia de casar e ir para a terra do leite e do mel. A família da mãe do David acolhe com entusiasmo este homem mais velho, mais rico e generoso. Ela tem as suas dúvidas, até porque gostava de um moço da aldeia.

Quando não há moeda, os seres humanos passam eles próprios a ser meio de troca. De facto, as trocas que se fazem é entre pessoas hábeis ou capazes de utilizar o corpo para produzir bens para outros e para consumir em casa. Nos anos 30, 40, 50 e 60 deste século XX celebram-se alianças matrimoniais entre pessoas que, por serem do mesmo estrato social, conhecem bem o trabalho e vão colaborando umas com as outras: vão trocando. Esta troca de capacidades, base do contrato íntimo, assegura a produção de produtores (Iturra, 1988 e 1991), isto é, um mercado onde os proprietários da indústria, do comércio e da terra procuram força de trabalho. O pai do David é bem-vindo porque parece ter moeda e porque proporciona à filha a oportunidade de sair da terra e juntar dinheiro para melhorar a condição de todos. Esta base económica de troca serve de base às emoções, mas desfaz-se dentro de um contexto empobrecido da economia a nível nacional.

O David observa, enquanto cresce, o desfazer-se lento, mas seguro, do lar que habitou: a avó e a tia-avó estão sempre ocupadas com o trabalho agrícola, a mãe com as vendas que faz no seu pequeno comércio, local onde o rapazito vive e dorme com seu irmão Bento, e os homens da casa estão sempre fora, ocupados nos trabalhos que dão dinheiro (essa pouca moeda que serve para suprir o que a terra não dá). O pior é as noites, quando o grupo se reúne obrigatoriamente em casa para refeições e descanso. O pequeno, que recebe louvores públicos na escola e na catequese pelo seu bom comportamento, ouve então os gritos da mãe e as zangas entre os pais e os avós. Tudo isto numa idade onde não há alternativa ao ouvir em silêncio, pela falta de conceitos alternativos.

David procura outra via. O único caminho que encontra é brincar, cantar, fazer de palhaço para chamar a si as atenções dos adultos e estes esqueçam as mágoas com que se têm habituado a interagir. Um temperamento que desenvolve dentro do seu grupo de pares, que acaba por ser a sua salvação: o lugar que lhe permite viver mais alegremente. Alegria que aprende das crianças de outros lares mais calmos e serenos, onde as pessoas se ouvem e aceitam o comportamento dos pequenos dentro dos limites do que se estima que é entendido e tolerado pelas crianças. É o que vê nas casas do António Gouveia ou do António Ribeiro ou, ainda, na casa do Joel Ferreira, onde é tolerado até à porta de entrada, ficando a rua para eles partilharem brinquedos – dos quais o David carece – e ideias para utilizá-los – das quais o Joel Ferreira carece, porque a sua leitura e as conversas com o pai o afastam em parte do real dos seus pares. O David deve inventar tudo para poder parecer que, dentro da sua pobreza, tem mais meios do que os outros para brincar: a falta de brinquedos estimula o seu imaginário. Um dia, indo eu pela rua, reparei numa fila de carros feitos de madeira, imitando os que os seus amigos tinham adquirido no comércio. A confecção destes brinquedos permitiu-lhe estabelecer trocas amistosas dentro do seu grupo de pares, liderando os jogos, como observei depois.

