Bem Vindos ao Cairo 005

O bairro onde vivo, é um grande pequeno lugar do Cairo, junto ao Nilo, chamado Maadi.
É onde estão algumas das embaixadas, a Escola Americana, a Escola Britânica e o
complexo de habitação e trabalhos especiais para americanos.
É onde mora grande parte dos estrangeiros.
É um bairro do início do seculo XX criado por uma empresa britânica dos caminhos de ferro,
feito de moradias ricas, para britânicos abastados e judeus ricos.
Depois da abolição da monarquia, em 1953 e da retirada das tropas britânicas em 1954,
o bairro transformou-se completamente, tendo sido nacionalizado em 1961.
Os amplos jardins, fora transformados em quarteirões de edificios altos.
Os canais de água desapareceram, o urbanismo manteve-se na sua maioria, mas nas novas zonas construidas,
a arquitectura adulterou-se bastante.
Eu moro num edifício de 12 pisos, num nono andar.
Saio de casa, desço o elevador e dou com uma
rua transversal à grande avenida que é a rua 105.
A Rua 105, é como uma Avenida Central em Braga,
mas muito mais caseira e sossegada e amarela.
Tem um grande jardim no meio, largo e cheio de árvores de grande porte.
Ainda estou a pensar se são mesmo árvores de grande porte,
ou arbustos que cresceram demasiado, o que é muito comum aqui.
Todos os arbustos crescem 4 vezes mais e mais rápido que em Portugal.
Percorrendo a rua 105, veem-se edificios todos diferentes; altos, baixos, gordos, assim-assim, moradias rasteiras.
Há crianças em todo o lado. A maior parte em bicicletas, completamente despreocupadas com o trânsito
ou com as temperaturas.
Jogam à bola dia e noite nos jardins centrais, e no final do dia,
os pais acompanham essas mesmas brincadeiras, sentando-se no beiral dos passeios.
Nunca ouvi tantos gritinhos de crianças felizes e inocentes como aqui.
Realmente não ha preocupações, tendo em conta que se está numa das cidades mais seguras do mundo.
Realmente, o trânsito é o menor dos problemas, quando se pretende jogar à bola no meio dos cruzamentos.
Realmente, esta gente leva uma vida desafogada e despreocupada que eu invejo.
Normalmente à noite, depois do jantar, vou dar uma volta a pé até ao fundo da rua e volto.
Só para esticar as pernas.
Para além dos jogos de bola, das bicicletas, dos carros, dos taxista, do pipipi absurdo e chato das buzinas,
dos carrinhos ambulantes de venda de fruta, das casas de shisha
(os cafes aqui da zona onde quase não ha mulheres e não se vende alcool),
dos autocarros de bairro que são as carrinhas Hiace, das mesquitas,
das mulheres com os bebes recém-nascidos ao colo, a darem duas de treta com as vizinhas…
Para além disto tudo, ainda há lojas para todos os gostos e feitios;
pastelarias que funcionam pela madrugada dentro,
hamburguerias de estilo americano, talhos de aspecto duvidoso,
prontos-a-vestir com roupinhas que não lembram ao Diabo e
langeries coloridas para as mulheres que na rua tapam cada centimetro de corpo com um manto,
e dezenas de farmácias, uma em cada esquina.
Esta é uma rua que nunca dorme. Num bairro que nunca dorme. Numa cidade que nunca dorme.
Cláudia Rocha Gonçalves

Comments


  1. Eu só conheço o Cairo dos livros do Cossery, que adoro…

  2. jorge fliscorno says:

    Mais uma bela crónica. Apesar de não conhecer, o Cairo que conheço pelas fotos e narrativas exerce sobre mim grande fascínio.

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