A pós-verdade do grande negociador?

Santana Castilho*

Se o problema fosse escolher um par, preferia Costa e Tiago a Passos e Crato. Se a questão se resumisse ao mal menor, este Governo ganhava. Mas se sairmos do preto e branco e nos libertarmos do quadro maniqueísta que por aí tem dificultado o reconhecimento do óbvio, porque o Governo é de esquerda, a conclusão é evidente: o importante não se fez e no mais são os erros que dão o tom.

Sobre esse problema primeiro e maior que é a indisciplina na Escola (de que todos evitam falar para não se exporem ao julgamento sumário das redes sociais e ao risco da má imagem mediática), sobre os alunos que chegam à Escola sem a educação mínima que os pais não puderam ou não souberam dar-lhes, a resposta foi a demagogia dos tutores, que já existiam, mas que agora atendem dez com os meios que antes tinham para quatro.

Sobre a monstruosidade dos mega-agrupamentos e a falácia da autonomia das escolas, tudo como dantes enquanto avança, de modo sub-reptício e com coniventes silêncios, a municipalização da educação, que há pouco se combatia porque vinha da direita e agora se deixa passar, porque sopra da esquerda. [Read more…]

O potencial destruidor de Nuno Crato

Santana Castilho *

1. A comunicação social referiu-se abundantemente a um documento produzido pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) sobre o problema das reprovações (“retenções” na novilíngua vigente). O tratamento jornalístico glosou os aspectos mais susceptíveis de chamar a atenção do grande público, tirando conclusões que não estão no documento ou dando uma interpretação descontextualizada a recomendações feitas. É o caso do custo das reprovações. Alguém multiplicou o número de “retidos” anualmente (150.000) por 4.000 euros (custo médio atribuído por aluno) para concluir que as ditas reprovações significam a perda de 600 milhões de euros. Ora é bom de ver que o custo de funcionamento das turmas pelas quais estão dispersos os alunos que reprovam não se altera por eles reprovarem no final do ano, num sistema de ensino com obrigatoriedade de permanência até aos 18 anos. É de outra natureza o prejuízo e as contas não se fazem assim. Mas a imprecisão foi amplamente propalada. E é o caso de se ter passado implicitamente a mensagem de o CNE sugerir transições administrativas, coisa que o documento não defende. Tudo, talvez, porque a narrativa da análise do CNE é descuidada, a linguagem pouco clara e as ideias se contradizem por vezes. [Read more…]

Cratinices

Isabel deixou os seus alunos para ser colocada numa escola em que não tinha aulas para dar

Quantas pessoas são “pouquíssimas centenas”?

papagaio010803Ser político é uma das várias maneiras de os seres humanos poderem integrar a simpática classe dos Psitacídeos. Entre um deputado e um papagaio, as diferenças não serão, portanto, muitas, porque, no fundo, um bom fato é outro tipo de plumagem, um assento na Assembleia é um poleiro e basta repetir palavras pensadas por outros. Para além disso, todos sabemos que não há piratas sem papagaio em cima do ombro.

Carlos Abreu Amorim (CAA), por várias razões, tem-se feito notar, desde que integrou a bancada do PSD, nomeadamente quando perdeu as eleições para a Câmara de Vila Nova de Gaia. Tendo escolhido a função de papagaio, é natural que tenha perdido, também, qualquer sentido de decência. Por isso, comentando os recentes e contínuos problemas na colocação de professores, declarou, num debate com Marcos Perestrello: “Temos problemas com pouquíssimas centenas de professores.”

Em primeiro lugar, não sei a quem corresponde a primeira pessoa do plural. Será o governo? Será o partido? Será o país?

Mesmo admitindo qualquer uma das hipóteses, a frase pode levar-nos a pensar que os professores são um problema. No entanto, são as “pouquíssimas centenas” de professores, entre outras pessoas, que têm problemas. [Read more…]

Despedir professores é preciso, ensinar não é preciso

Os concursos dos professores para o próximo ano lectivo servirão para dar continuidade ao processo de desmantelamento das escolas, actividade que implica a continuação de despedimento de professores.

O Ministério continua a dizer que foram as escolas a indicar de quantos professores necessitarão, procurando passar a ideia de que se limita a receber informação, decidindo em conformidade. A verdade é que as informações dadas pelas escolas dependem de instruções vindas do Ministério, para além de resultarem de outras decisões da tutela.

