Vencedores e Vencidos – Abril, o Grande Vencedor

   (adão cruz)

Presume-se que os vitoriosos deste Mundo, sejam os vitoriosos que provocaram ou facilitaram a fabricação desta plataforma em que vivemos, da barbárie ocidental dos tempos modernos, da poluição, da fome, da super-alimentação e da alimentação envenenada, o mundo da degradação, da auto-destruição e da massificação da economia, o mundo-universo da droga, do suicídio, da delinquência, da violência e do extremismo.

O mundo da industrialização irracional e da epidémica loucura do consumismo, do materialismo acéfalo, do ultraliberalismo e do monetarismo, cujo útero fecundo reside nos tecnocratas da rapina e na cabeça do patrão planetário que condecora os vitoriosos e condena os derrotados.

Este mundo em que a delinquência cresceu exponencialmente, os tratamentos psiquiátricos e as baixas por perturbações mentais subiram em flecha, o consumo de tranquilizantes foi multiplicado por dez, para gáudio dos fabricantes, os suicídios aumentaram para cima de um terço, o recurso à droga tornou-se maciço e os crimes por tráfico não têm conta.

Em nome da competitividade e convergência, da indiscutibilidade das decisões, da globalização, da modernidade, da flexibilização, da privatização, palavras inquestionáveis das estratégias de dominação por parte daqueles que sabem quem tudo ganha à custa de quem tudo perde, cometeram-se as maiores barbaridades.

Tais fórmulas estão a transformar-se numa ideologia sem sentido que leva à destruição sistemática do Homem, através da toxicodependência, do desemprego de longa duração, do baixo salário, do crescimento dos sem-abrigo, do desespero, apatia e iliteracia da juventude, do assalto às economias pelas mãos de luva branca, hoje quase institucionalizado entre os ditos políticos que mais não são do que homens sem qualquer honra, vergonha ou dignidade, da perversão dos conceitos de saúde que endeusam os remédios e transformam cada doente numa renda fixa, da aniquilação da resistência e da vontade dos homens dignos deste país, da inoperância da Justiça, da ideologia do pensamento único.

Todos estes fenómenos se acentuam quando se desenvolvem políticas doentias de tipo paranoico-monetarista, destinadas a reforçar o poder do capital de forma profundamente patológica, através de absurdos super-lucros e mais-valias, do escandaloso desvio do nosso dinheiro para obscenas reformas de ninhadas de parasitas, do esmagamento da qualidade de vida da maior parte da humanidade. Circulam no mundo muito mais de três triliões de dólares avidamente à procura do sítio onde se lucra mais, nem que esse sítio seja o imenso cemitério para onde resvalam milhões de vítimas.

Não basta os políticos tidos por mais sérios dizerem que a solidariedade é um factor fundamental e o princípio mais importante do nosso século.

Não basta dizerem que continua a haver países mais ricos e outros mais pobres e, dentro dos mais ricos, cada vez maior diferença entre ricos e pobres.

Não basta dizerem que a pobreza e a exclusão geram guerras intermináveis.

Tudo isto é sabido e não é cantarolando a Paz e a Cooperação, de mão dada com os senhores da guerra que se ganha o título de vencedor.

Ao elegerem o inimigo errado, muitos dos pregadores da paz e da liberdade foram co-responsáveis pelo engrossamento do exército de refugiados, oprimidos e condenados da terra.

Co-responsáveis no abrir de portas e no estender de tapetes às chancelarias do crime organizado.

Por mais que preguem e por mais conferências que façam, não anulam o descrédito em que caíram ao pretenderem convencer-nos de que as expectativas de paz, liberdade e justiça são possíveis com o aperto de mão dos verdadeiros terroristas do mundo ou com as orações a Deus, as quais, pelos vistos, só são ouvidas quando saem da boca dos afortunados e não quando tomam a forma de gemidos – que para gritos não há força -, dos milhões de zairenses, bósnios, sudanezes, ruandeses, somalis, afegãos, iraquianos, líbios e tantos outros que morrem às pilhas no deserto do silêncio, da fome e do sangue.

Nós andamos distraídos com os fumos de incenso que os nossos governantes e responsáveis vão espargindo pelos quatro canais da estupidez institucionalizada.

Importantes grupos económicos, células de um cancro universal de cura muito difícil que não se compadece com mesinhas diplomático-folclóricas, detêm todo o poder da informação, e a informação com poder para mudar os comportamentos está nas suas mãos, mãos que a usam de forma humilhante para inundar de publicidade perversa e ignominiosa desinformação as cabeças de um povo sem vontade, massificado, estupidificado, ridicularizado, americanizado.

Neste pérfido mundo há, no entanto, almas grandes a par das almas pequenas.

As almas grandes são raras, mal conhecidas e propositadamente escamoteadas, mas são as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão imortal, a dimensão da poesia, da honra e da dignidade supremas do Homem feito à medida do homem.

Nunca ninguém foi considerado vencido por não realizar integralmente os seus ideais, por não conseguir, no curto tempo da sua existência, eliminar as razões da sua luta contra a exploração, a degradação e a injustiça.

Contrapor vitórias e derrotas neste contexto de náusea universal em que vegetamos é ignorar radicalmente as aspirações da humanidade e contribuir, ainda que inconscientemente, para o seu esmagamento.

Galileu não foi um vencido, não foram derrotados Marx e Engels, não foi derrotado Luther King mas sim o racismo.

Vencido não foi o Padre Américo por não ter eliminado a pobreza, derrotados foram os que mantiveram a pobreza que o Padre Américo não conseguiu extinguir.

Derrotado não foi Amílcar Cabral mas sim os responsáveis pelo martírio do crucificado continente africano.

Óscar Romero foi assassinado mas não vencido, vencidas foram as forças militares que o mataram e nas quais a Igreja retrógrada se encontrava representada.

Derrotado não foi Leonardo Boff, apesar de esmagado pela pressão de uma Igreja absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, uma Igreja que confunde a voz de Deus com a voz do Pentágono, e cuja prática nada tem a ver com a doutrina de Cristo.

Vencido não foi Fidel, que mantém, heroicamente, a par do seu povo vitoriosamente faminto, uma espinha cravada na garganta do imperialismo norte-americano.

Paulo Freire morreu com rios de pedagogia a correrem-lhe dos olhos, ao defender a vocação ontológica do Homem e ao condenar a ideologia fatalista que se abate sobre as classes dominadas.

Quem foi derrotada não foi a Pedagogia do Oprimido mas o obscurantismo imposto por todos os novos esclavagistas.

Derrotados são os Papas que perverteram o conteúdo humanista do cristianismo e que ajudaram a matar a esperança dos povos numa sociedade sem exploradores nem explorados, elevando à categoria de profetas todos os vândalos deste manicómio contemporâneo.

Derrotado foi e continua a ser o obscurantista Ratzinger, o tal dos olhos que não enganam, que dirigiu a cruzada contra a Teologia da Libertação e contra tudo o que depois de João XXIII poderia ter feito avançar um pouco a justiça do mundo, aparentando renascer agora como vencedor, em Cristo.

Derrotados e ridículos são todos aqueles que mandam recados e bombas a povos gloriosamente soberanos, no sentido de impor a sua integração no rebanho dos países oprimidos e explorados.

Não podemos esquecer que a peçonha imperialista se derrama pelo mundo como uma doença, mediada pela tragicomédia dos cérebros brumosos que infestam muitas Direcções e Administrações, mascarada por uma democracia de faz de conta, criada para enganar os tolos através da pregação de velhos e novos missionários do crime, apoiados em vencedores, discípulos e servidores, para elevarem à máxima dimensão a exploração miserável dos tempos ditos modernos.

Quem não faz pose para a história, quem não é capaz de definir o belo porque este o transcende, quem considera a criação artística uma necessidade, quem gosta na vida, para si e para os outros, de tudo o que um ser humano gosta, quem quer a justiça mas também quer o sol e o mar para todos, quem diz que o amor e a amizade são dos maiores valores da vida, quem gosta de apanhar conchas na praia, longe de jornalistas contratados para fotografarem barrigas e calções, quem não monta elefantes para ser grande, quem não dá voltas à terra mas calcorreia os campos, quem hipoteca, de forma martirizada, a sua vida na luta contra todos os crimes da exploração humana, quem usa a vida toda uma vida na luta contra o abismo entre ricos e pobres, de forma autêntica e não através de hipócritas, religiosas e caritativas panaceias, quem mede a tolerância e a plena liberdade dos cidadãos pela sua própria liberdade, sabendo a anedota que é a liberdade no seio da ignorância, da incultura e da injustiça, nunca pode ser um vencido ou um derrotado.

Qualquer Homem com esta capacidade humana e vital da ética, vertente de criativa hermenêutica, feito de experiência moral, que conhece as contradições concretas do nosso agir e nos ensina fraternalmente a reconhecê-las, consciente das histriónicas personalidades dos vencedores, não pode ser um vencido.

Todo o viver ético comporta um trabalho sem descanso, feito de conhecimento, liberdade e responsabilidade, caldeado na mais perfeita unidade e seriedade.

Se a ética trata dos grandes apelos, e a moral do normativo e do particular, a perspectiva ética não é mais do que o autêntico e verdadeiro encontro com o outro.

É na relação com os outros que nós percebemos quem somos.

O sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência.

A cultura da diferença estrutural da mente humana e a anulação da diferença entre direitos são critérios maiores de vitória em todas as vertentes da vida, mas ninguém acredita que façam parte autêntica do ser estrutural dos habituais vencedores.

Não é o grau de facilidade ou dificuldade ou a carga pragmática ou utópica que ditam o que deve ser feito ou obstam àquilo que deve ser feito, mas é, sobretudo, a força que contraria o conselho descomprometedor da verdade da nossa consciência perante a submissão.

O reconhecimento da identificação com os autênticos valores de liberdade em todo um processo de unificação pessoal e colectivo, exprime uma inquestionável adesão ao Bem e à Justiça, uma interioridade só reconhecida às almas grandes.

É por tudo isto que ABRIL é e será sempre o GRANDE VENCEDOR.

Adão Cruz

Comments

  1. alexandra says:

    Gostei muito do texto. Uma fica com a sensação de que nem tudo está perdido na perniciosa engrenagem do abominável e insofrível sistema. Como usufrutuária deste espaço: obrigada.


  2. Estimado Adão, como cresceu o meu respeito por si! São as poucas pessoas como o Adão, que contêm em si a essência da humanidade, que não se deixam mecanizar, que nutrem um pensamento abrangente, universal, que mantêm acesa a esperança de um mundo melhor!

    Fico-lhe grata por ter partilhado um tão fecundo e altruísta interior!

  3. maria celeste ramos says:

    E do crime de esconder em casa e caves filhos de alguém que faz filhos às próprias filhas e enterra os matados no quintal como ainda sucedeu esta semana – e inventaram os Jacques Doutroux – e outras anomalias aberrantes – e matança de crianças e prefessoras em em escolas bem há poucos anos – bem se viu na televisão o sequestro – a demência da europa que saca o SUL e os PIG e comem os subsídios da UE que comem – europa ou demênciaq té se suicidios colectivos co na Suissa h+a uns anos (e nos USA . no Waco) – a demência dos ricaços pseudo-cristãos que já só têm a religião do dinheiro

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