Outro caminho – 3 propostas para sair da crise

O sr. FMI sugere que a resolução dos problemas estruturais profundos é a única saída para o nosso país.

E parece-me que o Homem tem razão. Podemos começar por mexer na questão do financiamento às empresas. Os contribuintes europeus entregam o seu dinheirinho ao Banco Central Europeu, que o empresta aos Bancos a 1%. Depois, cada um de nós vai lá, aos bancos, “pescar” crédito a 6 ou a 7%. Ou seja, os Bancos emprestam-nos o NOSSO dinheiro e ganham com isso. É um exemplo de problema estrutural profundo que seria importante resolver. Mas há mais.

Nas parcerias entre o Estado e as Empresas dos ex-governantes – juro que não estou a pensar no Jorge Coelho – poderiam, quem sabe, fazer com que em tempo de lucro o dinheiro seja da empresa, mas em tempo de prejuízo a despesa não seja do estado. Se os carros passam, fiquem lá com a portagem, mas se o veículo ficar na garagem, não me retirem o subsídio de Natal para a pagar – a portagem da viagem que não fiz.

Uma outra prioridade nacional passaria por perceber que o nosso crescimento irá acontecer por via das exportações  – algo que me parece complicado, mas que reconheço ser o caminho – mas também através do consumo interno. O tempo presente, na nossa economia real é suportado pelo consumo interno  e como se tem visto nos últimos dias, a economia real está a morrer – o aumento do desemprego e a descida na receita dos impostos (apesar do seu aumento em termos de taxas) são disso indicadores.

Do dinheiro que nos chega da TROIKA usem uma parte significativa para aumentar os rendimentos de quem trabalha, juntando esse crescimento a apoios à produção nacional – poderiam fazer o aumento do salário mínimo através do fornecimento de bens alimentares com origem nacional, por exemplo. Poderiam entregar aos funcionários públicos os dois subsídios deste ano exclusivamente em produtos nacionais. Parece uma  sugestão do tempo da União Soviética ou de Cuba? Se calhar, mas também não me parece que as soluções lusas, americanas e alemãs dos últimos 30 anos nos levem por melhor caminho. Não estou a pensar destruir o mercado – sugiro apenas que a economia real portuguesa possa alavancar (que palavra bonita!) a produção nacional.

Comments


  1. Sugestões brilhantes, lógicas práticas e que nem seriam muito difíceis de implementar se os governantes tivessem «aquela fruta» e acabassem com a sabujice aos poderosos da finança que servem de creche para os «boys» e de lar de idosos para os ex-políticos. O compadrio a cumplicidade e o conluio têm muita força
    Abraço
    João

  2. Maquiavel says:

    Eu também sugeri a um político familiar meu que, mas qual oiro qual quê, se os outros países da UE querem garantias de pagamentos, pague-se em presuntos, chouriços, queijo, vinhos portugueses! Oiro näo se come!

    Há 10 anos Finländia também aceitou comprar F16 americanos só e só se os EUA aceitassem parte do pagamento em “géneros”, pensado também como forma de entrada no mercado americano. Resultou em cheio, porque a Frioländia näo é só telemóveis.


  3. É pior do que dizes. Na realidade o BCE não entrega o nosso dinheiro, limita-se a criar dinheiro novo. Isto vai ter efeitos a prazo. O nosso dinheiro é estoirado noutras coisas (mesmo assim penso que a maior parte até é bem gasta) e por não chegar, o estado é obrigado a financiar-se em mercado aberto. É óbvio que se devia eliminar o intermediário (os bancos principalmente), é igualmente óbvio que não se pode criar dinheiro indefinidamente.


  4. Ainda acredita que a realidade em que vivemos é consequencia de falta de ideias ou alternativas?

  5. João Paulo says:

    #1 Pois… é isso mesmo…
    #2 Isso da Finlândia merece pesquisa… Vou investigar
    #3 E saídas? Como sair disto?
    #4 Se não é parece: quem tem que as colocar em cima da mesa não o faz…

    JP

  6. Eurocéptico says:

    Exactamewnte. Concordo na generalidade. Aumentar as exportações é bom. Mas reduzir as importações, especialmente do que comemos e que podemos e sabemos produzir, também seria muito bom se essa malta pensasse no bem do país e não nas suas grandes barrigas. A grande distribuição importa tudo e mais alguma coisa que nós sabemos e podemos produzir. Alguém sabe onde são feitos muitos dos tais produtos brancos? Dizem que são de UE. Bem sei eu se eles não são feitos na china e importados pela alemnaha que se põe a jeito para que essa malta os compre como se fossem da UE. Alguém fiscaliza isso? E a carne e o peixe importado alguém controla? Temos tantos campos que podiam e deviam produzir muita carne e tanto mar que nos poderia dar tanto peixe. O que é que falta para que essa malta inverta este estado de coisas?


  7. Já Camões nos Lusíadas escreveu “um fraco Rei faz fraca a forte gente”, é o que se passa em Portugal e em toda a Europa. Esta crise não se deve a nenhuma guerra ou catástrofe natural, simplesmente os “mercados financeiros” após terem sido “salvos” em 2008 resolveram tomar posse de tudo o que existe, simplesmente convencendo todos que é preciso vender, poupar, cortar, etc.
    Se todos os bens do mundo existem em quantidade finita, o dinheiro não pois pode-se sempre criar mais. A ganância também não tem limites, pois querem sempre mais.
    Vejam a Islândia como saiu da crise. Quando eram eles na mó de baixo, diziam os políticos da zona Euro: “vejam que bom é estar no Euro, olhem para eles pobrezinhos!”
    Depois foi a Grécia e a Irlanda, diziam “Não somos Gregos, o nosso caso é muito diferente!”
    Os Gregos falaram em referendum e colocaram lá um governo nomeado pelo FMI! Em Itália idem. Agora Portugal é o que se vê, e Espanha já mostra sinais de ir a seguir.
    E se nada for feito, cai a Europa toda! Pode-se seguir uma profunda crise ou mesmo outra guerra mundial.
    O problema estrutural da Europa pode ser resumido num: falta de liderança, fraca qualidade dos políticos, corrupção, incompetência. Para que servem o Barroso e o Von Rompui? Para que serve o Parlamento Europeu? Só vejo Sarkozy e Merkel, que ocuparam o vazio de liderança Europeia com as suas pobres ideias.
    “Cortar” como decretaram cegamente, a austeridade destrói a economia.
    Precisamos sim de combater o desperdício, a corrupção e as despesas em obras faraónicas, PPP, etc que nada acrescentam à sociedade são simplesmente despesa pública para alimentar vaidades políticas.
    Estamos num ciclo de concentração de riqueza e desvalorização do trabalho na Europa, que trouxe quebras de consumo privado, endividamento dos privados, queda nas receitas fiscais e desemprego. É por aí que se devia atacar, pôr dinheiro a circular no que chamaram a “economia real” porque as pessoas não trabalham para pagar impostos, trabalham para poderem viver, ter as suas coisas e criar os seus filhos.
    Nunca nenhuma crise foi ultrapassada somente com austeridade, mas sim com estratégias de desenvolvimento, trabalho, rigor.

  8. Tiro ao Alvo says:

    João Paulo, quando dizes que “os contribuintes europeus entregam o seu dinheirinho ao Banco Central Europeu, que o empresta aos Bancos a 1%. Depois, cada um de nós vai lá, aos bancos, “pescar” crédito a 6 ou a 7%.”, tu acreditas que as coisas se passam, efectivamente, assim? Tu és depositante do BCE? Tu poupas alguma coisa do que ganhas, ou és dos que estão à espera de crédito fácil e barato?
    Nós, cada um de nós, só devemos falar do que sabemos, a não ser que seja para perguntar o que, manifestamente, não é o seu caso…


  9. #5 JP, a meu ver estamos a confundir coisas que são fundamentalmente diferentes:

    • Temos a crise financeira: em poucas palavras os bancos estão demasiado alavancados. Por isto o crédito secou. Como os bancos não podem absorver mais risco, deixam de emprestar. Isto está a estrangular a economia (tanto ou mais que a austeridade e as tontices dos nossos governos);
    • Depois temos outro problema, distinto do anterior. Esse problema é o chamado “atraso estrutural” do país. O nosso crescimento nos últimos 30 anos foi assente em factores que dificilmente se vão repetir (dinheiro do FMI em 84, da CEE a partir de 86, petróleo barato durante os anos 90, e no séc XXI crédito muito barato). Em vez de criarmos uma economia moderna, desbaratámos estas oportunidades em betão e nos monopólios da EDP, PT, etc…
    • A juntar às duas desgraças anteriores, ainda temos a crise energética que se confunde no tempo com a crise financeira. A energia que representa uma grande fatia dos custos numa economia, aumentou para mais do triplo o preço em termos médios desde o inicio do século.

    Não há naturalmente uma solução geral para este problema. Temos pois de ir procurando soluções aproximadas. Por exemplo:

    Não creio que se deva salvar os bancos. Estes não cumprem a função de alimentar com crédito a economia desde há uns três anos. Mesmo quando emprestavam não tinham um papel dinamizador da economia (a maior parte dos empréstimos eram para crédito à habitação, operações financeiras e crédito pessoal, para investimento de risco, muito pouco). Assim, o que proponho para este problema, é criar um novo banco, capitalizado com o dinheiro que está a ir, sem proveito, para os actuais.

    Concordo contigo, o BCE deveria financiar directamente os estados, eliminando o intermediário. Isto, no entanto, tem de ser feito com extremo cuidado e dentro de limites muito bem definidos.

    Quanto ao problema estrutural do país, não sei muito bem o que fazer. Sei que com os políticos que temos e com as corporações que laboram em beneficio próprio no nosso país, dificilmente alguma coisa vai mudar.

  10. João Paulo says:

    #8 Não me parece que as questões pessoais sejam relevantes, sendo que normalmente não escrevo uma coisa para depois fazer outra. Manifestamente de acordo com a minha total ignorância neste campo – mas a cada dia, a cada hora, a cada minuto que passa fico menos surpreendido com a ignorância dos que percebem da coisa… É que falam, falam… Mas, se quiser entender o meu post como uma pergunta, fico aberto a respostas.
    Obrigado,
    JP

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  1. […] E estas palavras explicam o que nos vai na alma hoje. Não tenho, não temos grandes soluções para o país apesar de me ter atrevido a deixar algumas dicas. […]

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