Nuno Crato tem mentido descaradamente, quando refere como causas para o desemprego docente a baixa de natalidade, como se isso, só por si, pudesse justificar o despedimento maciço de professores ocorrido nos últimos anos. A verdade é que o número de alunos não diminuiu a ponto de justificar o que tem acontecido. O problema está no aumento do número de alunos por turma ou na redução brutal do currículo, entre outras medidas anti-pedagógicas.

Como se isso não bastasse, ficamos a saber que as necessidades comunicadas pelas escolas escolas terão sido ignoradas ou alteradas, o que vai de encontro a muitas informações que se vão sabendo, como a que nos dá o João Paulo.

O futuro das escolas públicas, segundo Nuno Crato, inclui o afastamento de professores mais experientes e o aumento do número de horas lectivas para cada professor, de maneira a que tudo fique muito baratinho ao Estado ou aos privados que estão à espreita para alargar o negócio à custa da exploração de professores em regime de precariedade.

Entretanto, sabe quem é o verdadeiro mexilhão? O seu filho, o seu neto, o seu sobrinho ou o filho do seu amigo.

Quem estiver verdadeiramente preocupado com os problemas educativos do país, deverá estar ao lado dos professores, que não se deverão limitar a lutar pelos seus problemas laborais. Quem estiver preocupado em achincalhar ou em invejar os professores, não está preocupado com o mexilhão.

O tirano

Santana Castilho *

Para quem se tenha esquecido, recordo que o concurso nacional de professores já foi um processo administrativo estabilizado e que não provocava conflitos. Políticas incompetentes e recentes inovações sem sentido, de vários donos, encarregaram-se, porém, de recuperar desastres de tempos idos. Mas a taça leva-a Nuno Crato, o tirano. Tanta ignorância, técnica e política, tamanha crueldade moral exercida sobre os docentes, surpreendem os mais treinados. Ontem, terminou o prazo para os novos escravos concorrerem. Terão sido mais de 40 mil, que aguentaram horas e horas de atalaia a uma aplicação informática que lhes fazia continuadamente o que os professores, desunidos, já deviam ter feito ao tirano: um continuado manguito. [Read more…]

A paz dos anestesiados

 Santana Castilho *

À paz dos cemitérios que reina na Educação serve bem a paz dos anestesiados que domina os professores. Dois acontecimentos permitem glosar o tema e extrapolá-lo para a situação do país. Refiro-me à alteração do normativo que regula o concurso dos professores e à situação da Parque Escolar. Comecemos pelo primeiro caso. Nuno Crato exultou com o acordo a que chegou com seis sindicatos. Os sindicalistas orgulharam-se com as alterações que conseguiram entre a primeira proposta do ministério e o texto final. De comum têm serem parceiros de uma comédia de disfarces e de um jogo de ilusões. Ouvi-los reconduz-nos às longas noites eleitorais, em que todos ganham. Crato não resolveu um único problema dos que se arrastam há décadas. Dirigentes de sindicatos, onde há mais chefes que índios, esqueceram-se que o exercício não era comparar a primeira proposta do ministério com o texto final. Era comparar a lei vigente com a que vai ser aprovada. Se o tivessem feito, não assinariam. Pela simples razão que, salvo um ou outro detalhe menor, os professores perdem em todos os pontos do acordo. Particularizo com os dois exemplos mais relevantes, que uma análise total não cabe no espaço exíguo desta crónica: [Read more…]

Está tudo bem? Então, mude-se!

O Ministério da Educação deu ordens à Inspecção-Geral da Educação, organismo do dito Ministério, para que abrisse um inquérito em que o primeiro era, de certo modo, parte interessada. O inquérito referia-se às queixas feitas a propósito de eventuais irregularidades no âmbito do concurso de colocação de professores. Com a necessária independência do inquérito ferida à partida, a verdade é que se concluiu que “não se verificaram indícios de irregularidades ou ilegalidades que justifiquem qualquer tipo de procedimento, designadamente de natureza disciplinar”, reconhecendo-se, embora, alguns problemas pontuais que afectaram a vida profissional e, portanto, pessoal de cerca de uma dezena de professores.

No seguimento desse inquérito que descobriu uma tão formosa imagem do concurso de colocação de professores, a mesma Inspecção-Geral propôs que as regras do concurso fossem alteradas, o que se deve, evidentemente, ao facto de ter tudo corrido tão bem.

