Em Milão, no último fim-de-semana, numa cadeia de supermercados, uma mulher de 76 anos foi apanhada pelo gerente a roubar um saco de caramelos. Os caramelos custavam 78 cêntimos. O gerente é um homem de 37 anos e imagina-se que não teve dificuldade em apanhar a mulher. A polícia foi chamada. O gerente denunciou o roubo e a ladra, apanhada em flagrante. A mulher confessou e, humilhada (diz quem escreveu a notícia), admitiu que lhe apeteceu um caramelo mas que não tinha os 78 cêntimos. O agente da polícia, comovido (também diz quem escreveu a notícia), pagou os 78 cêntimos do seu bolso, a mulher foi embora e alguns clientes aplaudiram.
Falta-nos De Sica para contar esta história, ele saberia mostrar-nos uma mulher nascida em 1936, que talvez tenha visto, aos 9 anos, os corpos de Mussolini e da sua amante Clara Petacci pendurados na Piazzale Loreto. Saberia mostrar-nos como se pode viver à margem do milagre de Milão, erguida capital de moda capaz de rivalizar com Paris, potência financeira de Itália.
Sé ele saberia conduzir-nos pelos corredores do supermercado, e em seguida revelar-nos o rosto dessa mulher de 76 anos (haveria nela um rasto do olhar vulcânico da Magnani?), fazer-nos depois deter o olhar no gesto trémulo com que ela lançou mão aos caramelos, sabendo-se já de antemão vencida. E depois a queda, o gerente aos gritos, os olhares, a vertigem.
Esta mulher não tinha um filho para segurar-lhe a mão no regresso a casa, nem roubava uma bicicleta para trabalhar. Roubou um saco de caramelos e devem ter-lhe sabido a merda.
(obrigada ao José Colaço Barreiros por divulgar esta história)






Sua velha gulosa. Devias ser açoitada
O facto de ter 76 anos tem alguma relevância para o caso?
Não, não terá.
Se tivesse 12 seria a mesma coisa. A Lei é cega…
Pois que um gerente de cadena de supermercados de 37 anos, que lhe amargue um doce a uma velhota que mais lhe duplica em anos de vida (e o que haverá visto e vivido), por 78 cêntimos, quando menos é acintosamente patético.
Um óptimo retrato – e bem estruturado sintacticamente! – de uma realidade cada vez mais comum. Os pequenos prazeres podem tomar proporções ciclópicas para quem não os pode alcançar.
O agente policial devia ser despedido, pois impediu de forma manhosa que uma criminosa recebesse o justo castigo pelo seu crime.
Perante este triste exemplo vindo de um país dito civilizado, como me sinto orgulhoso de ser português onde nem os ladrões de polvo congelado escapam à implacável lei!
Reblogged this on Beto Bertagna a 24 quadros.
Alguém que ofereça um cartão de crédito à velhota…