25 Poemas de Abril (XV)

Assim cantamos e escrevemos

nas cartas e nas paredes.

Porque nem vida nem sonhos

cabem nas malhas das redes

que o inimigo nos lança.

Temos coisas na lembrança

que cantamos tantas vezes.

Ao ponto de ser mais branca

uma canção sobre os meses

que uma pomba em pleno voo.

Velha canção que eu entoo

vinda não se sabe donde.

Até que um dia em seu voo

descubro um verso que esconde

raiva e amor misturados.

Como se fossem recados

de um preso em sua prisão

ou dos gaiatos roubados

de sangue, sonhos e pão

sem alegria, cantando.

Porque o canto anda contando

a quem tem sangue nas veias

como se destrói o mando

e se assaltam as ameias

de quem nos quer sitiar.

E por ser dito a cantar

não é menos verdadeiro.

Andam pombas a voar

no coração guerrilheiro

que pela Paz, faz a guerra.

Homem que nunca se enterra

nem no chão nem na lembrança

nem quando a arma se emperra

e a bala sai rosa-esperança

pelo cano do poema.

Manuel Correia

Comments


  1. Sentir “Abril” hoje é tão importante, e a democratização da sociedade pode estar em causa com as interferências dos governos na gestão da internet. E como vivemos numa sociedade global, é importante conhecer o mundo global, e essa foi uma das razões para a criação da revista Raia Diplomática…

  2. maria celeste ramos says:

    Nenhuma revolução para conquistar a liberdade havia sido feita no mundo com flores da mão e na boca das espingardas – foi um dia tão bonito e as ruas e a cidade na RUA – Tenho uma fotografia tão bela de um velhote já mesmo velho na avª da Liberdade, encostado a uma árvore, com um cravo ao peito acompanhado do seu talvez único amigo e familiar – o seu cão, ele também com cravo na coleira que era lindo de se ver pelo menos – Depois a explosão de graffitis só alusivos à libertação de abril que fotografei por toda a cidade – Depois então, a “contaminação” da Revolução de Veludo de VaclavHavel que mais tarde veio “tratar-se” no sol algarvio -.Depois, depois, não mais revoluções pacíficas que, como em 2012, foram tentadas na Primavera Árabe – Só canhões e tiros e mortes e repressões e cargas policiais e empobrecimento dos povos – Um novo nazismo que paira no ar – poluído – de todas as formas – Hoje fui a uma conferência dada por uma “grega” que falou da “tragédia grega” – Creio que falava de mais paises e ouví-a como se falara do meu país, tal é o decalque que entendi das suas palavras

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