A inutilidade dos jubilados

escrever.bmp

(retirado dos cadernos das minhas memórias)

Comecei a vinha vida de trabalho muito novo ainda. No dia seguinte, após 60 anos de trabalho, estava jubilado. A vida passou como um pestanejar… olhos que todo vem, lembram-se de todo, avançam no conhecimento da vida e guardam as experiências do que se entende, desenvolve e útil parta outros, como para nós próprios.

No meu entender, é um acto contraditório. Jubilar está relacionado com Encher (-se) de júbilo, o jubileu ou gáudio ou alegria da vida porque não há mais nada para fazer: a vida foi ganha, conquistamos amigos que nos acompanham e estão sempre connosco nesses dia que parecem de preguiça.

No entanto, a necessidade da vida leva-nos a esses dias que beliscamos da manhã à noite. Era pequeno e quase não sabia andar e olhava de baixo para cima um senhor sempre de preto, de fato preto, de um advogado que já nem queria litigar: os anos tinham sido pesados em tanto tribunal e estava cansado de falar. Era o meu avô materno que no vivia os dias, os matava em jardinagem, em ir as casas dos seus descendentes para brincar, como mais um puto, com esses pequenos que lhe enchiam os dias. No meu ver, como leio nos meus cadernos de memórias para lembrar a ida que sempre escrevi quando já me era possível, era alto, um gigante

amável, não como os dos contos de Oscar Wilde, que me ensinava brincadeira. Entre ele e mim, estavam os jovens pais, esses que estavam a aprender a vida na educação da sua prole. Mal sabiam faze-lo e viam-se obrigados a perguntar ao mais velho da família o que fazer se havia um catarro, quando deviam começar os estudos no colégio, se era melhor um privado ou a escola pública, se podiam ou não pagar essas instituições privadas ou se os avós podiam contribuir.

Sorte a minha. Dinheiro havia para os privados, mas os avós aconselharam estudar em casa, poupar para o futuro, esse que um dia ia a aparecer e não seriamos úteis para os outros, dentro de um ambiente calmo e familiar, conhecido e acolhedor: um sítio adequado para desenvolver uma vida em paz, a confiança em nós próprios, sem punições, bem ao contrário, sentar-se ao pé dos adultos e ler em silêncio e acompanhados, ou ouvirmos as leituras dos nossos velhos, que nos divertiam, como se estivermos sempre dentro da personagem principal dos livros infantis As Aventuras de Tom Sawyer, As Viagens de Tom Sawyer e Tom Sawyer Detective, de Mark Twain (18351910), considerado o pai da literatura americana moderna. É um garoto que vive com a tia Polly e o irmão Sidney numa pequena cidade nas margens do rio Mississípi, nos Estados Unidos da América, no século XIX. Esperto, Tom e seu amigo Huckleberry Finn metem-se nas mais incríveis peripécias, que pareciam nossas, a nossa vida pessoal, como sonhamos em criança, procurando as roupas adequadas, para sermos a personagem real que adorávamos ouvir, ser e imitar. O alegre autor era Mark Twain, ou Samuel Langhorne Clemens (Florida, Missouri, 30 de Novembro de 1835Redding, Connecticut, 21 de Abril de 1910), mais conhecido pelo pseudónimo Mark Twain, foi um escritor e humorista norte-americano. É mais conhecido pelos romances The Adventures of Tom Sawyer (1876) e sua sequência Adventures of Huckleberry Finn (1885), este último frequentemente chamado de “O Maior Romance Americano“; ou Vinte Mil Léguas Submarinas (no original, em francês: Vingt mille lieues sous les mers) é uma das obras literárias mais famosas do escritor Júlio Verne, publicada pela primeira vez em 1870. O mais simpático de todos era a leitura do livro de Eduardo Barrios, Gran Senhor e Rajadiablos, de 1948 a edição original, que ainda me acompanha, na edição de 1967, Editora Nascimento, Santiago de Chile. Livro que li milhares de vezes e torno a ler, oferta do Engenheiro, o meu pai. Escrevi sobre este autor na Editora Estrolabio, em 2011. Comecei por dizer: Pouco ou quase nada se sabe dos escritores chilenos. Apenas se mencionam Pablo Neruda, Gabriela Mistral, e acabou. Infelizmente, diria eu Dentro de la terra mal podem – se sustentar com os seus livros, publicações e direitos de autor.

É evidente que me refiro à época em que encontrar trabalho no Chile, era um duelo de Titãs. O se tinha fortuna pessoal ou famílias com terras que produziam bem e os bens vendidos como mercadoria não apenas sustentavam uma família, bem como para uma família alargada. Tem sido a minha experiência pessoal, usufruída enquanto no Chile morava. Mas com quarenta e cinco anos fora do país e sem mais herança que o meu ordenado, a vida tem mudado redondamente. Eduardo Barrios (Valparaíso, 25 de Outubro de 1884Santiago, 13 de Setembro de 1963) foi um escritor chileno. Mais nada acrescentam os comentaristas, sobre um livro que ensina a vida rural do Chile, que bem conhecíamos por morarmos na vida do campo e do mar.

A nossa jubilação faz de nós pessoas que procuram serem visitadas, serem pagas como a lei manda e não apenas uma miséria de segurança social. Além de sermos avôs que entretemos aos nossos netos, temos que poupar o cêntimo pela injustiça das formas de pagamento da vida académica, a que servimos, no meu caso pelo menos, durante cinquenta anos.

Ser jubilado é uma inutilidade social: ou inventamos a nossa vida, ou procuramos outro trabalho paralelo que ajude a preencher o que a vida universitária não dá.

Confesso, sim, que, como falava uma das minhas filhas, que deixa um tremendo espaço para a escrita e vamos curando a nossa solidão com as análises dos factos reunidos, como quem poupa dinheiro para a velhice, guardando papéis, arquivos, dados, base do que, com tempo, já podemos analisar. Amar, amamos, correspondência na afectividade, cada dia que passa, vamos ficando mais anciãos e sem dinheiro, por outras palavras, não somos ser inúteis, somos pessoas sem dinheiro que, hoje em dia, atrai as pessoas que nos acompanham, o que parecem acompanhar-nos.

Os dias passam, nos alertamos a nossa inteligência com a utilidade da nossa pesquisa e mantemos uma mente clara enquanto fica activa. A inutilidade de um jubilado pode ser ultrapassada com amor e actividade mental. É assim, que ser jubilado passa a ser uma realidade que colabora para a alegria da vida. Ainda que mais ninguém se lembre de nós….

A sobremesa é simples. Os anos passam e as formas de agir geram uma velocidade e actividade que, antes, não existia. Esse imenso trabalho que não permite a interpelação pessoal.

Raúl Iturra

Parede, Portugal, no dia do aniversário do meu genro neerlandês

28 de Junho de 2011..

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: