De Assange à Fontinha.

Vivemos num período, à escala global, em que infringir as regras, ser desonesto ou não cumprir obrigações individuais ou colectivas torna a ser algo de heróico, de divino. Subitamente milhares de Robin Hood sobem aos palcos e recebem medalhas.

Obama, presidente do país mais conflituoso do mundo foi galardoado com o prémio Nobel da Paz e Julian Assange, que noutros tempos se consideraria um mau espião, foi recentemente premiado. E hoje leio que Richard Stallman, um hacker informático dos anos 80, vai ser recebido na Universidade do Porto com honras de catedrático. De resto nada disto é novo. Antes de ser o ícone que hoje é, Mandela, por exemplo, foi bombista e um perigoso reaccionário. É é impossível não pensar o quão esquizofrénico é tudo isto. O mundo pende, perigosamente, sobre uma ideia de punição: uma punição que extrapole a justiça, a ética, o bom-senso. Os mesmos que aplaudem os heróis como Assange, aplaudem-nos porque eles são o instrumento do seu ódio, não pela acção ou finalidade do acto em si (de resto, a criação de Stallman, o software livre, é louvável, mas não pela destruição de todo o outro).

Um caso recente e mais próximo de nós: a okupação na escola da Fontinha, no Porto.


A finalidade da okupação parece ser razoável e compreensível: a dinamização de um espaço outrora eminentemente público para usufruto da comunidade é algo com que consigo concordar. O método, contudo, deixa muito a desejar.A ideia de okupação surge de uma concepção anarco-libertária de que a propriedade não existe. O que, como sabemos, em Portugal de 2011 é impossível. Num estado democrático, a constituição determina o direito à propriedade e eu, mesmo com boas intenções, não posso apossar-me de bens alheios.

No entanto, uma destas petições em linha, cujo valor legal é nulo mas serve para aferir da força das redes sociais informáticas, conseguiu em apenas um dia, mais de mil “assinaturas” a favor da okupação. E a população da Fontinha apoiou a iniciativa. É, aliás, curiosa a opinião de uma das moradoras: “antes só havia ali drogados e hoje está tudo diferente” – ou seja, a noção de bem e de mal relativizou-se ao ponto de se substituir a invasão ilegal dos drogados pela dos okupas. Entre ambos é tudo uma questão de organização, de paredes pintadas, de tambores e cores. De drogas leves ou drogas duras?

Não sei se a questão da dinamização do espaço e do seu empréstimo à comunidade podia ser resolvida por via burocrática, entre ofícios e através de um protocolo. Creio que não seria a primeira vez que isso acontecia. Mas para surtir efeito, para retombar em sucesso, esta iniciativa só podia ser desta forma, do género ” avanço contra o inimigo”, resistindo, ocupando, infringindo todas as regras que podem haver. Porque num tempo exacerbado, envenenado pela ideia (ainda que relativa) de crise, qualquer valor – simbólico ou monetário – deve ser derrubado ou tomado.

Vivemos uma época de contra-reforma do marxismo. Como quando no século XVI a Igreja Católica perdeu o primado do cristianismo para os reformistas protestantes, hoje (em muitos países do mundo) o marxismo deixou de ser uma ideologia/religião organizada perdendo, para os leigos, a sua força organizativa e hierárquica. Não sei se isto é bom ou mau. Mas conhececendo a “obra” desta ideologia, então contida no cérebro de um punhado de executores ao logo do século XX, só posso antever um futuro não de 4 ou 5 ditadores,  mas de milhares.

Comments

  1. Nightwish says:

    Julian Assange.
    Also… O Stallman não defende a destruição do software fechado e proprietário por via da lei, mas sim pelo “mercado”, ou seja, por as pessoas se aperceberem do que estão muitas vezes a perder em não verem os seus defeitos. Apesar de usar um portátil MIPS, não o vejo a dizer que toda a gente devia usar um a correr gNewSense, mas sim que deviamos chatear as empresas para nos darem acesso ao hardware, os perigos do DRM, DMCA, a estupidez das patentes de software, and so on.
    E se quer dizer que o Marxismo causou milhões de mortes, também eu posso usar o mesmo nível de discurso para dizer que o capitalismo democrático trouxe-nos assassinatos políticos, apoio a ditadores estrangeiros, guerras por petróleo, a crise de CDS, CEOs que ganham milhões por estratégias de curto prazo que levam as empresas à mediocridade (ver Fiorina na HP), resgates de empresas que pagam milhões em bónus aos gestores, o sistema de saúde norte-americano…
    Nem uma nem outra visão corresponde às ideologias referidas, são aproveitamentos de FDP psicopatas.
    Quanto ao Rui Rio diz que tem uma visão. Conhecendo-o, a sua visão só pode ser deitar abaixo para vender para construção, tal como o Parque da Cidade. Eu não posso ver como negativo ver a comunidade fazer aquilo que os nossos representantes eleitos são incapazes de fazer ou, na verdade, para o qual se estão a marimbar.
    Há que defender a manutenção das pessoas que assustam quem lá passa em nome da ordem e da autoridade, parece-lhe uma sintese adequada da situação? Parece-lhe mesmo que é no melhor interesse da população?


  2. Richard Stallman não é o inventor do Linux, mas sim Linus Torvalds.


  3. Obrigado pelas correcções, a ambos.

  4. Alfredo says:

    Caro Nuno,

    Os comentários anteriores corrigiram pequenas imprecisões sobre o Richard Stallman, mas, mesmo assim, convinha aprofundar a diferença subtil entre hacker e cracker (na wikipedia, que aqui não será o lugar) para concluirmos que o exemplo não foi feliz para ilustrar a sua argumentação na introdução.

