O que nós precisávamos era de 3 Afonsos Costa!

Não, o estado não é laico. Se o fosse, não havia escolas, instituições, ruas, aldeias ou mesmo cidades com nomes de santos, feriados religiosos, nem excursões a Fátima pagas com o dinheiro público. Nem se comemoraria o Santo António, o São João ou o São Pedro. O Estado não é laico porque, embora os governos oscilem a partir de um braço de ferro entre maçonaria e o catolicismo, a maior parte dos políticos favorece a Igreja. Seria impossível não fazê-lo: cerca de 75% do património nacional é de origem católica e os púlpitos, embora não se usem são ainda um canal privilegiado de comunicação. Um Estado absolutamente laico nunca atribuiria dinheiro para o restauro, promoção e estudo de igrejas, capelas, ermidas ou património móvel ao serviço do culto, como (ainda que timidamente) tem feito. Se o Estado fosse absolutamente laico, reprimiria ou não autorizaria o culto fora dos templos, proibindo as procissões, por exemplo.

Por isso, definitivamente não estamos perante um estado laico, nem, como muitos querem, uma Primeira República, anti-clerical e ferozmente positivista. Talvez se resolva isso mudando, a “barroca [eu diria bacoca] e anacrónica constituição” como bem referiu e oportunamente sublinhou António Barreto. Então aí sim podemos dar azo às nossas frustrações em relação ao peso da religião na sociedade portuguesa.

Começaríamos então pelos feriados: todos os feriados religiosos deviam ser abolidos, desde o Natal à Páscoa, mantendo-se apenas os cívicos: 10 de Junho, 5 de Outubro, 25 de Abril e 1 de Dezembro. Depois eliminar-se-iam as 5 quinas do escudo nacional, pela simbologia religiosa demasiado sugestionável. Em seguida proceder-se-ia a uma limpeza toponímica como aconteceu depois de 5-10-1910: todos os becos, ruas, avenidas, povoações e instituições públicas e privadas deveriam abolir a designação hagio ou hierográfica, podendo, no entanto, manter  o nome do/a taumaturgo/o, abolindo o  São ou Santa por Camarada ou pela desinação maçónica.

As igrejas deverão ser fechadas, o produto da raspagem do ouro dos altares (esse ouro roubado aos camponeses) aproveitado para a venda e transformado em comida para pobres e necessitados. A talha, pinturas e demais retábulos queimadas e as imagens vendidas. Algumas igrejas, as que se não derrubarem, podiam ser aproveitadas para edifícios comunitários. O mesmo com o Museu Nacional de Arte Antiga e o seu recheio. A Custódia de Belém, por exemplo, assegurará comida para uma pequena comunidade durante, pelo menos, um ano.

Todas as cruzes, símbolos pró-católicos ou cristãos deverão arder em fogueiras públicas como purga. O padres serão presos, as beatas chicoteadas até largarem os terços. E Portugal será, então, um país novo. Sem Fátima, contudo, e se os novos constitucionalistas não assegurarem também a sua extinção continuaremos a ter Fado e Futebol, que (ò inclemência) substituirão em altares novos a religião antiga.

Ironias à parte, o que mais me chateia nisto tudo, de facto, e apesar de ser católico, é que Câmaras Municipais usem o dinheiro de todos para qualquer actividade que não sirva a maioria da sua população, ou o faça com intuitos propagandistas, como deve ser o caso (porque não se duvide, em Celorico de Basto, a maioria é católica e tanto quanto alcanço, são as maiorias que fazem a democracia). Mas aborrece-me ainda mais que todos os dias as câmaras – essas pequenas ditaduras pessoais – gastem dinheiro em fontanários, em caminhos empedrados com granito da China, em festas populares e descurem a educação, a cultura e a protecção do património. Começamos agora a perceber nos últimos 37 anos de democracia, grande parte do dinheiro investido em Portugal foi gasto em corrupção, estradas, fontanários, alguns jeeps cavaquistas e na destruição da agricultura, do caminho de ferro e do interior português.

O resto são miudezas.

Comments


  1. O estado é laico…as pessoas que trabalham para o estado é que (felizmente) ainda tem hipótese de o não serem, ao contrário da vontade de alguns.


  2. O Estado é constitucionalmente laico. Claro, nos últimos anos os governantes (ministros, deputados, presidentes de câmara….) têm-no esquecido cada vez mais.
    Um destes dias o Estado vai deixar de ser constitucionalmente laico. Então a lei fundamental estará de acordo com a realidade. O Nuno Resende ficara satisfeito.
    Eu ficarei ainda mais orfão desta dita República….


  3. Caro José Mestre?
    Eu? satisfeito? O que mais me agradaria é que se cumprissem as palavras de Cristo: a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus [Lucas 20:22-25]. Infelizmente, tanto os “césares”, como os de Deus são ávidos.
    A República está podre. E não me refiro àquele ignóbil regime criado pelo mais ávido dos césares, Afonso Costa, refiro-me à res publica. E quanto a isso, nada há fazer.

  4. Funcionário Administração Local says:

    Engraçado, Portugal deixou de ter ditadura e nem por isso se deitaram abaixo todas as obras emblemáticas construídas (Ponte Salazar, Instituto Superior Técnico, Universidade de Coimbra, centenas de edifícios públicos, estátuas, estradas, etc). Lá por o estado ser laico não quer dizer que tenha que abolir as convicções religiosas de cada um dos portugueses. Ok, fica o trabalho literário do texto, porque o resto… pois.

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