Por aqui se vê a força do PC

Nos últimos tempos têm surgido em alguns comentários teorias curiosas. Uma delas, que reúne bastantes adeptos, é a de que Saramago ou Siza Vieira não seriam o que são sem a força do PC. A teoria diz, mais ou menos, que se não fosse a força da máquina do PCP estes vultos jamais sairiam da penumbra, para sempre condenados à sua mediocridade natural.

Seria fácil, para mim, ficar estupefacto com tais teorias e subvalorizar a lucidez analítica de tão notáveis teóricos. Não o faço, porém, e reconheço a minha insignificância, tal como o meu mais rigoroso e completo analfabetismo.

Resta-me, portanto, ficar estupefacto com a força do PC. Ele é comité Nobel, ele é Alvar Aalto, Pritzker e Universidade de Harvard, ele é o governo francês, nada escapa ao poder manipulador do PCP e à sua capacidade de imposição de Medíocres.

E como Siza consabidamente não os merece, só posso enviar daqui, publicamente, os meus parabéns ao PCP.

Comments


  1. O Cesariny também, parece que por via paterna.

  2. Rodrigo Costa says:

    … Bem Pedro,

    Como não são, infelizmente, muitas as pessoas com coragem para dizerem o que pensam, muito embora não me atribua o monopólio da assunção, concluo, sem que o faça abusivamente, que terá lido algumas das minhas afirmações, que, de resto, mantenho, por não serem fruto do acaso ou de aversão ao PC; até porque, como já tenho referido em outros comentários, não tenho partido, não voto, e não estou interessado em mais do que analisar e expressar a minha opinião. Inclusivemente, se me convidarem para integrar uma manifestação, mesmo de apoio a ideias que defenda, nou vou, porque sempre gostei de agir sozinho, por conta-própria, sem ter que desconfiar dos que dissessem estar do meu lado.

    Depois, na preservação dos direitos e liberdades que cabem a cada um, entendo que as pessoas devem prosseguir na concretização dos meus projecto… desde que não invadam o meu quintal; que é aquilo que eu faço, para não impôr as minhas vontades a quem quer que seja. Acho, apenas, para conclusão de intróito, que as pessoas, todas, deveriam fazer um pequeno esforço para pensarem pela própria cabeça,.isto é, para quando quiserem chamar “mestre” a alguém, chamem porque achem que a pessoa é, e não porque alguém lhes tenha dito a pessoa ser.

    Como poderá comprovar —e a questão transcende o âmbito nacional, embora a realidade, por razões compreensíveis, por visíveis, se tenha vindo a dissipar—, a maior parte, repito, a maior parte, não todas, as figuras intelectualmente famosa, digamos assim, pertencecem ou pertenceram aos ao PC; como figuras cimeiras ou como meros apoiantes de ideário, que ajudam ou ajudaram à divulgação e à manutenção da “palavra”.

    Portanto, você saberá que o próprio Picasso —um gigolo, no sentido lato da designação, quer como homem, quer como artista — chegou a ir ao Politburo receber a comenda; o mesmo crápula que derreteu o dinheiro da bailarina russa com quem viveu e de quem teve filhos, e que, depois de “sugada”, a deixou, economica, fisica e moralmente em mísero estado.

    Poderá perguntar-me: —mas o Picasso necessitava do PC para alguma coisa? —tanto necessitava que se envolveu. Por fé, por partilhe de filosofia?… Vou deixar isso à sua consideração. Atente a muitos dos pensamentos que expressou e ao gosto que ele tinha pelos prazeres e pelo dinheiro —acrescentando-lhe o exemplo que deixei no parágrafo anterior, acha que estaremos a falar de um idealista?… Há uma coisa que, até agora, não disse, que ele não tinha capacidade; por todas as razões, mas, também, porque, assumida a sua distância acerca da matéria, como é que o Pedro poderia valorizar ou desvalorizar as minhas palvras?…

    A nível nacional, se investigar, encontrará meninos para quem o PC foi o motor de arranque. Passada a preponderância do Partido e chegados ao aerópago, vai encontrá-los, hoje, dispersos em partidos mais à direita, desde o PS ao PSD, porque o que essa gente procurava não era a fé, era o conforto; alguns passaram, até, de pertencentes a redes bombistas de partidos da extrema-esquerda a figuras de proa de instituições de posicionamento, económico e filosófico, diametralmente oposto —não foi por acaso que Cunhal se afastou a lamber as feridas provocadas por algumas figuras em quem acreditou.

