Sodadi bô Cize!

Quem era Cesária Évora? Quem vai ao Google ou ao wikipedia ganha logo uma colectânea de informações básicas sobre a  “Diva dos pés descalços” em textinhos com ar de retalho…mas fica definitivamente sem saber quem é Cesária Évora.

Para se saber quem é Cesária Évora teremos de ter ouvido pelo menos uma vez na vida a Morna Mar Azul e sentir aquele arrepio triste na espinha, para se saber quem é Cesária Évora tem-se de ter tido pelo menos uma vez na vida a vontade de abrir um mapa ou o Google e pesquisar duas palavras: “Cabo Verde”. Para se saber quem é Cesária Évora é obrigatório ter-se andado, pelo menos mentalmente, pelas ruas da cidade do Mindelo e sentir-se em casa. Para se conhecer Cesária Évora é fundamental entender a filosofia atrás da palavra simplicidade, a matemática da expressão ALMA, a secreta química cerebral que qualquer cabo-verdiano sente ao cantar/escutar a morna Sodade. Para se gostar de Cesária não é preciso nem se ser cabo-verdiano nem entender crioulo. Cesária resume a palavra tempo e estende até ao limite do infinito a dimensão irónica de dez pequenas ilhas no atlântico. Hoje muitos pedem que o seu nome seja dado ao aeroporto internacional da ilha de S. Vicente. Para mim isso seria o serviço mínimo, pois o nome: “Cabo Verde”, já há muito tempo foi traduzido para: “Cesária Évora”. Há quem nunca tenha vindo a Cabo Verde, mas já esteve na terra da Cesária Évora. O que farão as memórias por nós, o que significam os teus pés descalços? Se calhar que os nossos reinos são imaginários e somos todos meros reizinhos patéticos andando nus pela Disneylândia. Ou nada. Podem não significar absolutamente nada…se calhar apenas que sabias sentir a terra por debaixo dos teus pés.

Cada um sente a dor que mais lhe dói e este país a que eu pertenço, esta geração que não conhece Cabo Verde sem Cesária Évora, hoje sente a dor que mais lhe dói. Seu legado serve-nos ao menos para desmascarar uma mentira: os grandes nunca partem, só morre quem nada partilhou com o mundo.

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    Conheço o arquipélago de Cabo Verde. Fui amigo do Ildo Lobo que trabalhava na EMPA, na cidade da Praia. Mas, sobretudo, guardo na memória noites do Mindelo em que tive o privilégio de ouvir Cesária Évora. Sodadi bô Cezi!

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Não sei se vou dizer um disparate mas penso que há algo de simbólico no facto de Cesária Évora cantar descalaça que não terá apenas a ver, com o que diz, “de se sentir tão enraizada na terra que a pretendeu sentir com os pés, mas não só em CV, mas em todo o mundo por onde levou o seu canto dolente”. Assim, eu que não sou caboverdena mas lá estive muitos meses, vi toda a gente descalça e, os que não estavam, ou eram “estrangeiros” como eu que para lá fui empurrada para saber o que se passava com a bananeira e cafeeiro, o que me fez andar de gatas para atingir o topo do Paúl de Santo Antão, ou faziam o serviço militar e seus familiares – de resto, a maioria dos que se calça, andava de sadálias de plástico cor-de-rosa, que poucos anos depois eram do mais “inn” em Lisboa e se vendiam, para as meninas bem, andarem na praia e não serem picadas pelo peixe-aranha. Creio assim que Cesária cantaça descalça porque tinha idade para se lembrar da história do seu país e, quem sabe, levava consigo para onde fosse. E talvez você tenha metade da minha idade e não se lembre deste “pormenor” que foi dos que mais me impressionou, por mais “liçoes de vida” que aí tenha aprendido e não esqueço, como não esqueço os meninos de olho brilhante e bata branca imaculada, da escola situada nomesmo largo onde eu trabalhava e ficava a Biblioteca, e saindo da escola à mesma hora que eu, lá ía com o bando de meninos que íam ficando pelas Achadas onde habitavam, meninos que eram os meus fãs, quando alguma gincasa se inventava no Campo de Futebol, sobretudo quando se jogava com os “Travadores” que já nem recordo que equipe era – sim, as pessoas andavam descalças e tenho 600 slides desse tempo, de gente descalça e de mulheres a travesar a Morabeza de lata de água à cabeça usando uma “rodilha, para não perder o equilíbrio e tal que, vestidas mais do que humildemente, lá íam parecendo esculturas em movimento de coluna vertical de cristal, de volta a casa longe do centro da cidade da Praia, onde iam buscar a água que, na altura, não havia nem em toda a habitação do plateau da “Achada” capital- quem estão vivos não podem, com certeza, deixar de ter esta memória pois que até eu a tenho e terei sempre

