…e rasgaram as minhas vestes…

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…para a camaradagem do Aventar….pensemos…

1. A memória social.

A memória não é apenas de cada indivíduo. Essa é a lembrança que o ser humano tem, ou os pensamentos que acarinha, ou, como já disse John Locke em 1695, a consciência que é formada em cada um de nós com a experiência. O saber pelo qual agimos acaba por estar no meio de todos os seres humanos que partilham a experiência quotidiana da vida.

Há os que lembram a história local, há os que sabem os nomes das famílias, há os que lembram as datas de nascimento, há quem saiba as intimidades. Há, em fim, os que orientam a sua vida pela memória que por eles não foi escrita, mas que é usada para orientar o comportamento. Ou para o interpretar. Há os que, por saber interpretar, acabam por ser os sábios do grupo social com o qual interage. Não há grupo social sem interação, sem convívio com outros seres humanos. E esse convívio é pautado. Não é fácil. Não é acessível. Tem obrigações, distâncias, tabus, interdições. E permissividades. E preferências. Mas, principalmente, obrigações hierárquicas entre gerações, ou ainda entre pares. Conforme o comportamento, ideia, saber de que tratem as pessoas. Há a empatia simpática, há a empatia antipática. Há o medo e o respeito. E há o atrevimento de quem quer falar porque sente que deve dizer o que lhe parece bem ou mal. O nosso mundo ocidental está dividido entre esse bem e esse mal. Já o disseram os Evangelhos, já foi organizado pela lei canónica, já foi sistematizado, a partir da lei canónica, pelo direito civil. E já, para regulamentar as relações entre as pessoas, esse direito civil apenas diz respeito as relações económicas, ou reprodutivas, como eu gosto denominar nos meus textos. A memória social, como costumo dizer é estudada por Alexandre Silva dentro da nossa equipa, é uma construção feita pela necessidade da calma, serena, lucrativa interação. Hierarquizada interação.

2. A interação parental.

Deve, talvez, lembrar o leitor, dos diálogos que tenho sistematizado entre filhos e pais, à maneira de cartas. Tentam refletir a panóplia de emotividade, ideias, questões, que nas diversas idades, são colocadas entre ascendentes e descendentes. Conjunto que não é nada fácil pensar, mesmo para um escritor que se quer afastar do que é pessoal. Mas, e no entanto, toda memória social está centrada na reprodução, esse conceito que Jack Goody andou a definir em 1973, que Pierre Bourdieu em 1968, centrou no processo educativo formal. Reprodução que, para mim em 1991, quis me parecer como uma maneira de explorar dentro das ideias orientadoras para fazer crianças, nutri-las, crescê-las, cuidá-las, abandoná-las. A interação parental parece começar quando nasce uma criança e acabar quando a criança aparece livre, com o seu dinheiro ganho e pronto para se reproduzir também. Como esse Miguel de Vila Ruiva em Portugal, que vi num dos dias do meu trabalho de campo, entrar no café e passar sem dar por isso, ao pé de Manuel Filipe, o seu pai; enquanto a sua namorada do mesmo sítio, ficava em casa por conselho da mãe. Como esse Helder que do secundário foge para o trabalho em madeira e se faz marceneiro, compra o seu carro e vai a casa para ser alimentado, tomar banho, contar à mãe como é que foi o trabalho. Ou ainda esse Joel que deve decidir o que estudar para futuro como profissão: e a mãe opina uma, e ele procura outra. Ou esse jovem, distante dos pais, hoje ao pé deles, para se ajudar domesticamente, enquanto ele e a mulher trabalham. Todos conhecidos por mim desde os seus cinco anos, nada dizem aos pais das suas intimidades. A hierarquia passa das mãos dos adultos, à dos parceiros. Por um tempo. Porque, enquanto desenvolvem as suas atividades, precisam do conselho da experiência, do apoio parental. De usar a hierarquia que a acumulação do saber, dá. Porém, perto e longe. Porém, privado e público. Porém, hierarquia entre pares para trabalhar a vida conforme essa economia que já foi referida, mas hierarquia entre pais e filhos para sugar da experiência e do respeito mútuo pelas atividades diferentes, a ideia que dá a experiência da memória social. Duas hierarquias entrelaçadas, com conteúdos redefinidos na interação. O denominado respeitinho, é o que se aprende. Quando os descendentes crescem. Como tentei dizer nas cartas retiradas dos diários de campo e da minha observação participante. Textos incrementados pela continuidade do observar ao longo dos anos, me diz que, enquanto passam de criança a adulto autónomo, há ainda mais a dizer, pedir, ouvir, calar, observar, esperar da parte do mais novo. E mais a dar, a oferecer, a distanciar, a deixar em liberdade e a procurar uma nova autonomia, por parte do ascendente. Eis o porquê do título deste ensaio. Retirado da memória social escrita, incutida em aulas, rituais, e em histórias míticas. Que o adulto se encarrega de lembrar, para se retirar de opções que pensa, correspondem só ao descendente. Porém, o Miguel entra sem ver o pai no café. Porém, o pai do Miguel nem sabe como é que anda o namoro desse filho. Ou diz não saber. Porém, o meu título mítico, como hipótese a ser trabalhada pelos adultos com saber acumulado.