    A importância do PC sempre esteve e, apesar de tudo, continua a estar na Comunicação Social, neste caso, ao nível dos espaços que tratam as questões da Cultura, sendo fácil “pagar” a colaboração dos apoiantes com espaços de divulgação das suas actividades; o que acabava por funcionar como boomerang: o Partido divulgáva-os, eles cresciam, ganhavam relevância e acabavam como bandeiras, mesmo que pudessem ser vistos, com frequência, em almoços e jantares de capitalistas, porque há uma verdade a que ninguém consegue fugir, os artistas também necessitam de alimento, e os quadros, a pintura, e as esculturas, por exemplo, não são coisa que possa ser hábito de pobre —pode, enquanto pobre, ter talento e praticá-las, mas não pode, em tais circunstâncias, muito menos por hábito, adquiri-las. Acha fácil gerir este equilíbrio?

    Poderia —como já o tenho feito noutras alturas, de modo pessoal— discutir as capacidades de A ou de B, enquanto artista; mas aprendi que o devo fazer apenas com quem, em razão da actividade de que se ocupa e da necessidade, pura, de pensar, tem obrigação de me acompanhar nos raciocínios, para que possa, com base em argumentos capazes, concordar ou disciodar do que penso, exactamente por que sou uma pessoa de trabalho; que se dedica à actividade artística a tempo inteiro; ensaiando e tentando compreender os fenómenos e a razão dos fenómenos. Mesmo a minha participação neste espaço não é inocente, porque a utilizo como ferramenta de raciocínio e de avaliação do nível das pessoas que postam, essencialmente, porque, entre quem comenta e posta, só quem posta é, realmente, autor; tem obrigação acrescida.

    Há, inclusivamente, um livro com o título “Arte: que investimento?…” da minha autoria, entre outros, que você e a maioria das pessoas não conhece, porque são edição de autor, e porque os orgãos de comunicação para quem o enviei, se o não perderam, anda perto. Nesse livro, há afirmações que faço, que quis tornar públicas, por serem fruto da minha convicção amadurecida.

    Dirá, dentro do direito que lhe assiste, que, se não divulgaram é porque acharam que não tinha interesse. Bem!, sendo suspeito pelo facto de julgar em causa própria, esqueço isso e afirmo que vejo, assiduamente, pior merda, desculpe o termo, em escaparates luminosos.

    Sem querer discutir, como disse, pelas razões que mencionei —mas podendo— a qualidade artística de ninguém, digo, apenas, que nenhuma competência, mesmo a que exista, sobrevive, ultrapassa a penumbra, se o indivíduo não for pertencente a famílias economicamente capazes ou influentes ou não tiver um bloco, um clã, onde acoste.

    Ao contrário do que o Pedro sugere, eu digo-lhe, garanto-lhe, que a importância do Partido Comunista se foi esvaziando, exactamente porque foi penetrado por almas que não eram crentes, mas hábeis, nesse sentido, “artistas”, que aproveitaram a boleia. Assim que o vendaval passou; assim que passou a ser seguro não ser obrigatoriamente de esquerda, apanhados os proveitos —até porque esses “pobres” enriqueceram e a situação virou incoerência—, deram um passinho à direita. Alguns, como S. Pedro, dirão que nunca o viram,
    mesmo antes que o galo cante —mas isto não é novo nem, muito menos, invento nada: Platão, cansado de esperar que os costumes políticos mudassem, deixou de se interessar por esses assuntos.

    Continuo a dizer que a relação entre certas figuras e o PC foi relevante para a sua divulgação. Sobre a qualidade delas, poderei pronunciar-me, mas será necessário que, entre nós, haja elementos de suporte sobre os quais se possa estabelecer a discussão —outro dia, em Lisboa, tive uma “sessão” sobre o Amadeu, mas foi com um curador da Fundação Berardo, alguém que eu achei que tinha a obrigação de me acompanhar, muito embora eu saiba, por experiência, que os curadores são uma espécie de estlistas num mundo que não é, de modo algum, de modas.

    Nota: Se o Pedro estiver interessado, terei todo o gosto em enviar-lhe op livro que refiro, de graça, porque não fiz o livro à espera de negócio. Só terá que fazer o favor de me deixar uma morada.

    Para que não fiquem dúvidas sobre mim —como pessoa, entenda-se— deixo o meu site; lá tencontrará todos os meus contactos. http://www.rodrigo-costa.net

  3. Rodrigo Costa says:

    Desculpe, Pedro, assim é que deve ser lido, como é lógico.

    “Depois, na preservação dos direitos e liberdades que cabem a cada um, entendo que as pessoas devem prosseguir na concretização dos seus projecto… “


  4. Rodrigo
    Tenho uma postura semelhante à sua num assunto: também eu “aprendi que o devo fazer apenas com quem, em razão da actividade de que se ocupa e da necessidade, pura, de pensar” no que toca à discussão de alguns aspectos de natureza artistica. Primeiro, por serem subjectivos, segundo, por dependerem do tipo de informação que os intervenientes possuem, terceiro, por se tratar de um nicho de subtilezas e especificidades que a quase ninguém interessa(m) sem ser apenas pela rama. Digo-lhe também que os discutiria consigo pessoalmente se, para isso, a ocasião um dia se proporcionasse.
    Posto isso e sem passar por Picasso (estou certo que não ignora o seu papel percursor e inovador em vários campos do início do modernismo do séc. XX e a forma como contribuiu para que a arte ocidental alrgasse campos e se libertasse de espartilhos. Sei também que não ignora que o valor de um artista depende também do tempo em que opera e da “paisagem cultural” então vigente, pese embora dizer-se com alguma facilidade que a “boa” obra artística é “eterna”), vamos ao PC.
    Sei que até aos anos 70 do séc. XX os PCs (que não propriamente o PCP) eram poderosos “lobistas” junto das inteligentsias, influência que o tempo histórico se encarregou de atenuar e até, como hoje se passa, de punir. Nesse sentido, muitos artistas (talvez especialmente certos poetas) foram assim promovidos. Os casos a que me refiro (Saramago e Siza Vieira) começaram a afirmar-se já no ocaso dos PCs e da sua capacidade de influência e não lhes sobreviveriam não fosse a sua qualidade intrínseca. A capacidade que o PC teria, hoje, de potenciar o seu reconhecimento internacional seria praticamente nula ou, até, contraproducente.
    Quero dizer-lhe ainda que este artigo se dirige a várias outras pessoas que aqui comentam, não necessáriamente (apenas) a si.
    Para finalizar: Vieira da Silva, Cutileiro, Sophia M. B., Almada antes deles, e tantos outros vultos da cultura portuguesa nunca orbitaram o PC e afirmaram-se por si. Mas também não ignoro que um artista pobre, mal-relacionado e independente difícilmente é ou virá a ser reconhecido.

    PS: Quanto ao livro, terei todo o gosto e lê-lo, contactá-lo-ei privadamente para isso assim que o tempo mo permitir. Obrigado

  5. Rodrigo Costa says:

    Ok, Pedro, ficarei, com muito gosto, à espera do seu contacto.

    Quanto à subjectividade da arte… não é tanta assim. Pouco há que não possa ser explicado.
    Há, de facto, esse mundo de quarto-escuro que poucos estarão interessados em que se abra, porque há muita mitologia que segura o negócio —segurava, porque, agora, a verdade perdeu a paciência :-). E, asseguro-lhe, quando alguém não quer ir muito além da rama, é porque não está preparado, é porque não ama aquilo de que se fala… ou porque beneficia do silêncio e do engano.

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