Um concurso armadilhado

O que aconteceu nesta fase do concurso de professores é muito simples: deliberadamente montou-se uma perfeita aldrabice para, entre a injustiça e a confusão, aparecer um Ramiro Marques a escrever:

Nuno Crato, em silêncio, deve tirar uma conclusão do episódio: pôr fim aos concursos nacionais, entregando aos agrupamentos de escolas a tarefa de recrutar professores para preenchimento de necessidades transitórias.

Após este comerciante (que não deve ter ganho pouco dinheiro com os seus blogues publicitários à custa da luta dos professores contra a avaliação de desempenho da socióloga Rodrigues, dedicando-se agora à defesa intransigente da privatização das escolas públicas, lá deve ter novos negócios em mira), outros virão. Para quem está fora do assunto: as denúncias do que se vai passando nas escolas onde as direcções, ou os municípios, têm autonomia na contratação de professores, para todos os efeitos funcionários públicos, colocam a coisa ao nível da Madeira: ele é parentes, conhecidos e outras amizades. Enfim, o expectável.

O que está em causa é muito simples: funcionários públicos contratam-se através de concursos transparentes, ordenando-os com critérios claros, ou funcionam exclusivamente pelo factor c(unha). Nestas coisas os neo-cons (ler em francês) ultrapassam em muito Salazar, que ainda obrigava os procedimentos a algum decoro. O resto é areia para os olhos.

Comments

  1. Bruno says:

    O concurso nacional é o mais justo e transparente para todos os envolvidos. Os antigos mini-concursos e as actuais ofertas de escola são promotoras de factores c e outras ilegalidades. Se têm dúvidas, basta ver os concursos municipais, onde é feito o dito para já entrar o fulano. Estive em vários por todo o país, num deles estive em 2º lugar na prova escrita, mas na entrevista colocaram abaixo de cão, porquê? O lugar já estava preenchido. Nos docentes, desculpem, mas não são meio dúzia de contratações num agrupamento que irão mudar o perfil dele, levar a obter melhores ou piores classificações. Se a escola tiver autonomia para ter o corpo docente pretendido, talvez aí se mude o seu perfil, mas as contratações num agrupamento que percentagem atingem? Será essa percentagem que irá fazer alterações? A resposta está à vista.


    • O objectivo é que todos os professores de uma escola seja contratados por ela, ou seja, pelo município. Isto é só a abertura das hostilidades. Basta ler o que os mais desbocados vão por aí escrevendo…

  2. Carlos Lopes - Famalicão says:

    Mas será que um sistema centralizado é o melhor sistema? Não acredito.
    A informação deve estar toda centralizada e disponível para consulta geral. Mas a decisão, dentro de regras conhecidas, deve ser tomada o mais próximo possível do lugar a preencher. E se assim fosse, nunca poderia ter acontecido um erro como o que aconteceu nas últimas colocações, tenha o erro acontecido nas escolas ou nos serviços do ministério.
    Nestas coisas, quando tudo está centralizado, os erros podem assumir grandes proporções, como se compreende.
    Eu também sou visceralmente contra as cunhas, mas não é com concursos nacionais que se acaba com essa forma injusta de proceder. As cunhas podem ser utilizadas em todo o lado, a começar na entrada para as escolas e a acabar na nota final do curso. Portanto, a cunha tem que ser combatida em todo o lado, à esquerda e à direita, no princípio e no fim. Sempre. Em sistemas descentralizados, ou não.
    Mas nunca se combatem com insultos…


    • Pois pois. Que a ordenação dos candidatos passa pela injustiça de as médias nas faculdades serem desproporcionadamente desiguais, é verdade, mas é um mal menor. Agora que o poder numa escola (e falamos de gente que em muitos locais já é nomeada pelo presidente da Câmara) escolha a seu belo prazer os respectivos professores ultrapassa a própria cunha, é o pior que o sistema político português pratica desde o séc. XIX (e antes era o mesmo, só que nesse tempo oficializado).
      Os concursos nacionais são cegos? são, por isso são justos. Ou acha legítimo que um emprego pago por todos nós seja atribuído pelo cartão partidário ou pela árvore genealógica?
      Não se insulte a inteligência, que ela não gosta.

      • Carlos Lopes - Famalicão says:

        Amigo, acredite que sou contra todas as benesses injustas, tanto as atribuídas pelo cartão partidário, como pela árvore genealógica, como por dinheiro, como qualquer outra forma. Mas, nesta coisa dos professores, seja nas colocações, seja nas promoções, o que mais me chateia são as notas de curso compradas, os mestrados comprados, os doutoramentos em pintelhos, como diria o Catroga. Esse é o cancro que deveria ser erradicado em primeiro lugar, mas pouca gente fala disso. A malta gosta é de falar de milhares e milhares de professores sem colocação, quando na realidade, grande parte são apenas e simplesmente candidatos a professores.
        Depois, também acho que é mais fácil controlar as cunhas, e outros atropelos, “localmente”, com o envolvimento da sociedade civil nas escolas.
        Em conclusão, penso que devemos lutar por transparência e justiça, antes de defender este ou aquele sistema. E o sistema em vigor é mau, como este ano mais uma vez se provou.
        Por que será que detectado o tal erro, só 15 dias depois é que se fala em corrigi-lo? Eu sei a razão. Porque os sábios de Lisboa são difíceis de contactar e não falam com as pessoas olhos nos olhos. Eles só sabem falar por escrito, em circulares, ordens de serviço, pareceres, despachos etc., etc. Por regra, não passam de uns burocratas, muitos deles incompetentes.


        • Meu caro: sou licenciado pela FLUC, onde uma média de 14 valia no meu tempo uma de 16 em Lisboa ou no Porto, ou 18 / 19 por exemplo nos Açores. E nem havia privadas.
          Queixo-me? já desisti dessa guerra, há batalhas perdidas para a vida.

          Quanto ao erro, é claro que só se detecta quando saem os resultados. Quanto às cunhas, mesmo que os prejudicados reclamem, nunca serão recompensados pelo prejuízo. É assim em Portugal, uns estão sempre bem e outros sempre mal.

          • Carlos Lopes - Famalicão says:

            Desculpe insistir, mas o erro já foi detectado há muito, como me informou um Director de Escola que não conseguia fixar o prazo correcto no contrato (ou no concurso, não sei bem), uma vez que o sistema informático assumia, automaticamente, o prazo de um mês, e ele pretendia contratar para todo o ano lectivo.
            E assim sendo, e assim foi, se o concurso fosse local, o erro seria corrigido prontamente, penso eu. Mas, no sistema actual, o tal director decidiu reclamar para o ministro, com cópias para dois ou três departamentos do ministério. E o resultado está à vista.
            Concluindo, não deixe de lutar.

  3. Bruno says:

    Localmente…. Ainda hoje estou à espera que uma escola de Vila Franca de Xira me informe porque não entrei, quando cumpria os 3 critérios de admissão e quem entrou só cumpria um. Localmente os concursos são sujos e impregnados de falta de ética, pois estão feito localmente. Falo por experiência própria numa autarquia que trabalhei, pois num dia, por falar a verdade estava fora do concurso e depois estava admitido mas ultrapassado por gente recém licenciada e alguns com médias inferiores à minha e sem tempo de serviço. Há concursos que devem estar centralmente localizados, pois sabemos bem que a sociedade civil também não se envolve em todas as escolas e a questão da participação da sociedade na gestão de escolas é discutível, em termos de operacionalização (embora eu tenha a minha opinião relativamente a isso).

  4. lidia sousa says:

    Para alguma coisa lhe serviu a sua estadia na TAGUS PARK, onde foi nomeado Administrador pelo seu grande Amigo Isaltino Morais. A pretexto da tal asfixia democrática, correram com o Tomatti para dar o lugar ao excelso matemático que nada mais sabia fazer do que criticar. Agora posto perante a realidade, utiliza os métodos que aprendeu como gestor, embora pessoas que lá trabalha digam que é um zero à esquerda, e perante is factos, se repararem ele representa a fábula do ” lobo transvestido de cordeiro” Até os olhos lacrimejam. Et la nave va!!!