O grau zero da decência e a excelência do cinismo

Santana Castilho *

Os argumentos que sustentam a revogação dos prémios de mérito dos alunos ilustram a excelência do cinismo. Comecemos pela incoerência. Nuno Crato foi um arauto da meritocracia, da superioridade dos resultados, da competição e do reconhecimento dos melhores. É verdade que nunca se ocupou a reflectir sobre o que é ser melhor em Educação, nem perdeu tempo a clarificar “as poucas ideias” (a expressão é dele próprio) que tem sobre ela. Mas apontou o “eduquês”, sempre, como a antítese daqueles paradigmas doutrinários. Ora os prémios que estoiraram eram o melhor símbolo da meritocracia e da oposição ao “eduquês”. Nuno Crato implodiu, portanto, a sua coerência. Vejamos agora a forma e a legalidade dúbia. [Read more…]

Um concurso armadilhado

O que aconteceu nesta fase do concurso de professores é muito simples: deliberadamente montou-se uma perfeita aldrabice para, entre a injustiça e a confusão, aparecer um Ramiro Marques a escrever:

Nuno Crato, em silêncio, deve tirar uma conclusão do episódio: pôr fim aos concursos nacionais, entregando aos agrupamentos de escolas a tarefa de recrutar professores para preenchimento de necessidades transitórias.

Após este comerciante (que não deve ter ganho pouco dinheiro com os seus blogues publicitários à custa da luta dos professores contra a avaliação de desempenho da socióloga Rodrigues, dedicando-se agora à defesa intransigente da privatização das escolas públicas, lá deve ter novos negócios em mira), outros virão. Para quem está fora do assunto: as denúncias do que se vai passando nas escolas onde as direcções, ou os municípios, têm autonomia na contratação de professores, para todos os efeitos funcionários públicos, colocam a coisa ao nível da Madeira: ele é parentes, conhecidos e outras amizades. Enfim, o expectável.

O que está em causa é muito simples: funcionários públicos contratam-se através de concursos transparentes, ordenando-os com critérios claros, ou funcionam exclusivamente pelo factor c(unha). Nestas coisas os neo-cons (ler em francês) ultrapassam em muito Salazar, que ainda obrigava os procedimentos a algum decoro. O resto é areia para os olhos.

Concurso de Professores prolongado


Só pode!
A menos de um dia de terminar o prazo e o sistema está indisponível durante horas.
E a pobre contratada que esteve durante quatro horas a preencher o boletim e, no fim, nada ficou gravado. Haja vergonha!

Concursos de professores – a trapalhada do costume

Acaba na quinta-feira, pelas 18 horas (por que será que tem de terminar às 18 horas se todo o processo decorre via net?), o prazo do concurso de professores para o ano lectivo de 2010/2011.
Apesar de concorrerem apenas professores contratados e professores em destacamento por diversos motivos, as trapalhadas já são inúmeras. O «call-center» de apoio ao candidato está indisponível desde ontem – por isso ninguém pode esclarecer as suas dúvidas; e o site da DGRHE (Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação) está assustadoramente lento e revela falhas constantes. Ontem, uma candidata esteve duas horas a manifestar as suas preferências e, quando quis gravar, o impresso virtual foi ao ar e desapareceu tudo. Neste momento, já são muitos aqueles que não conseguem aceder ao site.
Não colhe, como é óbvio, a justificação de que está tudo a concorrer ao mesmo tempo. Ainda faltam dois dias e meio para o prazo terminar. E com uma única semana de prazo, é óbvio que tem de haver uma grande concentração seja em que dia for.

Governo acaba com concursos de professores, uma nova guerra começa

Com uma enorme deslealdade para com os sindicatos que assinaram um acordo com o Ministério da Educação, o governo prepara-se para aprovar um novo estatuto da carreira docente (que o Aventar publicou) que termina com os concursos, obrigando os professores a ficarem colocados na escola onde se encontram.

É de doidos varridos, tanto mais que acontece numa altura em que muitos professores não puderam concorrer, tendo sido ultrapassados por outros mais novos.

É uma forma directa de convidar os professores a um regresso à rua. Não se entende, a menos que se trate de uma imposição de Teixeira dos Santos, que deve confundir escolas com repartições de finanças.

Vai perceber a diferença em muito pouco tempo.