Heróis do Chile. Os operários

Operarios

para Tiago Milagre daPC Médic, que informatizou o meu texto.

1º De Maio em Chicago de 1869

 Falava um destes dias do dia do Roto Chileno, como ganharam a guerra a Confederação Perú-Boliviana pelo difícil e directo facto de assaltar o Morro de Arica, pelo lado do território chileno, inserindo a baioneta na dura rocha de 600 metros de altura, até atingir a plataforma de cima e entrando na vila de Yungay, território peruano, perdido para os chilenos, para os inquilinos, jornaleiros e operários convertidos em soldados de muito esforço, sem se queixar nem choramingar.

Estavam habituados a vida dura do trabalho, mal pagos e as matanças que os proprietários das minas infligiam sobre eles. Uma vitória, como a da Yungay, passou a ser uma recompensa, um prémio, para as suas duras vidas de operários. Aliás, foram honrados, condecorados, agasalhados e exibidos ao povo das cidades em desfiles e honra deles. Essa guerra foi lutada e ganha em 1839, após terem cruzado três mil quilómetros de território chileno, sempre alegres e a cantar, mais um orgulhos para o general Baquedano condecorado e feito Ministro de Guerra pelos seus sucessos e derrota das Repúblicas do Peru e da Bolívia. Guerra ganha cem anos antes do meu nascimento: era impossível que eu os puder conhecer. No entanto, 40 anos mais tarde, dentro do mesmo Século XIX, o Peru, apoiado por Bolívia, atacaram ao Chile pelo Norte, em 1979. Os jornaleiros tornaram a ser soldados para livrar e ganhar uma guerra, a denominada do Pacífico, guerra em que o Capitão de carreira nas forças navais, Arturo Prat Chacón, e o nosso tio tetravó, Ignácio Serranos, perderam a vida para defender o porto de Arica das incursões peruanas. Chile era pobre em forças navais, e o melhor barco que havia, era uma fragata denominada Esmeralda, que não passava de ser um bote grande, feito em madeira, pequeno e estreito, no qual nem cabiam o número de marinhos que tripulavam a chalupa. O Peru estava bem armado e com o denominado monitor Huáscar, assaltou o porto e a corveta. O Capitão Prat, ao sentir que a batalha estava perdida, arrecada aos tripulantes e com a frase: El que sea valiente que me siga, assaltou com Ignácio Serrano e a tropa, o monitor, capitaneado pelo Almirante Grau e feito todo em aço, por outras palavras, impenetrável. Mas o ardor da batalha nem permitia pensar e o ardor pátrio mandava defender o território com a vida. Apenas um disparo do monitor, desfez a chalupa, matou a tripulação e o Capitão, sabre em mão, com o seu segundo, nem conseguiram lutar: foram acriminados a balas na ponte do monitor. Como senhor que era, Grau mandou prestar honra aos dois oficiais, foram os seus corpos devolvidos as forças chilenas, comandadas pelo Almirante Blanco Encalada, foram levados ao porto de Valparaíso, onde foi erigido um monumento, o túmulo em que descansam os corpos do Capitão e o seu Tenente.
Monumento Prat

Monumento do Porto de Valparaíso, em que descansam Arturo Prat e Ignácio Serrano. Todos os anos, a 21 de Maio, comemora-se o massacre com desfiles e dias feriados nacionais. Participei nesses desfiles entre os meus treze e catorze anos, orientando um pelotão de estudantes, fardados e com insígnias.

Os soldados da guerra do Pacífico eram novos, souberam lutar, ganharam a guerra de seis anos, entraram até Lima sob o comando do Almirante Patrício Lynch, o nosso parente, quem se proclamara Vice-rei do Peru, até ser chamado à ordem e de volta ao Chile, apenas como oficial. Por serem novos os combatentes, todos os anos em que se comemorava o triunfo da guerra, já velhos, eram levados num camião e eram aclamados por nós. Com o passar dos anos, o camião ia mais vazio, até o dia que nunca mais passara, a vida não perdoa e mata…

Porque o Peru e Bolívia assaltavam o Chile? Por causa de se apoderarem das minas de salitre que rendiam um alto lucro. Minas trabalhadas pelos operários denominados calicheros – em língua quichua, salitre se diz caliche. O trabalho era duro e pesado, mal pago e entregue a mãos de proprietários estrangeiros, ingleses alemães e norte-americanos. O operariado vivia do que comprava nos armazéns dos gestores das minas, trocando fichas por alimento, fichas que eram descontadas do raro salário com que eram pagos. Os operários um dia revoltaram-se, abandonaram as minas e foram parlamentar com os gestores das mesmas. Nem curtos nem preguiçosos, auxiliaram-se no Governo do Chile. Presidia a República o Advogado Pedro Montt, liberal. Nem teve a menor tristeza do assassinato cometido na pampa do Salitre.