3. As vestes, esse símbolo.

Que nós aprendemos de ouvir e ler e conhecer como decorre a nossa existência. Como frase, é retirada dos escritos que nós denominamos sagrados. E, evidente, está transformada: devia ser as suas vestes. No entanto, vestes é o património que tem uma pessoa pobre. É o saber que tem uma pessoa sábia. É o que é referido como um ultraje à pessoa, porque se está a tocar no mais pessoal, no mais íntimo do ser. É o que fazem os nossos descendentes. Enquanto crescem e materializam a sua vida e formam o seu trabalho e casal e património, querem que nós, os denominados velhos, estejamos ausentes. E começa a luta do próprio adulto para aprender a ficar só e a guardar o carinho pela sua descendência, à distância. Ou o ascendente tem companhia, ou fica para sempre só. O ascendente precisa aprender a ganhar a sua própria distância do descendente, para não interferir onde não é solicitado. Eu próprio lembro-me de ter solicitado aos meus pais para aparecer em casa, por convite. Ofensa que foi muito mal aceite. Foi preciso acabar quando entraram na idade de serem cuidados. Porque as crianças passam a adultos, enquanto os adultos passam a velhos. A toda idade. Em qualquer momento da cronologia das vidas. Donde, a interação social é mudável: de orientadores, passamos a ser orientados. Até ficarmos, como diz a memória social, almas. As vestes são essa parte do património afetivo que é entregue aos mais novos, à distância. Porque o nosso saber adulto, tem a tendência para corrigir a relação entre o casal, o cuidado dos mais novos ainda, desses netos assim denominados entre nós. E ter o bolso sempre aberto, os ouvidos sempre disponíveis, o futuro já definido, para não ter que entrar a perturbar o casal crescido, como as nossas dores e angústias. As vestes têm depressão, as vestes têm tristezas. As vestes têm alegria. As vestes têm medo. As vestes têm património. Património em saber e em meios, talvez. Mas, há horários. Há os dias para estar juntos, há as horas para não telefonar, há os ciclos dos descendentes que precisam da solidão a distância dos progenitores. Talvez, dum deles, o masculino, mal treinado no dar afetividade. Enquanto o feminino está sempre disponível a dar, porque sabe de assuntos práticos. O masculino, sabe da vida pública, o feminino, da pública e da privada. As vestes são úteis para criar crianças, inúteis para acompanhar adolescentes com o devido respeito pelas suas opções e autonomia. Especialmente nesta época neoliberal, em que há maneiras definidas que nada têm a ver com as da solidariedade intrafamiliar da nossa infância. Aprender a guardar as distâncias sem abandonar a disponibilidade para apoiar, é o que passa a seguir que todo adulto que envelhece, precisa aprender. É evidente que há imensas famílias que apoiam, mas uma outra grande quantidade, só quer herdar o que o seu adulto exibe e tem. O adulto é corrido, puxado fora da relação interativa do novo adulto, especialmente quando está a formar o seu lar. No fim, não há uma cruz, mas uma dinâmica forte para poder refazer a vida que se tinha começado a dois, passa a três, quatro ou cinco, logo o dobro, e talvez, a denominada mono parental. Donde, um dos ascendentes é criticado e abandonado, enquanto o outro é reverenciado e muito ouvido. Eis as vestes minhas que são repartidas, não as vestes do mito.

