A Morte em Atenas

Lagarde sobre a crise da dívida grega

Há dias, Christine Lagarde, DG do FMI, concedeu uma entrevista à estação televisiva CBS, centrada no tema da dívida grega. Sumariamente, afirmou:

  • A solução correcta, neste momento, é que os responsáveis implementem as políticas “correctas e sólidas”;
  • É o momento em que os partidos políticos “responsáveis” têm de dizer ao povo a verdade;
  • Esses partidos têm de distanciar-se dos partidos populistas, marginais na vida democrática e que rejeitam o caminho correcto;
  • Em democracia, os líderes políticos devem dizer a verdade ao povo;
  • Qual é a alternativa? Mais débito?

No final, ao que se sabe pela comunicação social portuguesa, SIC em especial, Lagarde admitiu a bancarrota e a saída da Grécia do Euro.

Um farmacêutico grego, de 77 anos, suicidou-se na Praça Syntagma em Atenas. Na derradeira carta, deixou clara a razão da opção pela morte: ter sido privado de meios para a sobrevivência. O FMI, de Lagarde, lamentou. Hipocritamente.

Esta morte de Dimitris Chrisoula teve origem na pandemia das medidas do FMI. Efeito, de facto, pandémico que, surda e perfidamente, está a matar silenciosamente muitos europeus do Sul – em Portugal, em 2010, registaram-se 1195 suicídios, acima, das 1135 mortes nas  estradas. São indicadores de reflexão obrigatória.

Dimitris, na pátria de Eros e de Fedro, morreu por causas distintas de Aschenbach em Veneza. Tadzio, neste caso, nem se quer existiu como personificação do belo como ante-câmara da morte – Thomas Mann não estava lá para testemunhar. O desespero da miséria, gerada pela crise financeira mundial e agravada pelas medidas do FMI e da CE, foi inequivocamente a razão da morte. Como em múltiplos casos em Portugal, propositadamente não estudados ou ignorados.

Há assassinos de alto coturno por detrás deste género crime. Calçam bota alta e olham os cidadãos comuns com desprezo. Até na morte.

Comments

  1. Gajo Republicano Laico e Mação... says:

    reflexão obrigatória ou neste caso opcional
    o FMI e o resto do mundo deixaram morrer 200 mil haitianos de fome de cólera e de balázios variados (há 500 suicídios declarados só em Port-Au-Prince uma taxa de 25 por 100 mil numa cidade de 2 milhões e 5 vezes a do resto do país

    embandeirar em arco porque um farmacêutico que virou bandeira resolveu pôr um fim na sua vida

    quando aqui velhotas de 45 quilos e 80 anos de idade caem com fome na rua e só umas quantas pessoas reparam nisso
    e 3000 andam nos caixotes há anos…há 40 anos na realidade

    é Há assassinos de alto coturno por detrás deste género (de) crime. Calçam computadores de merda e são funcionários de um partei qualquer (tenha swastika ou foi-se tanto fax)e olham os unter-cidadãos com desprezo. Até na vida….

  2. Gajo Republicano Laico e Mação... says:

    logo não choro por um velhadas com dinheiro para pistola e balázios que escolheu a saída fácil

    difícil é viver remexendo o lixo dos funcionários durante décadas
    difícil é deixar de ter forças até para remexer no lixo e andar aos tombos na rua

    difícil é uma velha de 83 antiga costureira cair na saída de uma caixa geral de depósitos na capital vermelha e só duas funcionárias e suas filhas…entre quase cem pessoas
    gastarem 10 minutos da sua vida para ampararem uma vida no fim…

    que um gajo se mate ou mate outros por achar que não pode viver sem dinheiro….isso nã é uma catástrofe é uma benesse…

  3. Carlos Fonseca says:

    O comportamento das potencias ocidentais em relação ao Haiti foi uma vergonha. Isso não impede, porém, que velhadas e jovens, em desespero com as dificuldades de vida que a alta finança lhes aprontou e a Europa do Norte refina, não sejam igualmente dignos de solidariedade. Tenham que idade tiverem. Sejam de onde forem.
    Sob pena de se negar a si próprio, o humanismo não selecciona em função da quantidade, do país, da idade, da raça ou de qualquer outro critério arbitrário.