Em 21 de Dezembro de 1907, no extremo norte do Chile, centenas de trabalhadores chilenos, peruanos e bolivianos foram massacrados pelo exército e a marinha. Foi assim que o governo oligárquico reprimiu violentamente um movimento social espontâneo.

Naquele início de século 20, às vésperas do primeiro centenário da independência nacional, a “questão social” no país não podia ser mais premente. Nas minas de salitre-do-chile, prata, carvão e cobre, nas empresas portuárias, nas fábricas de Santiago, de Valparaíso, de Viña del Mar, de Concepción e outras cidades, uma classe trabalhadora que começava a aderir às ideologias do socialismo e do anarquismo encontrava-se em plena formação. Desde 1903, diante da proliferação de greves e movimentos de protesto, o Estado, preocupado com a manutenção da ordem social, reagiu às reivindicações proletárias com sucessivos massacres  [1].

Tanto a classe dirigente como o Estado gozavam na época de um contexto global de grande prosperidade. Mas a desvalorização da moeda fez desabar o valor de câmbio do peso chileno de dezoito para sete centavos, provocando uma forte elevação no preço dos alimentos. A despeito da degradação de seu nível de vida e das duras condições de trabalho, as reivindicações dos operários do salitre-do-chile  [2], da província de Tarapacá, no fim de 1907, eram um tanto quanto modestas. Eles exigiam receber o salário em moeda legal, não em vales. Emitidos pelas empresas, estes só podiam ser trocados pelos produtos disponíveis nos estabelecimentos comerciais (pulperías) das próprias empresas, a preços mais altos que do mercado livre.

Outras reivindicações a essa se juntavam: liberdade de comércio, para evitar esse tipo de abuso; estabilidade salarial, utilizando como norma o equivalente a dezoito centavos (peniques) por um peso; protecção para os trabalhos mais perigosos, a fim de evitar os inúmeros acidentes fatais; criação de escolas nocturnas para os trabalhadores, financiadas pelas empresas. Nas empresas portuárias, ferroviárias e manufactureiras, os trabalhadores de Iquique – um dos portos mais importantes na exploração do salitre-do-chile – exigiam que seus parcos salários fossem aumentados, a fim de compensar a diminuição do poder de compra acarretada pela desvalorização monetária. Quase todo mundo – tanto na pampa  [3] como em Iquique – estava de acordo em exigir a mudança para dezoito centavos.

Em 4 de Dezembro, mais de trezentos trabalhadores da estrada de ferro que transportava o salitre-do-chile entraram em greve em Iquique. Poucos dias depois, os trabalhadores portuários fizeram o mesmo e, então, os de inúmeras indústrias. Mas as concessões de alguns patrões e a falta de coordenação entre os grevistas enfraqueceram o movimento.

Em pouco tempo, a situação mudou radicalmente. Em 10 de Dezembro, foi a vez dos trabalhadores da oficina salitrera [4] de San Lorenzo iniciarem uma greve e, dois dias depois, diante da recusa da empresa em atender suas exigências, um punhado deles se dirigiu à oficina mais próxima, Santa Lúcia, a fim paralisar suas actividades. O exemplo foi imitado e assim, percorrendo o deserto mais árido do mundo, os trabalhadores ampliaram o movimento. Nos dias que se seguiram, cada vez mais oficinas viram suas actividades paralisadas. Os trabalhadores avaliavam que, para conseguir ter suas reivindicações atendidas, teriam de seguir até Iquique, onde se encontravam representantes de companhias inglesas, chilenas, alemãs, espanholas e italianas que obtinham enormes lucros graças à exploração da fabulosa riqueza do nitrato espoliada pelo Chile do Peru e da Bolívia, durante a Guerra do Pacífico (1879-1884).

