A família pedófila

família pedófile

Para os meus discentes do derradeiro ano da Licenciatura de Antropologia do ISCTE, antes de entrarmos no Modelo Bolonha de Universidade.

É-me quase impossível esquecer este ano de debates, quer em Etnopsicologia da Infância, quer em Antropologia Económica. Durante o ano que finda este mês, quatro discentes meus foram pais e mães. Não consigo esquecer os incasáveis conselhos que saíam da minha boca, via Freud, Klein, especialmente Bion: permitam às crianças entenderem o mundo, não durmam com elas ou, como diz Boris Cyrulnik, qualquer dia temos uma família pedófila?

A criança, acrescentei sempre, é muito curiosa, especialmente pelos cinco ou seis meses e pode, rapaz ou rapariga, agarrar os pêlos do pai, o pénis do pai, os peitos da mãe, com sentimentos emotivos. Ou emotivos libidinosos. A brincar, praticamente, ao seu próprio gozo, que não entende, mas sente e gosta. Especialmente partes do corpo que têm erecção. A criança gosta das brincadeiras sexuais, porque lhe dão prazer e alegria; junta-se o amor com o erotismo. Como diz Alfred Kinsey, o cientista norte-americano nas suas obras de 1968, as primeiras a estudarem o comportamento sexual humano como biólogo e não como terapeuta, segundo ele, os mais novos devem estar separados dos corpos dos mais velhos.

Não duvido que brincar na cama num Domingo de Inverno de manhã, a rir, a voar, é simpático e divertido. Mas, não será a cama dos pais o território sagrado no qual tanto gostam esses adultos de introduzir as crianças? Quer para se divertirem, quer para dormirem uma noite inteira.

Não consigo esquecer o meu debate com um jovem pai, que tem um filho de seis meses e que relatava no seminário, como o seu pequeno adorava atirar-se aos pêlos do seu corpo. Falámos se gostava ou não, e disse que adorava, não por erotismo, mas pelas cócegas que sentia. Bem como o medo que sentia que o seu pequeno pudesse ser um dia homossexual. Qual a resposta, então? Qual a lembrança do Id desse mais novo ao crescer e o seu corpo lembrar a alegria libidinosa que experimentavam os dois, um sem saber, o outro sem entender os empurrões que dava ao pequeno adorado e que o adorava? Não seremos esses pequenos vilões que nos fala o já citado novo Bion, Cyrulnik?

De sexualidade adulta pouco ou nada sabemos, de sexualidade infantil, ainda menos. Não haverá certo prazer no adulto ao brincar com o corpo do mais novo? Um colega de Kinsey tinha sido violado pelo pai aos 4 anos, violado pela mãe do pai aos 12, masturbado pela própria mãe desde a mudança das fraldas. O adulto esquece, na passagem do tempo, a necessidade de usar um código ético que oriente a interacção social emotiva e, eventualmente, reprodutiva. Se o filho escolhe a sua opção sexual na puberdade, qual a necessidade dos ancestrais opinarem? Será que ninguém viu o filme Filadélfia, ou leu os clássicos que falam calmamente de bissexualidade, de troca de emotividades e paixões ao longo da vida?

Será que nunca mais deixo a temática da pedofilia? Não consigo. A pedofilia, sem uma criança no seu berço, é organizada na família. O problema não é a violação do mais novo. O problema é a desorientação do adulto que nem sabe para onde se virar, eroticamente, como tal. A pedofilia nasce na família, bem como a natural homossexualidade e bem permitida manipulação de sentimentos entre consanguíneos, incesto e outros factos. Só que, ninguém fala destas temáticas, consideradas doenças e não factos emotivos  sociais para subsistir.

Onde ficaram as aulas de sexualidade e quais os seus conteúdos?

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