  4. J.V. says:

    provavelmente um lapso, mas “Qual é a alternativa? Mais débito?” devia ler-se “Qual é a alternativa? Mais dívida?” (pelo menos é isso que interpreto do video) Já agora, alternativas não faltam, lá porque o FMI não acredita nelas, não significa que não sejam credíveis. É como esperar que o Papa recomende o budismo para os católicos insatisfeitos 🙂

  5. mercedes ferrari says:

    Leiam este artigo, que é esclarecedor !!

    “O Cerne da questão

    Vejam como o Euro foi um excelente negócio para a Alemanha e péssimo para os GIPS (Grécia, Itália, Portugal e Espanha). Reparem bem na simetria das curvas.

    Um gráfico idêntico aparece num texto de Paul Krugman que cita Gavyn Davies :

    “É normal debater o problema do endividamento soberano concentrando-se na sustentabilidade da dívida pública nas economias periféricas. Mas pode ser mais informativo enxergá-lo como um problema no balanço de pagamentos. Tomados em conjunto, os quatro países mais problemáticos (Itália, Espanha, Portugal e Grécia) têm um déficit conjunto de US$ 183 bilhões na conta corrente. A maior parte deste déficit corresponde ao déficit no setor público destes países, já que o seu setor privado se encontra atualmente num estado aproximado de equilíbrio financeiro. Compensando estes déficits, a Alemanha tem um superávit de US$ 182 bilhões em conta corrente, o equivalente a cerca de 5% do seu PIB.”

    Isto significa que ao contrario do que acontece num estado federal, o estado que produz mais riqueza não a reparte significativamente pelos outros estados (fomentando a sua economia, por exemplo).

    Percebe-se assim a atitude de boicote sistemático da Srª Merkel a qualquer plano que ponha cobro aos ataques especulativos e sequenciais dos mercados financeiros, pois isso exigiria que a Alemanha utilizasse uma parte do seu superavit para realizar emprestimos que apenas renderiam uma taxa de juro modesta.Pelo contrário, se conseguir fazer aguentar a situação de impasse por mais algum tempo, o bloqueio do crédito fará com que um grande número de empresas tenham de ser vendidas para não falirem, sendo então compradas pelos alemães,

    Temos assim um ataque em tenaz tão ao gosto germanico: mantêm-se os países desprovidos dos normais mecanismos de defesa cambial -resultante da moeda única e das regras impostas ao Banco Central Europeu – acentuando rapidamente as suas debilidades estruturais, e simultaneamente dificulta-se o acesso ao crédito levando cidadãos empresas e estados a um beco sem saída.

    Depois de espalhar o medo, substituem-se os governos desses países (Grécia, Portugal, Espanha, Itália), reduzem-se salários e regalias sociais e finalmente compra-se a capacidade produtiva de um país ao preço de saldo.

    Sem disparar um tiro a Alemanha está a conseguir alimentar os seus designios imperiais melhor do que conseguiu na primeira e segunda guerra. Em menos de 100 anos a Europa tem de enfrentar uma calamidade social provocada pela Alemanha.

    De facto estamos a enfrentar uma situação de guerra, em que as armas até podem ser corteses e silenciosas, mas não deixam de ser devastadoras.

    Sabendo-se que 60% das exportações da Alemanha se destinam à Europa é urgente que os cidadãos europeus exerçam o seu direito à resistência começando desde já por enviar uma mensagem muito clara para Berlim: deixar de comprar produtos de origem alemã.

    Esta é uma ação fácil de levar a cabo pois o mercado oferece uma grande variedade de alternativas ; por outro lado a contração das economias dos países europeus em dificuldades vai amplificar muito o efeito do boicote.

    Talvez assim, finalmente os financeiros alemães comecem a perceber que matar os clientes não é um bom negócio.

    Concordo perfeitamente com a argumentação e acrescento que o euro ( marco travestido ) é o instrumento e o isco que permitiu aos alemães os resultados referidos , isto é , os euros são os panzers do outro mas com melhores resultados.
    Mais uma vez os ingleses perceberam o que os alemães queriam. Ficaram isolados mas o tempo ir-lhes-à dar razão tal como nas Guerras mundiais “.

  6. Carlos Fonseca says:

    Cara Mercedes Ferrari,
    Li e concluí ser, de facto, muito esclarecedor.

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