As guerras do canal de distribuição e das moedas (1)

A China fez hoje saber que a sua agência de notação financeira desconfia da capacidade dos EUA para pagarem as suas dívidas e recomenda-lhes cautela, particularmente no que respeita os gastos militares, que é como quem diz, tenham juízo e deixem de intervir nos conflitos mundiais. Sendo a China o maior credor dos EUA, esta mensagem vai muito para além do aviso.

Até há poucos anos poderio militar e económico eram sinónimos mas essa realidade tem sofrido considerável mutação. Neste momento, o ocidente continua com o domínio do poder militar mas perde a passos largos o poder económico. Já o oriente está na situação inversa, ainda sem o domínio militar mas, claramente, em vantagem na questão económica.

Existe um sério risco do ocidente tentar puxar o fiel da balança para o seu lado usando o poder que ainda controla. Cada desvalorização dos ratings das dívidas é mais um empurrão para a guerra. Esperam-nos tempos conturbados.

(continua)

Comments

  1. manuel.m says:

    Post perfeitamente acertado :
    Com Michele Bachmann e Sarah Palin (a tal que dizia que África era um país…) como provaveis candidatas à presidencia dos EUA , e pela maneira como as coisas estão a correr para Obama,com uma delas mais do que provavel vencedora ,os chineses já perceberam que arriscam ser pagos não em dolares mas noutra “moeda”.

    • jorge fliscorno says:

      Ironicamente, aqueles que nos EUA se manifestam contra o aumento da despesa pública foram os mesmos que estoiraram o super-avit deixado por Clinton.

  2. ricjoli says:

    A penúltima edição do The Economist traz na capa um cartoon de Obama e de Merkel com o título “Turning Japanese”, precisamente sobre a possibilidade de a economia dos EUA e a da UE poder vir a estagnar durante anos, tal como a do Japão, enquanto os BRIC apresentam um crescimento económico constante na ordem dos dois dígitos (ou próximo disso). O poder económico crescente destes países (e a sua consciência desse poder… capitalista) começa a ser evidente, bastando lembrar as palavras de Putin, ao classificar os EUA de “parasitas”. E as guerras de poder continuam nos bastidores: o estado americano bem se poderia denominar «USA, Inc», tal é a influência dos grupos financeiros e militares em termos políticos, e os chineses vão comprando dívida soberana. A questão é: em troca de quê? Concerteza que terão contrapartidas. O poder chinês é visível na questão do avião de tecnologia militar que se despenhou há uns dois anos, cujos destroços os EUA exigiram de volta e a China devolveu… depois de o estudar. Impunemente.
    Se as nossas lideranças continuarem a olhar para o lado, tanto o sonho americano como o sonho europeu descambará em breve. de modo que precisávamos de lideranças fortes, como as fundadoras da CEE, homens de trabalho e de visão, mas vêmo-nos rodeados de líderes que apenas se procupam com a sua imagem no espelho da mediocridade.

    • jorge fliscorno says:

      A propósito da queda desse avião que os chineses aproveitaram para estudar, recordo-me do caso do novo helicóptero que a empresa franco-alemã Eurocopter (grupo EADS) decidiu construir. Chegada a fase de arranjar financiamento para o projecto, lá entraram os chineses no jogo. Mas com a condição de o desenvolvimento ser feito na China. Não sei se o projecto avançou mas na altura (talvez há cinco anos) esse era o estado das coisas.

  3. Ricardo says:

    População mundial + recursos do planeta (desbastamento) + sistema capitalsita + especulação financeira = ?


  4. war is near…


  5. Tem razão, infelizmente.
    Não sei o que me parece mais estranho: se ver estas coisas com clareza, se perceber que ninguém parece dar qualquer importância.

    Abraço e bom fim-de-semana.


  6. Neste momento, o ocidente continua com o domínio do poder militar mas perde a passos largos o poder económico. Já o oriente está na situação inversa, ainda sem o domínio militar mas, claramente, em vantagem na questão económica.

    Na minha opinião o poderio económico do oriente não é tão esmagador como se possa pensar. Não creio também, que os papeis entre ocidente e oriente se vão inverter. Penso, isso sim, que os papeis tanto de um lado, como do outro vão mudar.

    Digo isto por muitos motivos:

    • O poder económico do oriente baseia-se em grande parte numa exploração digna dos inícios da revolução industrial pagando aos trabalhadores salários ínfimos por longas horas de trabalho. O modelo não é socialmente sustentável. No entanto mesmo com um PIB per capita de uns 4000USD (baixíssimo) assim que aumentaram ligeiramente os salários (devido aos muitos protestos que aparecem um pouco por todo o lado) houve empresas que saíram da China porque deixava de ser rentável a manutenção das operações;
    • Mal as economias do ocidente (economias clientes) tiveram problemas, milhares de fábricas fecharam na China. As margens são tão apertadas que qualquer soluço desestabiliza o sistema;
    • Devido aos dois anteriores motivos não foram criadas as classes médias em quantidade suficiente para auto-sustentar as economias, logo o oriente necessita do ocidente, somos nós os únicos clientes. Se nós nos tornamos indigentes, o oriente cai a seguir;
    • A China, em termos financeiros, está metida numa embrulhada tão grande e complexa como o ocidente. Tem várias bolhas em evolução (imobiliária, de crédito, das colsas), o governo faz investimentos enormes para manter tudo isto a funcionar (por exemplo).
    • Mesmo que o oriente consiga criar os mercados adequados a sustentar a respectiva economia, temos os problemas do pico do petróleo e da falta generalizada de matérias primas. Isto só por si vai obrigar à mudança dos paradigmas. Neste momento não temos produção suficiente de commodities para termos as economias desenvolvidas e emergentes em crescimento ao mesmo tempo (assim que se começa a crescer, por exemplo, o preço do petróleo dispara, pelo simples motivo de ser escasso).

    O que vai resultar desta embrulhada toda? – Não faço a mais mínima ideia…

    Uma guerra é sempre uma boa forma de recomeçar o jogo.

    • jorge fliscorno says:

      Análise interessante. Os cenários, quanto a mim, são pouco claros, tal é a enormidade de variáveis em jogo. Uma coisa é certa: a China tem dinheiro e é dona de grandes quantidades de dívida pública de outros países. A ver vamos no que dá este cocktail.

  7. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    Os chineses que não se costumam distrair, estão a falar grosso para não ficarem calados. Eles sabem perfeitamente como maiores credores que são dos states, que recebem sempre o seu dinheiro. Afinal a divida americana à China é em dolares. É só por as rotativas a trabalhar e fazer horas extraordinarias, se for preciso. O Trichet devia aprender como se faz, mandar imprimir dinheiro, e pagar o grosso das dividas dos paises do euro. Eu não percebo nada de macroeconomia, mas parece-me que é melhor termos INFLAÇÂO, do que BANCARROTA.

    • jorge fliscorno says:

      Pois, mas receber o mesmo valor numérico não é bem a mesma coisa de receber o mesmo dinheiro 🙂 Mas concordo, mais vale inflação do que bancarrota.

  8. Rodrigo Costa says:

    Eu diria, apenas, que, eterno… só a Eternidade —por mais voltas que, mesmo a Ciência, possa dar ao texto.

    Nada nem ninguém cresce indefinidamente; a vida de tudo, de todas as coisas, de todos os seres, desenvolve-se por ciclos, e já todos perceberam que, o que são, hoje, terrenos elevados e visíveis, foram, em tempos, terrenos submersos —e vece-versa. E também já todos conhecemos famílias que, no passado, eram alfobres de riqueza, e que, pelas razões mais diversas, vieram por aí a baixo… E podemos citar os vários impérios que se desmoronaram; Portugal, ele-próprio, foi dono de metade do Mundo; e, hoje, como é do conhecimento, vive paredes-meias com o abismo.

    Entre as coisas, digamos assim, os outros seres e a Humanidade, há, de facto, uma nuance a considerar. Isto é, para além de não ser inânime e ter vontade-própria, o ser humano tem, ao dispor, as inteligências analítica e aplicativa; pode, portanto, em função das análises, pensar, concretizar e ajustar projectos mais de acordo com a natureza da Natureza —a única forma de poderem ter uma vida longa, resistindo aos solavancos e ao atrito; e, já agora, minimamente confortável.

    Mas —há sempre um “mas”— a par das inteligências que referi, há essa coisa chamada Instinto, que, com o tempo, conclui ser a bomba que nos integra, com um temporizador a que não temos acesso; e, ás vezes —muitas—, na ânsia de lhe interrompermos o destino, de a desactivarmos, decidimos cortar um fio, mesmo sem que saibamos qual a cor do certo. O drama aumenta, à medida que vai aumentando a vontade de cortar o fio; porque vem aumentando a vontade de contrariar as bases de funcionamento —com mensagens explícitas— da Vida.

    A Ciência descobriu o “princípio da proporcionalidade”, a questão dos “vasos comunicantes”, a “lei da gravidade”, a “lei da impenetrabilidade”; encontrou fórmulas intrincadas, pelas quais consegue explicar parte do modo como a Vida se processa, como são mantidos os seus pilares, através dos tempos; deixando que a vejamos como campo, interminável, de metáforas, para que, partes de um todo, nos convençamos de que a manutenção do equilíbrio das partes tem, por gramática e manual, o funcionamento desse mesmo todo… Em vão. A gula, a ganância, faz, do ser mais equipado, o ser mais estúpido; pretenso senhor de todas as ciências, o humano, abrevia a existência por falta de conhecimento —ou, no mínimo, por menosprezar verdades, indesmentíveis, e já descobertas.

    A globalização é uma estupidez; é um absurdo. Global já tudo isto é, mas sempre no respeito das especificidades; porque as parcelas, com características próprias, são partes necessariamente contributivas para o funcionamento global. A Humanidade será tanto mais equilibrada, mais estável, quanto mais se aproximar de um “composto”, percebendo-se as fases, que interagem, que se relacionam, que se complementam, mas que não deixam de ser o que são, não devendo ser uma “mistura”.

    A primeira desvantagem desta globalização é que, como se pode ver, um país constipa-se e todo o mundo espirra; não é possível a intervenção localizada, sem que o todo tenha que ser submetido a tratamento, porque sofre as consequências… E o pior é que nada disto se deve ao altruísmo, mas ao “negócio”. No fundo, à vontade de ocupação, de conquista; de tanto amontoar até ficar sem nada. É isto que se tem repetido ao longo dos temos; e é por isso que a Humanidade não tem outro destino que não seja desaparecer, depois de ser dona de quase tudo; de saber quase tudo, e não se conter —há a coragem, há a perseverança, mas falta-lhe a moderação.

    Já há muito que digo que os EUA cairão e sem que ninguém os empurre. Quer dizer: não se tratará de uma explosão, mas de uma implosão; uma espécie de osteoporose, a estrutura corroida pela ambição —a mesma doença que dizimou todos os impérios, mas que não está, suficientemente gravada, registada, nos cardápios de profilaxia. A seguir, poder-se-á, desde agora, saber até quando a China vai crescendo. Sem que eu saiba quanto e até que dia, mês ou ano, posso, confiadamente, dizer que crescerá até à estagnação; a que sucederá o retrocesso… e a hipotéica queda, se não forem feitas as compensações, os ajustamentos —o fenómeno dos “vasos comunicantes” permite-nos entender isso: para que saia, é necessário que entre —com aspecto mais técnico, digamos, o Helder Ferreira, na perspicácia do seu comentário, deixa a explicação suficiente.

    Os americanos têm que repensar, que rever, a sua posição no Mundo. Como se tem visto, as vantagens do controlo sobre o petróleo e outras matérias não têm impedido o endividamento. Mais, Não têm sido suficientes para suportar os custos das intervenções nos cenários de conflito. Os credos não podem ser impostos a qualquer preço. E, do mesmo modo, Bruxelas não pode pensar que a estabilidade europeia depende da uniformização dos seus estados membros, porque se torna ingovernável. Bruxelas —uma vez fundado o processo contranatura, tem que aprender a gerir e a conjugar as especificidades dos estados, porque até o negócio carece carece da razão.

    • jorge fliscorno says:

      Bom, a propósito de nada crescer infinitamente, dizem que, contrariamente à inteligência, a estupidez não tem limites 🙂

      Quanto à globalização, tal como tantas outras coisas, será boa ou má consoante o uso que lhe se dê. Globalização sem regras tem consequências, como bem sabemos…

  9. ricjoli says:

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