as minhas memórias – saber ensinar revisitado

a arte de ensinar

Lembro-me bem o primeiro dia que proferi uma aula na universidade. Devo confessar que, bem oculto trás uma aparente calma, eu tremia de ansiedade. Tinha eu dezassete anos, acabava de cursar com proveito, o primeiro ano de Direito e Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso.

Era hábito, quase costume de lar, ser permitido ensinar o que apenas um ano antes, tinha aprendido. A verdade era ser permitido transferir o que sabia, aos mais novos, com apenas um ano de diferença. Verdade era também ser um leitor apaixonado. Não havia livro em frente de mim que eu no agarra-se e lê-se do princípio ao fim, se lembrar-me de comer nem e sentir necessidade de ir a casa de banhos. A letra impressa era uma atracção fatal e vivia dentro de folhas de branco e preto, sem me esquecer nenhuma palavra que tivesse passado pelos meus olhos. Esse hábito tinha começado aos cinco anos, com as colecções de textos adquiridas para mim, desde Daniel Dafoe, criando e o seu Robinson Crusoe e o seu Sesta Feira que o acompanhava, domesticando-se um pelo outro. A transferência de saberes era necessária para a subsistência dos dois, abandonados numa ilha deserta por causa de naufrágio o primeiro, por abandonar a tribo o segundo. Robinson Crusoe é um romance escrito por Daniel Defoe e publicado originalmente em 1719 no Reino Unido. Epistolar, confessional e didáctico em seu tom, a obra é a autobiografia fictícia do personagem – título, um náufrago que passou 28 anos em uma remota ilha tropical próxima a Trinidad, encontrando canibais, cativos e revoltosos antes de ser resgatado. Causara em mim tão viva impressão, que a leitura passou a ser o hobby da minha vida. Tinha outros como andar a cavalo e os assuntos que tenho contado em outras partes das minha memórias, como correr e bicicleta, caçar e conversar.

Mas, estar em pé perante uma turma de estudantes, esses que entram em silêncio e saem calados, era outro mundo. Especialmente por ser um docente sem barba ainda – a revolução de Castro não tinha acontecido, barba que deixei crescer em honra a liberdade e que até o dia, recentemente jubilado, essa porta grande pela que entrei, passou a ser o canil por onde saí, sem uma despedida nem nenhuma recompensa monetária porque é assim estimado pelos chefes. A minha barba ruiva e loura, e branca hoje em dia, que lavo com as mãos para não gastar agua que não consigo pagar. Mas, essa é outra história, narrada em outros ensaios sobre a minha memória.

O tremor de pernas do novo docente, assistente como é evidente, acabou num pestanejar mal comecei a ensinar a Constituição do Estado. Ensimesmado no meu saber, o grupo de discentes desapareceu de minha vista, passando a minha actividade a ser o que nunca tinha experimentado: explicar, com palavras simples, o que a lei soberana mandava. Andava e andava, conforme o meu hábito de 50 anos de ensino, sem permitir nenhuma palavra que for a interromper a minha o meu discurso, que escrevia antes e lia para mim, com metáforas que facilitassem a compreensão do texto, especialmente, como narrado antes, entravam a lógica, o Direito Romano, o meu tipo de socialismo no meio de mounerianos que formaram a falange nacional, mudando o nome para Democracia Cristã, a seguir.

Aprendi um facto; saber ensinar, é confiar no nosso saber. Na nossa capacidade de argumentar e transferir apenas uma ideia, uma hipótese que íamos explicando as voltas, com muitas metáforas para aprofundar essa hipótese. Metáforas comuns ou retiradas da prática da advocacia. Melhor ainda, levar aos estudantes ao sítio onde acontecem e se debatem, pelos juízes e a sua jurisprudência, para uma aula especial. Durante cinquenta anos, levei estudantes de várias universidades que o destino me reservou, a proferir aulas etnográficas.

Saber en ensinar, é a humildade com que falamos e a reiteração de apenas uma ideia: a que serve de título a aula.

Saber ensinar, é complexo, mas o nosso amor as letras e ao ensino, faz de nós seres que não ripostam a desafios intuíeis, sabe calar ou responder com serenidade e palavras simples, as falácias que nos joga a vida.

Paro. A fonte do texto é a minha memória e os quase mil cadernos que guardo com notas do decorrer da vida.

Ganhei o Diploma do Colégio de Advogados do Chile, como o melhor docente das materias de Direito e Ciências sócias. Onde anda? Não sei; a vida é crua e rápida e passa num pestanejar…..