O facto de o David fabricar brinquedos desperta o imaginário dos seus colegas, que ficam surpreendidos com a sua habilidade. O rapaz exibe a capacidade de manipular a matéria e transformá-la em bens, um imaginário que anuncia um adulto capaz de gerir recursos. Os outros, só a partir de um degrau mais elevado são capazes de usar o seu imaginário, quando o artefacto já está fabricado. Fabricá-lo dá um sentido e uma orientação ao modo de utilizá-lo: não são os paus, feitos carros, que colocam um limite à forma, é o destino que o artefacto terá que orienta as ideias e as mãos do pequeno artesão. Os seus amigos ficam limitados pelas formas industriais dos seus brinquedos, brincando aos motoristas, enquanto os brinquedos do David e dos seus irmãos desenvolvem um imaginário de alternativas entre carros, carroças, exibição, meio de troca, organização da tarefa de construção de “estradas” e “pistas”. David e os seus irmãos começaram a ter amigos, porque tinham um saber deles que ensinam, enquanto os outros tinham só um modelo já feito. Acabados os jogos, ficavam os brinquedos do David, espalhados ao pé de casa: não tinham valor social para serem levados pelos outros. Os seus amigos tinham de guardar os seus, limpá-los e levá-los para o seu quarto, porque o valor do consumo dos mesmos era muito alto e os próprios pais lhes ensinavam o “caro” que os brinquedos eram para o seu orçamento e como deviam, em consequência, cuidar deles. A maior parte, ou grande parte dos brinquedos, era e é objecto para ver e guardar e não para brincar, como temos observado no trabalho de campo (v. Iturra e Reis, 1990; Reis, 1991; Iturra, 1993).

Os pais do David não se preocupavam com o uso dos brinquedos; bem pelo contrário, ficavam contentes ao ver a capacidade dos três para inventar o que não possuíam. Abstinham-se, assim, de dizer o que fazer com eles, desde que utilizados fora do tempo dedicado ao trabalho e ao estudo. Os amigos de David tinham sempre os seus ascendentes a vigiar o uso desses objectos raros, impossíveis de construir com os recursos locais.

No caso das filhas do “Beato”, casa de mulheres, não havia brinquedos. A participação no trabalho da casa, desde muito novas, e a organização da vida doméstica convertiam os utensílios de cozinha e da casa em alternativa para usar o imaginário. A distância entre as idades das pequenas não permitia um jogo entre iguais, mas sim relações de vigilância das mais velhas para com as mais novas. Com os pais a trabalharem fora de casa, o jogo estava frequentemente condicionado por obrigações.

Logo que foi possível, a mais velha foi-se embora de casa para outro país. Filomena (nascida em 1972, v. Genealogia 9) sai no ano de 1988 e, mais tarde, leva Isabel, nascida em 1975. Ficaram em casa, para tomar conta dos mais pequenos, a bela Suzana, essa rapariga que tão calmamente se comportava em público, e que acompanha a Cláudia à escola em 1988; mais tarde, a surpresa familiar, Jorge, nascido em 1990. Não há tempo nem licença para brincar ou para sair. O mundo resume-se à casa, um mundo fechado, cheio de orações e de silêncio. São raparigas que reflectem temor, distância, submissão. O trabalho que, há várias gerações, se realiza nessa casa, é um trabalho de servidão e sem imaginário: a mulher do Joaquim “Beato” serve numa casa rica, ele trabalha na resina; ela vem de outra terra, não muito distante, de uma família que raramente vê. Ela própria é uma estranha nessa terra desconhecida, sem parentes e amigos, guardada por um marido ciumento, que gosta de beber e frequentar o café, como se faz na sua profissão. Eis o contexto do imaginário das raparigas que descendem, pela linha paterna, de serventes em casas de Senhores com os quais têm filhos, aprendendo que o medo e a submissão servem para viver. Esta recepção de um salário, e não troca de bens, e esta distância do resto do social, por serem pessoas que rompem a ordem do grupo, fazem que o amor entre eles seja distante. A emoção e a afectividade não se mostram nem se praticam: é só trabalho e hierarquia.

