Fala Pacheco

Quando ouço falar do “festim do crédito”, quem é que é responsável pelo “festim”? Quem deu a festa para recolher lucros, ou participou nela para ter vida mais fácil? A resposta justa é: pelo menos os dois. A injustiça da resposta é que só um aparece como “culpado” do “festim”, e só um lhe paga os custos. E se falarmos mesmo dos muitos milhares de milhões que constituem a dívida nacional, que hoje é apontada como um fardo moral para os pobres que “viveram acima das suas posses”, com esse plural majestático do “nós”, em “nós vivemos acima das nossas posses”, eles não foram certamente para o bolso das pessoas comuns que hoje lhes pagam o custo. Não foram os pobres, nem os funcionários públicos, nem a classe média baixa que fez as PPP. O discurso do poder é todo feito para culpabilizar os de baixo, enquanto quase pede desculpa para moderar um pouco os de cima. A resposta dos de baixo é uma rasoira populista e igualitária, que também não promete nada de bom para o futuro.

Há uns imbecis que dizem que falar assim é falar como o Bloco de Esquerda. Não, falar assim é falar como deveriam falar todos aqueles que não vêem a realidade com os olhos do poder e das ideias da moda, e que se esforçam por perceber o sentido último da política em democracia: as pessoas só têm uma vida, e, estragada essa vida, não há outra. É laica a política em democracia, vive da vida terrestre não da vida celeste. E se isso não é a pulsão da política em democracia, o bem comum e concreto das pessoas, então a democracia não sobrevive. Não tenho feitio para Catão, e tudo o que aqui é dito é mais que moderado e devia ser, se não andássemos todos virados para as explicações simplistas e para os slogans dicotómicos dos blogues, sensato. Aliás, a grande traição do PSD, do PS e do CDS é terem deitado fora, ofuscados pelo poder, todas as raízes humanistas, sociais, liberais, e cristãs, do seu pensamento e, pior ainda, do seu “sentimento”.

Pacheco Pereira hoje no Público. O homem vai ser crucificado três vezes. Ir da esquerda para a direita soube-lhes bem, sair da direita pela porta do bom-senso, isso eles nunca lhe perdoarão.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Ai o vento quendo muda de direcção e em vez de continuar a limpar o caminho traz toda a poluição – E o vento não me traz sua voz – assm fala Zaratrusta ??


  2. Isto das festa faz sempre lembrar a anedota do organizem-se.

  3. Maquiavel says:

    Um excelente título para este artigo seria “Afirma Pereira”… 😀

  4. Paula Silva says:

    Sempre admirei Pacheco Pereira por dizer aquilo que realmente pensava, mesmo quando não agradava ao Partido. Este texto está soberbo, é mesmo tudo verdade e transmite precisamente a revolta profunda que sinto por me terem arruinado o futuro, a mim que sempre paguei os meus impostos e me governei com o que tinha. Nunca vivi acima das minhas posses e não admito que me incluam no rol dos responsáveis pela crise. Que assumam as responsabilidades quem as tem e mostrem coragem para rever os contratos ruinosos que foram feitos com certas empresas privadas. Ou apenas os Funcionários Públicos não têm direitos adquiridos?

Trackbacks


  1. […] li no Aventar um excerto de um texto que merece ser divulgado na blogosfera. É admirável ver um político […]

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