4. As Partitas.

As de Bach. Que me têm acompanhado a meditar estes factos. Que me têm feito lembrar sem dor, mas com uma certa tristeza, como tudo ao pé de nós passa a ser adulto que sabe e espera não receber outra ideia que o silêncio e a distância. Na minha experiência pessoal, sinto que Lizt e Carlos V da Espanha e Alemanha, fizeram bem. Realizaram antes, outras tarefas, para passar ao silêncio dos Mosteiros com objetivos, esse silêncio que acaba por existir quando nos crescem os pequenos. Quando entregamos aos pequenos tudo o que sabíamos dar, tendo eles agora têm que treinar. Se um adulto interfere na vida privada do seu descendente, está a condená-lo a não ser um ser que saiba optar. Parecemos intrusos, aí onde queremos ser educadores. A educação passa pelo respeito a que essas simbólicas vestes sejam repartidas. E a guardar silêncio para o afazer dos mais novos. Bach, nas suas Partitas, ensina como a harmonia é possível, mesmo cego, distante, com os filhos convertidos em rivais do mesmo ofício. A nossa memória social tem criado o anátema de não honrar pai e mãe, porque acontece. Se não acontecer, não era necessário dizer honrar. As vestes vão como as Partitas, em movimentos barrocos de reiteração e mudança de tempo e dança. Custa aceitar que somos socialmente importantes, e individualmente nus. Apesar de sabermos e sentirmos o carinho que há entre esses que aprendem de nós, o que é ser pai. Eis a síntese das cartas escritas, onde exponho metaforicamente, a relação individual, filial. Saibam os meus contemporâneos, que um dia já mais ninguém bate à nossa porta, porque tudo foi entregue. Transferido, esse saber quer brilhar per se e não em relação a quem nos fez. Partitas de Bach, Veste do Mito, Paciência para recomeçar a ser corpos, razão que fica de parte. Até se lembrarem de nós. Aí, onde nós sempre nos estamos a lembrar deles. Porque, como tenho batido na tecla tanto, crescemos juntos. Para, juntos entendam o que é ter vida autónoma, para amar e jamais recriminar. As vetes foram apropriadas com o silêncio de quem sabia que tinha que acontecer. Porque estava escrito. Na experiência, na memória social. Que nos diz que devemos saber estar connosco. Eles, quando preciso, virão. À Bach.

Raúl Iturra

ISCTE-IUL-CAMBRIDGE- COLLÉGE DE FRANÇE

lautaro@netcabo.pt

31 de Agosto de 2011

Bibliografia :

•Bourdieu, Pierre, 1968: La Reproduction, Paris, Plon

•Bach, Johann Sebastian, 1708-1723: Partitas, varias versões

•Goody, Jack, 1973: Production and Social Reproduction, Grã-Bretanha, Cambridge University Press.

•Evangelhos, varias versões.

•Iturra, Raul, (1991) 2002 2ª versão, Fim de Século: A Religião como teoria da reprodução social, Escher, Lisboa, 1ª versão, Fim de Século 2ª versão, Lisboa.

•Locke, John, (1694) 1984: Ensayo sobre el entendimiento humano, Alianza Editorial, Madrid.

•Silva, Alexandre, 1999: A construção da memória social, policopiado, ISCTE

 

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