Após ter marchado por toda a noite, o primeiro grupo, com cerca de 2 mil trabalhadores, entrou na cidade no domingo, 15 de Dezembro, ao alvorecer. O intendente  [5] provisório Julio Guzmán, substituindo o demissionário Carlos Eastman, conversou com os trabalhadores da pampa e os representantes dos patrões. Guzmán tentou convencer os trabalhadores a ir embora, deixando em Iquique uma delegação para participar das negociações. Como os trabalhadores se recusaram a deixar a cidade enquanto suas reivindicações não fossem satisfeitas, as autoridades viram-se obrigadas a alojá-los na escola Domingo Santa María.

Entrementes, milhares de trabalhadores da pampa – alguns levando mulheres e crianças – continuavam a afluir, de trem e a pé, para Iquique. Sua presença trouxe ânimo renovado à greve dos trabalhadores da cidade, que, em 16 de Dezembro, se uniram aos trabalhadores salitreiros, constituindo desse modo um Comité Central do Pampa e do Porto Unidos, órgão director de todas as greves. Nesse mesmo dia, o governo do presidente Pedro Montt deu uma ordem às autoridades locais para impedir a chegada de novos pampinos [6]. Grandes contingentes militares foram enviados a Iquique. Em um dos navios vindos de Valparaíso se encontrava o intendente Carlos Eastman, reintegrado a seu posto, e o general do exército Roberto Silva Renard [7].

Após ter desembarcado em Iquique – 19 de Dezembro –, Eastman se encontrou de um lado com os dirigentes grevistas e, de outro, com os dirigentes da Combinación Salitrera, uma associação patronal. Embora eles se dissessem dispostos a estudar as exigências dos trabalhadores, os patrões se recusavam a discutir sob pressão. Se o fizessem sob aquelas condições, declararam, “perderiam seu prestígio moral, o sentimento de respeito, que é a única força do patrão diante do trabalhador” [8]. O impasse se prolongou pelos dias 20 e 21 de Dezembro.

Ainda no dia 21, pouco antes das duas da tarde, diante do fracasso de todas as tentativas de mediação, Eastman comunicou por escrito ao general Silva Renard a ordem de mandar evacuar a escola Santa Maria, onde se achavam cerca de 5 mil grevistas, aos quais se somavam quase mais 2 mil outros, reunidos na praça Montt, em assembleia permanente diante do estabelecimento. O comité de greve se recusou a abandonar o local e se dirigir ao hipódromo. Silva Renard mandou trazer duas metralhadoras e postá-las diante da escola. Ao fim de meia hora de discussões infrutíferas entre autoridades e dirigentes operários, o general se retirou, anunciando que faria uso da força. Não mais que cerca de duzentos trabalhadores abandonaram o local sob os apupos dos companheiros.

Às quinze para as quatro começou o fogo das metralhadoras, seguido de descargas contínuas de fuzis. As balas atravessaram vários corpos e os frágeis muros da escola. Assim que os tiros cessaram, a infantaria invadiu o prédio, atirando nos trabalhadores. Os que fugiram foram perseguidos a cavalo pelos militares. Os detidos – de 6 mil a 7 mil – foram conduzidos às pressas para o hipódromo pelos soldados, que aí cometeram novos assassinatos.

No que diz respeito ao número de vítimas, o governo não admitiria mais que 126 mortos e 135 feridos, mas a imprensa operária e inúmeras testemunhas corrigiram essas estimativas para uma quantidade bem maior. As autoridades provinciais organizaram rapidamente a volta das pessoas do pampa para seus locais de trabalho e o governo central pôs barcos à disposição dos que quisessem se dirigir ao centro do país. Paralelamente, a censura da imprensa foi oficializada, ao mesmo tempo em que se iniciava a perseguição dos dirigentes trabalhistas – em especial anarquistas – que haviam conseguido escapar. Inúmeras prisões se seguiram.

