A avaliação dos professores pelos seus alunos

Acho que nunca escrevi sobre isto, ou seja sobre o que tecnicamente se chama Avaliação do Desempenho Docente. A publicação pelo Paulo Guinote de um formulário de avaliação dos professores, a ser preenchido pelos alunos, e a discussão que se lhe seguiu, levam-me a fazê-lo agora.Muitas, e válidas razões, foram nos últimos anos aventadas contra um processo iniciado pela especialista em sociologia das profissões Maria de Lurdes Rodrigues. Basicamente a ideia foi, simultâneamente, poupar nas despesas de pessoal do Ministério da Educação, e transformar os professores em inspectores uns dos outros. Ao mesmo tempo aplicava-se ao ensino a nova moda patronal de avaliar “a produtividade” e a obsessão quantitivista que por aí anda.

Sou professor desde 1986. No meu segundo ano de ensino, já não me lembro por sugestão de quem, ou de que leitura, experimentei no final do 1º período pedir aos meus alunos que escrevessem, numa folha qualquer, a nota de que me achavam merecedor, anonimamente, mas justificando-a. Informalmente gracejei:

– Têm uma oportunidade única de se queixarem, insultarem, reclamarem, despejem lá tudo o que vos vai na alma.

Como resultado não recebi nenhum insulto, coisa estranha, mas fiquei a saber muitas coisas. Por exemplo, que não sabia projectar a voz até ao fundo da sala. Ou que ainda usava uma linguagem que eles não compreendiam.

Na aula seguinte dediquei uma boa parte a discutir as críticas que me apontavam. Ficou por exemplo combinado que quando a linguagem me saísse para o rebuscado passava a ser obrigatório avisar-me. O mesmo para quando não me ouviam. Ao longo dos anos continuei esta prática. Aprendi a detectar as minhas falhas. E recebi por escrito as melhores recompensas que um professor pode ter (e não estou a falar só de elogios), e que guardo em várias caixas, tão religiosamente como o pode fazer um ateu.

Avaliar é isso: identificar as falhas, para as tentar superar. Muitas correntes das chamadas “ciências da educação” pensam que avaliam conhecimentos, ou como agora é moda, competências. Em parte isso consegue-se, mas no todo é impossível. O grande objectivo de qualquer avaliação não deve ser esse, mas sim o de quem é avaliado descobrir onde falha, e quem avalia saber o que tem de ensinar. Falo de uma escola idílica, com turmas pequenas e autonomia pedagógica, é claro.

Ora isso só os meus alunos podem e sabem fazê-lo. Eles não são meus concorrentes para progredir na carreira, e estão lá, não numa mas em todas as minhas aulas.

A reacção de muitos dos meus colegas na caixa de comentários do Umbigo foi semelhante à que (mais silenciosa) ocorreu este ano na minha escola, onde se iniciou a obrigatoriedade de os alunos preencherem um formulário deste tipo (sem os disparates que o publicado pelo Paulo Guinote tem, note-se), cumprindo as determinações para os Cursos Profissionais. Tenho-me divertido com a coisa. É claro que nenhum professor terá a “nota máxima” dada pelos seus alunos, nenhum de nós é perfeito, e eles também não. Mas aprende-se muito (ou deveria aprender-se, se ao invés de um formulário houver espaço para a livre expressão). E sobretudo dá-se aos alunos o direito de nos questionarem, razão porque deve ser feito ao longo do ano e não no final.  À indignação dos meus colegas respondo: experimentem, vão ver que não dói nada. Ou se calhar até dói, à minoria dos que são mesmo incompetentes. E se duvidam da possibilidade de uns miúdos avaliarem adultos, lembrem-se que já foram alunos, e todos nós avaliávamos os profes no intervalo.

Estou a sugerir um modelo de avaliação do desempenho docente? Nem tanto. O sistema facilmente caía na perversidade. Mas é um elemento bem mais válido que uma aula assistida por um colega, que até pode ser doutra disciplina, a uma lição preparada para o efeito.

No fundo o problema é um clássico das escolas: em todas as salas de professores se escutam queixas contra a actual geração, que não sabem nada, nem querem saber, estão cada vez mais fracos, etc. Trinta anos antes, se calhar no mesmo espaço, dizia-se o mesmo quando os actuais professores eram alunos. E daqui a trinta anos assim será. Coisas da vida.

Comments


  1. Concordo.
    Mas a avaliação pelos alunos não é, para o ME, um mero exercício. Parece querer constituir um instrumento de punição dos professores. E isso é que me parece inadmissível, que um avaliação extemporânea, não vinculada a qualquer opinião fundamentada (apenas um simples exercício crítico) seja considera vinculativa. Antes de ser professor fui aluno e sei bem que esse estatuto não é o melhor para se discernir segundo critérios de bom senso…


    • Que eu saiba isto faz-se nos CP´s há muito tempo, e não é usado como avaliação dos profes, mas como mero feedback.

      Um formulário como o que o Paulo Guinote publica seria, é óbvio, uma aberração.

    • Matilde Pessanha says:

      Matilde Pessanha
      Há 3 dias
      A PALHAÇADA SATÂNICA-ILLUMINATI DA AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES
      http://www.crup.pt/2017/12/19/comissoes-de-avaliacao-externa-a3es-recrutamento-de-estudantes/
      Crup | Comissões de Avaliação Externa A3ES – Recrutamento de Estudantes
      COMEÇAM POR DIZER QUE A ABERRAÇÃO É EXPERIMENTAL…E LOGO FICA OFICIAL….
      ALUNOS DO SECUNDÁRIO A AVALIAR PROFESSORES DO PRIMÁRIO E PRÉ_PRIMÁRIO…ETC…O QUE É QUE SABEM DA PODA?!!!!!!
      AS AVALIAÇÔES FAZEM-SE NAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES PELOS PROFESSORES E DEPOIS EXPERIÊNCIA E CURRICULUM…NADA MAIS SEUS FILHOS DA PUTA!!!!
      SE O ENSINO EM PORTUGAL ESTÁ A SER CONSIDERADO AO NIVEL DO DA FINLÂNDIA…A QUEM ACHAM QUE SE DEVE O SUCESSO?!!!!!
      AOS PROFESSORES QUE ANDAM A SER F….E MAL PAGOS!!!!!!

      ESTA MERDA TEM OS DIAS CONTADOS!!!!!!

  2. Manuel Guimarães says:

    eu acho que a avaliação será sobre o Desempenho Decente

  3. António says:

    Mas não é assim que se faz em muitas Universidades? E em muitas empresas, nos cursos de formação que promovem? E desde há muitos anos? Desde muito antes de 1986, conheci eu uma empresa onde isso de fazia habitualmente.