Amar

Pode pensar-se, e pensa-se, ou diz-se, que amar é um sentimento que todos nós conhecemos, que faz parte da condição humana. Mas, se bem que amar seja uma emoção que todos possuímos, amar determinada pessoa acaba por ser social e culturalmente determinado. É preciso distinguir, antes de continuar, entre amor e desejo (Iturra, 1995c). Gosto de dizer que nos desejamos porque amamos, embora nem sempre seja esse o caso: o desejo é uma paixão que está dentro de nós, como se vivesse mansamente nas hormonas. A emoção que é o amor é a entrega da nossa intimidade a quem mais confiança e lealdade nos inspiram, com quem se sente entendimento e comunhão. A afectividade no amor é o companheirismo que se sente com alguém cujo contexto entendemos e que acaba por entender o nosso. Não há doutrina ou filosofia que não tenha definido a palavra ou o conceito, ou o sentimento que inflama o imaginário humano.

Uma velha ideia, com mais de 2000 anos, diz que é preciso amar os outros como a nós próprios. A nossa cultura criou uma ordem para medir a inter-relação, como se de facto o sentimento não existisse, e tivesse de ser peremptório mandar amar. Porque o grupo social assegura que haja alianças reprodutivas, para a sua própria continuidade. Por isso, se manda amar dentro de limites desenhados pelo tabu. Este é mais um elemento que forma o imaginário da pequenada.

Há uma heterogeneidade na idealidade de amar que começa pela proibição do incesto e acaba na honra e no louvor de dar a vida pelos outros. Nunca ficará bem esclarecido se Joana d’Arc (século XIV), tal como Bernard Shaw (1923) trataou o tema, era uma donzela que queria a unidade da França, ou se era a mulher paranóica que ouvia vozes que lhe indicavam o que fazer, até ao triunfo final. Bernard Shaw retirou dos arquivos do processo inquisitório da donzela o medo que ela mostrava ter perante a obrigação que devia cumprir – o mesmo medo que, regista a Bíblia, sentia Jesus no dia antes da sua morte. O mesmo medo que todos nós sentimos quando nos confrontamos com os factos afectivos, já que pode haver frustração. Cada vez que um descendente meu tem medo de amar, preocupo-me só se vejo que não sabe ultrapassar o conflito. Isso, para modelar o sentimento de persistência que é necessário desenvolver para que alguém consiga triunfar com o seu ego na vida, e ser capaz, sem se impor aos outros, de amar. O amor não manda, não é autoritário: é silencioso e discreto. É assim que eu próprio tenho aprendido quando amo e quando vejo os outros amarem-se. Como também tenho observado, nos meus trabalhos de campo, o trabalho empenhado de casais que sabem que a sua paciência e entendimento podem manter o sentimento, mesmo que transformado.

Há várias formas de entender este sentir e de orientá-lo. Culturalmente, entende-se que amar é substituir o outro no seu agir, para que este não tenha de viver as penúrias que a interacção e o trabalho causam; culturalmente, pensa-se também que amar é confrontar o ser humano, desde muito pequeno, com todos os factos que causam fobia. Culturalmente nunca se percebeu que amar é respeitar o contexto do outro, e que amar tem várias alternativas.

David entendeu que o facto de passar despercebido no meio das disputas da sua família, equivalia ao amor que estava a faltar ao Tonito e ao Nuno e, discretamente, sem dizer nada aos pais, tomou conta deles. Com este facto, chamou a atenção dos pais, que passaram a surgir como duas entidades sociais que deviam responder pelos seus actos e pelos seus descendentes. É o que faz Filomena Beato quando, depois de se confrontar com um pai que a comandava e punia, se vai embora e, pouco tempo depois, leva também consigo a Isabel e repete a atitude com a Suzana. Talvez fique a Cláudia, tímida como é, para tomar conta do pequeno Jorge, enquanto cresce. A criança pede silêncio, apoio e carinho dos pais e não sabe como defender-se da autoridade com que esses mesmos pais comandam. O amor paterno e materno anula as condições para criar a independência e a autonomia dos filhos que vão entendendo que o seu grupo não é o do lar, bem como o grupo de pares com os quais cada um deverá lidar para a continuidade do social. Os progenitores que entendem isso deixam os espaços abertos, dentro de normas de segurança, para que a pequenada vá entrando no real. O mais importante na filiação é encontrar resposta para as questões que o pequeno levanta, bem como dar apoio aos seus empreendimentos. Poucas são as mães que não vivem em constante estado de ansiedade em relação ao que a descendência faz. Menos ainda são os pais que ouvem e acompanham, que são ternurentos e entregam a sua vida para que os seus filhos sejam habitantes de um mundo calmo, a qualidade por excelência do amar. Socialmente, pensa-se que é a ascendência que deve comandar os mais novos. Culturalmente, há normas e regras que não permitem que os mais novos tenham comportamentos próprios e possam agir conforme vão entendendo. O triunfo do filho – a sua independência e autonomia – é a vitória dos pais, mesmo que não seja verdade.