  3. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Não sei se vou dizer um disparate mas penso que há algo de simbólico no facto de Cesária Évora cantar descalaça que não terá apenas a ver com o que diz, “de se sentir tão enraizada na terra” que a pretendeu sentir com os pés. Mas não foi só em CV, mas em todo o mundo por onde levou o seu canto quente,dolente, certamente canto da terra. Assim, eu que não sou caboverdena mas lá estive muitos meses, e por duas vezes com anos de sistância, vi na 1ª vez toda a gente descalça e, os que não estavam, ou eram “estrangeiros” como eu, que para lá fui empurrada para saber o que se passava com a bananeira e cafeeiro que no mundo tropical estavam a morrer com a morte súbita (cafeeiro) e com a Cercospora sp. (bananeira), o que me fez andar de gatas para atingir o Pico do Paúl, de Santo Antão, ou faziam o serviço militar e seus familiares, De resto, a maioria dos que se calçava, andava de sadálias de plástico cor-de-rosa, que poucos anos depois eram do mais “inn” em Lisboa e se vendiam, para as meninas bem, andarem na praia dentro de água e não serem picadas pelo peixe-aranha. Creio assim que Cesária cantava descalça porque tinha idade para se lembrar da história do seu país em época colonial, quem sabe, que levaria consigo para onde fosse. E talvez você tenha metade da minha idade e não se lembre deste “pormenor” ou não lhe dê a simbolgia que eu sempre dei, situação que foi das que mais me impressionou, por mais “liçôes de vida”, e de grandeza, que aí tenha aprendido no início da minha vida profissional. e que nem dá para esquecer nunca, como não esqueço os meninos de olho brilhante a saltar de alegria e de bata branca imaculada, da escola situada no mesmo largo onde eu trabalhava e ficava a Biblioteca, e saindo da escola à mesma hora que eu, que lá ía com o “bando” de meninos que íam ficando pelas Achadas onde habitavam, meninos que eram os meus fãs, quando alguma gincasn se inventava no Campo de Futebol, sobretudo quando se jogava com os “Travadores” que já nem recordo que equipe era, e de que ilha (Campo ao lado do belo Cemitério que ficava na encosta). Sim, as pessoas andavam descalças e desse tempo tenho 600 slides, de gente descalça e de mulheres a atravesar a Morabeza de enorme lata de água à cabeça que equilibravam assente numa “rodilha, e tal que, vestidas mais do que humildemente, lá íam parecendo esculturas em movimento de coluna vertical de cristal, de volta a casa tão longe do centro da cidade da Praia, onde a iam buscar,pois que, na altura, não havia nem sequer em toda a habitação do plateau da “Achada” capital. Quem da minha idade está ainda vivo, não pode, com certeza, deixar de ter esta memória, pois que até eu a tenho e terei sempre, como memória tenho de não ter podido comprar algumas coisas simples, de que precisei para montar o centro de investigação de que fui encarregada, e até as cortinas das janelas do Centro que lá ficou e funciona, eram de papel pardo, porque assim teve que ser, porque até outras pequenas coisas tive de pedir a minha família que me enviasse, e mais não havia, e assim vivi, com muitas dificuldades, mas com muita alegria por ter vivido pela 1ª vez fora de casa. E nem sequer percebi quem tinha passado por mim, que comecei a trabalhar no ainda existente na altura, ministério do ultramar, onde ele trabalhou também e no mesmo serviço então na Tapada da Ajuda, mas por tempo breve, Amilcar Cabral, que mal conheci mas de quem tenho memórias, fortes, sobretudo visuais
    Pois Cesária “descalça” quem sabe se não teria com essa atitude, mensagem forte do tempo que viveu e eu apenas aflorei já que era além de “menina”, de uma total ignorância política, pelo menos

    • Carlos Fonseca says:

      Tenho reminiscências do mesmo género. Também visitei e permaneci em Cabo Verde por motivos profissionais. O Ildo Lobo que citei, como sabe, era o vocalista dos ‘Tubarões’. Morreu jovem. Sodadi!

  4. Mary Jeovan says:

    maria celeste d’oliveira ramos , a Cesária cantava descalça porque gostava e podia.
    A cesária não ligava a nenhuma politiquice ou história de cabo Verde que não fosse cuidar dela, dos seus filhos e familía. Parem de romantizar coisas que não percebem nem entendem

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