  4. Boa noite João
    Li os seus comentários com interesse e gostaria de receber o seu contributo para a melhoria deste questionário, que é uma tentativa, que não considero falhada, de contribuir para a partilha de boas práticas pedagógicas, ligitimadas pelos alunos. É uma questão controversa, mas professores e alunos estão no mesmo barco e têm que remar juntos para bem da escola pública. Não estamos em barricadas opostas, pois a guerra é contra a ignorância e não contra pessoas. Fazendo uma retrospectiva breve do porquê deste questionário, no ano lectivo de 2009/2010 reuni com os delegados de turma ( do 7º ao 12º ano) e negociamos um conjunto de regras de sala de aulas a serem cumpridas por todos, professores e alunos. E houve professores que não gostaram porque acham que o professor não está ao nível dos alunos e como tal merece ter tratamento diferente, esquecendo que o exemplo é a melhor forma de educar. É recorrente ouvir os alunos que eles não podem utilizar o telemóvel na sala de aulas e o professor pode. E quando a direcção pede ao aluno para em conjunto com o EE apresentar queixa, eles recusam-se com medo de represálias. Isso é comum em meios pequenos. Mas para o professor fica a imagem que eles recuaram porque o que estavam a alegar era mentira e continua com estas pequenas transgressões, que para o aluno revelam um uso de poder despropositado. Está é uma escola em que está em vigor um projecto “Turma Solidária” em que cada turma, do 12º ano ao 7º ano, durante 1 semana, em equipas de 2 elementos devidamente identificados, nos intervalos e nos tempos sem actividade lectiva, circulam pela escola, servindo de mediadores de conflitos, prestando ajuda na cantina aos colegas com incapacidades, controlando as entradas para os pavilhões, no fundo, dando o seu contributo para uma escola melhor, cuidando do que é seu. São alunos em que eu acredito, em quem eu confio, embora existam casos que necessitassem de outro tipo de intervenção. São alunos de familias carenciadas, que precisam de um tipo de resposta diferenciada, adaptada às suas caracteristicas. São alunos que alguns professores conseguem cativar e outros não. E o que pretendiamos com a aplicação deste questionário era identificar os professores, dentro do conselho de turma, melhor avaliados pelos alunos e em conselho de turma, os professores partilharem as suas práticas, as suas formas de estar responsáveis por essa boa avaliação e com isso originar melhor tipo de respostas para aquele grupo de alunos específicos. É obvio que a 2ª e 3ª parte do questionário é forte e choca, mas dentro da perspectiva do exemplo e da autoridade do professor dentro da sala de aulas, é importante que o professor cumpra e faça cumprir as regras de sala de aula que foram estabelecidas para esta escola, porque é na sala de aulas que o ensino se processa (ou não). O problema da indisciplina dentro da escola está controlado, nas dentro da sala de aulas existem muitas situações que necessitam de ser melhoradas e a responsabilidade também é do professor, não pode ser apenas do aluno.
    Continuarei a acompanhar os seus comentarios com interesse e gostaria que pudesse ler as minhas 2 intervenções que coloquei no forum de discussão sobre este tema, no blog do Paulo.
    Cumprimentos
    Mário


  5. Caro JJC, tem, de certeza, colegas que não fariam o que fez – ou melhor, que o fariam num dado ponto da sua carreira, e depois considerariam a mera sugestão disso um insulto. Há que assumir pela própria classe que se contam, entre as suas fileiras, profissionais muito maus, numa área que é absolutamente crítica (o ensino básico e secundário).

    Não me interprete mal, eu tive professores verdadeiramente extraordinários, alguns dos quais influenciaram muito positivamente a minha vida, sobretudo no secundário (existem dois que influenciaram tanto, que os cito no meu CV). Na mesma altura, tive algumas perfeitas bestas – incluindo um que deu cerca de um quarto das aulas programadas (e do qual nos queixámos no CD, que nos deu razão, embora não tenha resolvido nada).

    É do interesse dos próprios professores que estas ervas daninhas sejam mondadas. A avaliação proposta não era grande coisa? Concedo que não – mas era melhor que nada. É melhor que sejam os próprios professores, fora de interesses corporativistas, a sugerir ao próximo governo um modelo de avaliação de desempenho que seja justo, transparente e de eficácia mensurável.


    • A avaliação proposta era pior que nada, porque leva a várias perversidades: não é colocando professores contra professores que se resolve o problema dos maus professores.

      Como aluno tive sobretudo um mestre que me marcou para a vida. Esse é o meu modelo pedagógico. Azar: herdei práticas que não estão dentro dos parâmetros da “normalidade”. Com o ambiente que se criou nas escolas apanhei os problemas que ele na sua vida profissional foi resolvendo com facilidade. Hoje não posso dizer o mesmo.

      Há muitos anos estive numa escola que recebia alunos que vinham do ciclo onde ele ainda leccionava. E um dia um aluno perguntou, numa aula, se eu conhecia o professor S. Respondi-lhe que sim, até tinha sido meu professor.

      – Ah, é que o stôr é muito parecido com ele a dar aulas.

      Essa foi a minha avaliação, a minha nota de estágio, a prova de que sou competente. Foi complicado, porque lágrimas a escorrer dos olhos à frente de uma turma do 8º ano não é muito fácil de gerir.


  6. Site para avaliação de Professores pelos próprios alunos

    Avalia o Professor

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