Ciclos

Permita-me o leitor que faça uma síntese do que tenho dito ao longo do capítulo. Tenho-me referido à afectividade, em épocas diferentes da vida. Da mesma forma que a História de um grupo tem conjunturas que orientam as condutas, a vida individual tem ciclos que definem a relação entre as culturas de que falei no capítulo anterior. Essas culturas em contacto interagem.

A interacção depende da época em que a criança e o adulto vivem. Não é só o pequeno que cresce, é também o adulto que muda, ambos os processos são simultâneos. Se for preciso distinguir épocas para perceber como a História se faz, poder-se-ia dizer que, de forma simultânea, há os que entre o nascimento e a puberdade aceitam ou substituem o caminho dos antepassados, os que entre a puberdade e a maturidade procuram uma outra entidade individual que acompanhe os seus objectivos de vida, o que permite, por meio do desejo, desenvolver a ternura e a confiança em si próprio, que tem como resposta a ternura e a confiança do outro e, eventualmente, o nascimento de descendência. Há a educação para a confiança mútua, como elo central da vida, até à época de formar o seu próprio mundo; a época em que os ascendentes passam a outro grau de maturidade, quando aprendem a calar, a não interferir e a acompanhar a experiência de quem vai ficar mais tempo na vida: os seus descendentes. Um quarto ciclo é o do esquecimento, época em que os adultos veneram e tratam do ancestral com respeito e sem raiva nem maledicência. Um último ciclo, ainda, é o da lembrança do corpo que desapareceu e que fica na categoria de alma.

Estes ciclos coexistem combinados. Não se consegue perceber a diferença entre as épocas que passam, olhando para o real linearmente. O que acontece dentro do lar é reflexo fiel das conjunturas socioeconómicas que o grupo atravessa. As lutas domésticas são a reprodução, a um nível micro, das lutas hierárquicas que a cultura define para cada grupo social. É por isso que, quem comanda, organiza as ideias da mente para subordiná-las a um pai comum e a uma lei comum, Igreja e estado.

Na vida quotidiana, não é por ciclos que se calcula a existência das pessoas, é por anos, por cronologia. Essa distinção não é igual em todos os grupos sociais: na vida urbana e para os que vão à escola, a vida é contada ano após ano, é calculada conforme as capacidades esperadas da infância. Quer a Pedagogia quer a Psicologia têm feito uma análise cuidadosa do que se espera de cada indivíduo, seja dentro da chamada normalidade, seja dentro de parâmetros de entendimento que retiram essa ânsia da normalidade a certas crianças. As distinções heterogéneas não são feitas: quem entende melhor a leitura, quem sente de forma mais emotiva, quem tem capacidade para estar em silêncio ou quem gosta de queixar-se do que lhe acontece na vida. A inteligência mede-se muito pelo entendimento de alternativas e pela capacidade de definir objectivos, delimitando bem o campo de actividade – o próprio e o dos outros –, entendendo a vida a partir de modelos – o que é bom e o que é mau.

O Direito tem vindo a consagrar a mitologia ocidental desde os tempos do Direito Romano: não é a capacidade de entender e medir o seu próprio imaginário para se entreter com ele na vida o que está em jogo; é a capacidade de entender a relação entre pessoas e o objectivo das coisas, a sua natureza, o que mais interessa para as sociedades que vivem do contrato e da troca. Na vida rural, a idade que se tem está marcada pelas obrigações legais de frequência da escola, pelos ciclos da aprendizagem, pela licença para emitir opinião política em voto, para conduzir carros ou maquinaria, para ser capaz de contratar e contrair matrimónio, para contribuir para a reprodução humana e, finalmente, para ser reformado e receber pensão em dinheiro.

Os ciclos distinguem as possibilidades do corpo. Há esse primeiro que já referi, que é curto e intenso nas mudanças e na aprendizagem, que denomino puberdade ou do nascimento até à puberdade: um pequeno passo da dependência absoluta, quer afectiva quer de nutrição, para a época da independência e autonomia, quando os pequenos procuram imitar os adultos para não terem de depender deles. Este ciclo vai orientando lentamente, dentro das categorias sociais, as da genealogia e as da hierarquia, já referidas. A cronologia não tem, aqui, grande importância. A entrada no real vai acontecendo, na medida em que se entende o lugar que ocupa cada pessoa no grupo. Eu diria que a entrada das crianças no real decorre à medida que começam a entender as diferentes atitudes que os outros têm em diferentes circunstâncias, o que permite uma adesão total ou parcial a esses outros. O entendimento do real é a apreciação do diferente comportamento que outro ser humano tem em conjunturas variáveis. O conceito de ciclo permite, assim, distinguir entre infância que adere ao social de forma irónica, e infância que adere ao social por subordinação; distinguem-se, assim, os que aderem lealmente e sem crítica, até prova em contrário, e os que ficam distantes e longínquos dos membros do grupo social que parecem estar a ultrapassar as suas barreiras, das quais começam a tomar consciência quando têm de interagir com diversos tipos de seres humanos, dentro do mesmo grupo. Porque apesar de eu distinguir ciclos, não posso esquecer que a distinção é só e apenas uma forma metodológica de entender o real, composto pela interacção de vários seres humanos com experiências diversas.

Nem todos os lares acolhem o pequeno através do debate, da conversa – diálogo, com a afectividade que permita uma interacção fluida que ultrapasse os diferentes entendimentos. Vê-se isso na felicidade, calma e confiança em si, de cada criança; e na serenidade com que acolhe outros adultos, ou na falta de confiança. Falta de confiança que também se reflecte na aprendizagem da vida com pessoas de fora do lar; ou confiança que se reflecte na imitação do que os adultos fazem em casa, à qual podem levar amigos e colegas. Este ciclo tem mudanças na percepção dos acontecimentos, mudanças talvez marcadas pelos diferentes jogos que se praticam (v. Iturra & Reis, 1990), bem como pelos trabalhos que devem realizar, quer no lar quer fora dele, bem como pelo tipo de conversas que vão tendo ao longo desses curtos anos que acabam por ser intensos e rápidos em crescimento psicológico e físico. São os anos que preparam para o segundo ciclo de vida, esse que denominei da puberdade à maturidade, um ciclo de dinamismo, de força no corpo, de procura de amor íntimo e partilhado, de procriação.

Um ciclo da vida que se caracteriza pela força do corpo para o trabalho, a dinâmica para levar a vida, o entendimento de alternativas, a capacidade de decidir, a capacidade de aceitar a alegria, sem exuberância, e a tristeza, sem fugir dela. Um ciclo que procura o respeito e o silêncio dos mais novos para poder fazer deles membros activos do grupo social. Um ciclo que, no entendimento dos mais pequenos, aparece como tirânico e autoritário, louco entendedor das fantasias com que os pequenos procuram a realidade. O ciclo adulto, que envolve uma longa época de tempo, faz a infância procurar, entre os que entendem como eles, os seus próprios líderes.

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