    Pelo que acompanhei do assunto eu não fiquei com a ideia que fosse posto em causa o direito à propriedade, pelo menos nos moldes em que o Nuno expõe a questão. A posse é outra coisa, mas isso para mim é uma rabeca. De sapatos (linux e software livres) estou à vontade para falar.

    Na sua referência às drogas leves e aos tambores eu espreito uma pontinha de preconceito. A crítica deveria incidir sobre as acções, independentemente das pessoas que as praticam.

    Sobre a CMP o Nuno pouco falou, mas nesta fotografia ela não ficou bem. Temos de dar mérito a que deixou isso claro.

    Não sou tão pessimista como você na sua tese. Veja o exemplo do movimento do software livre (não confundir com opensource), de que Stallman é paladino. É um movimento completamente anárquico (mas com uma curiosa ordem que emerge do caos), revolucionou nas últimas duas décadas o paradigma de negócio das empresas de software, tem produtos notáveis que toda a gente usa (mesmo sem saber) e convive perfeitamente com os modelos de software de código fechado. O utilizador final ganhou muito com isto. E as empresas de software que se souberam adaptar também.


  5. Alfredo,
    Tem razão, não falei do papel da Câmara cujo acção do executivo actual tem deixado muito a desejar (e sobre o qual sou muito crítico). Moro no Porto e sei bem do que falo. Da euforia elitista de 2001 até hoje o Porto tem definhado em termos culturais e pedagógicos. E quem julga que as Galerias vieram reabilitar ou estimular ou o que quer que fosse, não percebe nada de negócios… Mas friso o seguinte: mais do que a dinamização do local, o que os media vieram trazer a lume foi a okupação. A mesma ideia subjacente a uns stencils que ocupam alguns edifícios devolutos ou abandonados da cidade: “tanta casa sem gente e tanta gente sem casa”. A “okupação”, mesmo, método praticado em vários locais do mundo por anarquistas organizados (passe o paradoxo). E é isso que eu frisei. O louvável não foi a recuperação e a dinamização do local, mas o acto reivindicativo (que pode servir a muita gente descontente…). Obrigado pelo comentário.


  6. Nuno o pluralismo existente no Aventar permite-me dizer o seguinte: eu acho que este poste é assim a modos que uma sopa da pedra em que, no início, só havia a pedra e, vá lá, um pouquinho de água.
    Ora, como água e pedra não fazem sopa, apareceu aqui um Assange, um Mandela, uma pergunta descabida sobre drogas, um Obama, etc., para falar de… uma ocupação.
    O poste é reaccionário (não o Mandela) e não entende que o mundo sempre avançou mais por oposição do que por posição. Reage a tudo o que pressuponha mudança e se oponha ao estabelecido.
    Um mundo de carneirinhos, por muito confortável que possa parecer a alguns, não deixa de ser isso mesmo: um mundo de carneirinhos.
    A lei e a ordem, ainda que necessárias, não são as mesmas ao longo dos tempos porque, um dia, até aos carneirinhos dá para as infringir. A isso chama-se evolução.
    Este poste pressupõe imutabilidade e respeitinho, apenas isso, contra acção e transformação.
    Eu estou do outro lado, do lado dos apoiam as populações e são mais valias para estas. Eu estou do lado que soma, que acrescenta, que revitaliza, que multiplica. O Nuno, pelos vistos, está do lado do certinho, ainda que, como no caso do centro histórico do Porto, esteja a morrer, a desfazer-se, a cair aos bocados e cada vez mais abandonado.
    Sem “modernices” como as galerias, a “movida”, etc. estaria mesmo morto. Mas certinho e cumpridor – feínho, a desmoronar, sem vida, sem glória, decadente, sem gente, sem futuro, sem chispa e, helas, sem povo. Porque é isso que se passa e este post não considera.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Como são okupas, de cderteza que andam na passa. Uma pérola!


  7. Um mundo de carneirinhos é ser militante do PSD ou do BE. Tem juízo, Pedro. E a alusão às drogas leves/pesadas era só uma metáfora. Se coube a carapuça, o preconceituoso não sou eu.


  8. Quem diz PSD e BE, diz PS, CDS, e demais partidos. Desta doença eu não sofro, felizmente.

  9. Rodrigo Costa says:

    … Caro Nuno,

    Não foi Jesus que, segundo a história, foi morto pelos vendilhões do templo, ao tempo, a Igreja?… Não é Fátima a fábrica de velas e da reciclagem, da venda de milagres, como parte integrante de uma estrutura tutelada pelo Vaticano, cujo anterior Papa está em vias de ser santificado, sem que se saiba se a doença de Alzheimer foi prémio ou castigo para um homem que querem seja santo?…

    De quanto tempo as pessoas necessitarão para perceberem que a Humanidade é um fartote de incoerências, mais de antíteses do que de sínteses? O que esperam as pessoas, da Humanidade?

    Se Hitler e / ou Napoleão ou Estaline tivessem triunfado, seriam eles, ou um deles, a estrela polar de todas as romarias. Não são… por que perderam e não puderam promover e espalhar a sua filosofia.

    Essa é, no meu entendimento, a razão por que Deus, declarada e inequivocamente não aparece; porque, ao não se mostrar não é visado, e gozará, para sempre, do benefício da dúvida.

    Para quem é de esquerda, qualquer banana de esquerda serve, desde que vença; para quem é de direita, qualquer banana de direita serve, desde que não perca —estão, de há muito, traçados os caminhos do futuro.

%d bloggers like this: