Assim se delapida um país

Infelizmente neste país não faltam exemplos de delapidação do erário público no interesse de grupos privados. O caso do BPN é apenas mais um, mas possivelmente um dos mais escandalosos de sempre, sendo um dos melhores exemplos da maior degenerescência da nossa democracia: a promiscuidade entre a política e os negócios privados.

Um grupo económico cria um banco por onde passam muitos milhões de Euros em negócios ruinosos para a própria instituição bancária. Dir-se-ia que o banco se assaltou a si mesmo. O que não é difícil pois a história já provou que os maiores assaltos não se fazem de arma de fogo em punho, mas sim com uma simples caneta.

O Banco de Portugal falhou na supervisão ao longo de anos, mas não teve dúvidas em aconselhar a nacionalização do BPN, invocando o risco de contágio.

Nacionalizado que foi, sorveu seguramente milhares de milhões de Euros e agora é vendido por 40 milhões de Euros ao BIC, que dos 1580 colaboradores do BPN para já só assegura a manutenção de 750. Os restantes certamente serão provavelmente indemnizados pelo Estado. Por fim, antes do banco ser entregue ao comprador BIC, vai ainda beneficiar de uma injecção final de capital de 550 milhões de Euros paga por todos nós. Ou seja, tudo à custa dos famosos sacrifícios que são precisos fazer.

Na prática, foi criado um banco que só serviu para enriquecer meia dúzia à força da sua própria ruína. Depois a restante população portuguesa injectou dinheiro aos milhares de milhões até tirar o banco da penúria, e agora vende-o aos privados por dez reis de mel coado, e ainda fica com encargo de pagar indemnizações a centenas de funcionários de que o comprador prescinde.

Assim vale a pena fazer sacrifícios. Ao menos sabemos para onde vai o dinheiro. Não vai para onde devia ir, é certo, mas sabemos para onde vai.

(Texto publicado no semanário famalicense “Opinião Pública” a 03/08/2011)

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Uma vez a minha casa foi assaltada, tendo a entrada sido feita sem nada estragar. Tudo muito limpinho. Um verdadeiro trabalho profissional.

    Nisto do BPN, também estamos a ser limpos de uma forma profissional. O que me deixa satisfeito, já que detesto amadorismo.

  2. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    O mais espantoso, é que só está uma pessoa presa e a ser julgada. O que se passou com o BPN, é uma vergona nacional. E ajuda-nos a perceber melhor, porque somos um país do 3º mundo, mas com pretensões. E muitos ladrões, tambem!