Para reflectir

Não sei se Strauss Kahn é ou não culpado do crime que dizem ter cometido. Ainda não houve veredicto e só depois dele sair é que podemos ter a certeza e conhecer as provas e não os boatos. O que me choca neste caso não é o facto de Strass Kahn ter aparecido algemado, desgrenhado, pálido, sem gravata. Isso para mim, sinceramente, não é mais que um fait diver que alguém resolver inventar, falando da “falta de dignidade humana” com que Strauss Kahn foi tratado, para desviar as atenções do que de facto era importante: ele é inocente ou culpado?

O que a mim me choca um bocadinho, tal como sempre neste tipo casos, é a presunção da culpa. O julgamento ainda não acabou mas já todo o mundo o condena. Ainda agora vi uma legião de empregadas de hotel em frente ao tribunal em Nova Iorque. Gritam contra o quê, esta gente? Pedem a condenação de um homem que não conhecem. Saberão elas os contornos do caso? Saberemos nós? E não me venham dizer que isto só acontece nos Estados Unidos porque nós sabemos que não assim. É muito fácil fazer juízos acerca de pessoas que não conhecemos, especialmente quando essas pessoas são políticos, actores, cantores, pessoas cujas vidas públicas e muitas vezes privadas, conhecemos. Se Strauss Kahn for ilibado, quantas pessoas irão acreditar na sua inocência? E se não acreditaram porque é que não o irão fazer?

Estranha gente…

A propósito do 10 de Junho: Como não uso marcadores hoje abri um livro e descobri que há uma citação no início de cada capítulo. Num dos últimos, “A guerra a Ocidente”, Felipe II dizia: Estranha gente, estes portugueses. E não. Não mudámos muito.

A avaliação dos professores pelos seus alunos

Acho que nunca escrevi sobre isto, ou seja sobre o que tecnicamente se chama Avaliação do Desempenho Docente. A publicação pelo Paulo Guinote de um formulário de avaliação dos professores, a ser preenchido pelos alunos, e a discussão que se lhe seguiu, levam-me a fazê-lo agora. [Read more…]

Lágrimas de Cavaco

“Tal como Fátima Felgueiras e Isaltino Morais, Cavaco Silva acha que uma vitória eleitoral elimina todas as dúvidas sobre negócios que surgem nas campanhas”, escreveu Miguel Pinheiro na edição da revista Sábado de 27 de Janeiro.

O procurador-geral da República entendeu haver matéria para processozinho judicial e Cavaco deu o amém. Longe de mim, portanto, vir agora questionar o milagre da multiplicação do preço das acções da famigerada SLN ou a clareza do negócio da casa da praia da Coelha azul. Ou as actuais lágrimas de crocodilo a propósito da destruição da agricultura nacional (sem subtrair ao assunto, e só a título ilustrativo, o “giracídio”, os “jipes ifadap” e a Odefruta – 6 milhões de euros, bingo! – em governos do agora mui impoluto e venerando chefe de Estado).

Afinal, no entender desta gente, o voto é como uma esponja a legitimar tudo. E o estado de direito uma carapuça para patego ver. Sobretudo agora, quando a gula de dezasseis anos sente as costas quentes de uma maioria, um governo e um lá o que quer que seja. É fartar, vilanagem!

Alegre cavaqueira

De acordo com o Público, Cavaco Silva “acredita que os portugueses querem curar a “doença” que neste momento os afecta, o Presidente da República explicou que essa “doença” é “o grande desafio de responder aos desafios que foram colocados pela comunidade internacional”.”

Limito-me, prudentemente, a citar o jornal e não posso deixar de notar que a língua portuguesa sai com alguns ferimentos, devido ao desafio que é responder a desafios.

A ser verdadeira a citação, ficamos a saber três coisas.

A primeira poderá ser surpreendente, mas é compreensível: os portugueses sofrem de uma doença.

A segunda não parece ilógica: segundo Cavaco, profundo conhecedor da psicologia lusa, os portugueses querem curar-se, o que os assemelha a grande parte dos doentes.

A terceira é a mais importante, porque corresponderia à identificação da doença. Ora, é aqui que a linguagem cifrada do Presidente obriga a cálculos exigentes: se a doença é “o grande desafio de responder aos desafios que foram colocados pela comunidade internacional”, manda a lógica e ordena Hipócrates que nos curemos, exactamente, desse grande desafio e que nos recusemos, portanto, a responder aos desafios colocados – ou transmitidos, em linguagem médica – pela comunidade internacional, responsável, portanto, pela doença de que todos padecemos.

Os serviços prestados por Cavaco à língua portuguesa são inestimáveis. De qualquer modo, já não é a primeira vez que tem problemas com a palavra “doença”, como nota muito bem Rui Unas, que deve estar quase a ser processado por ofensa. [Read more…]

Miséria de discursos em discursos da miséria

O sr. Silva, presidente de alguns portugueses, apelou à frugalidade e ao sacrifício. Para dar o exemplo e a partir de agora em Belém só se come sopa e uma sardinha será dividida pelos comensais. Com a sua peculiar memória queixou-se do abandono dos campos e da agricultura. Não se recorda de ter negociado com a na altura CEE esse mesmo abandono, ou daquela fantástica profusão de veículos todo o terreno ter brotado do nada no seu reinado de governante.

Às tropas Cavaco Silva deu o conforto de avisar que mesmo em tempo de vacas muito magras não se pode poupar na segurança. Reparem: segurança, e não defesa. Ficamos pois a saber que para os lados do poder se teme que as polícias não cheguem para conter as ruas.

O político António Barreto disse mal dos políticos. Rotina, portanto. E quer uma revisão constitucional que nos dê governos estáveis, como o proclamam todos os políticos de direita desde 1976. Ou seja: maiorias artificiais, e desprezo pelo voto dos portugueses. Há alturas em que nem sei se o passado de democrata de António Barreto pode ser considerado no presente.

10 de Junho: a medalha de Sócrates

Há quem chame ao 10 de Junho o dia das medalhas. Sócrates também foi medalhado hoje em Castelo Branco, não pelo Presidente da República, mas por populares.

Se, a troco de alguma sanidade, um bom banho de realidade e de confrontação com os sentimentos dos portugueses faz bem a Sócrates, pergunta-se onde estava esta gente quando o ex-primeiro ministro era ainda um “animal feroz” e andava pelo país a distribuir auto-estradas, ventoinhas e barragens? Ou será que só lhe batem depois de vencido?