A “grande greve” de Tarapacá foi violentamente reprimida pelo Estado sem que houvesse ocorrido a menor demonstração de violência por parte dos trabalhadores. Até o golpe de Estado de 1973, o massacre da escola Santa María entrará para a memória como a página mais negra do movimento operário chileno. Fonte: Sergio Grez Toso, Le Monde Diplomatique Brasil

Quarta-feira 12 de Março de 2008, posto em linha por Dial

A citação é cumprida, mas não há melhor narrador que o autor do texto.

Os inquilinos que iam procurar dinheiro as pampas, tiveram esta massacre, que Neruda poetizou e Nikos Kasansakitz harmonizou. O texto completo pode ser lido em: http://www.alterinfos.org/spip.php?article2075

Quem protestou sem parar, foi Arturo Alessandri Palma que, em gesto de desafio apresentou-se como candidato a Senador por Tarapacá e ganhou.

Foi assim como o tipógrafo revolucionário, Luis Emilio Recabarren, em vista destas atrocidades, organizou o Partido Socialista, para passar a ser o Partido Comunista do Chile, anos depois, formando sindicatos para defender os direitos do trabalhador.

 Foram atrocidades nunca pensadas como possíveis, apenas comparável a matança em Chicago, de grevistas, que se comemora a 1 de Maio de cada ano. Em 1886, realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos da América, reivindicando a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias. A manifestação contou com a participação de milhares de pessoas e deu início a uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou em escaramuça com a polícia levando à morte alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.

Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu, por proposta de Raymond Lavigne, convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia, resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama-o como dia internacional de reivindicação de condições laborais. Fonte: os Livros de Eleanor Marx sobre o materialismo histórico, a sua Biografia sobre o pai, Karl Presborck Marx, e o texto do seu cunhado Paul Lissagaray, La Commune de Paris, traduzido por Eleanor para inglês.

O Dia Mundial do Trabalho foi criado em 1889, por um Congresso Socialista realizado em Paris. A data foi escolhida em homenagem à greve geral, que aconteceu em 1º de Maio de 1886, em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época.

Milhares de trabalhadores foram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos e exigir a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Naquele dia, manifestações, passeatas, piquetes e discursos movimentaram a cidade. Mas a repressão ao movimento foi dura: houve prisões, feridos e até mesmo mortos nos confrontos entre os operários e a polícia.

Em memória dos mártires de Chicago, das reivindicações operárias que nesta cidade se desenvolveram em 1886 e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o mundo todo, o dia 1º de Maio foi instituído como o Dia Mundial do Trabalho. 

Em 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica a jornada de trabalho para 8 horas diárias e proclama o dia 1 de Maio, desse ano, feriado. Em 1920, a Rússia adopta o 1º de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países. Apesar de até hoje os Estado-unidense se negarem a reconhecer essa data como sendo o Dia do Trabalhador, não negam que, em 1890, a luta dos trabalhadores estado-unidenses conseguiu que o Congresso aprovasse a redução da jornada de trabalho de 16 para 8 horas diárias.

Escrito no dia em que a minha família faz greve. Os artistas usam a sua invenção, o povo a sua força sindical.

Convenção pactuada tarde demais para salvar essas cinco mil vidas do operariado chileno….Os heróis do Chile, o operariado, quer em trabalho, quer na guerra.

Comments

  1. Raul Iturra says:

    Dentro deste texto, aparee a imágem do mmumento feito em mármore, em que repusam os restos de um parente nosso, o Tenente Iganácio Serrano Carrera, assasinado, como o seu capitão Arturo Pratt Chacón, dentro das primeras batalhas marítias da Guerra do Pacífico. A chacina foi durante essa Guerra,entre Perú que atacou por causa de gahar as minas de Salitre ou Nitrato de Sódio. A guerra começou e 1879 ve acabou em 1885. A República do Perú perdeu a guerra y quatro províncias: Arica, Tarapacá, Tana e Lima, a Capital. Esta foi governada pelo nosso parente Patrício Lynch, autroproclamo Inca do Perú. Os corpos estiveram em sítios frios, e mal o mumento foi acabado a toda velociade, transportados os mortos em barco e enterrados no monumeto que pode-se ver na imágem do texto. Ignácio Serrano Carrera era tio directo da minha sogra, D. Amanda Castillo Serrano, falececida aos quase noveta aos de idade, nascida a 11 de Julho de 1901, vinte e seis anos após acabada a guerra.

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