uma mulher roubou caramelos

Em Milão, no último fim-de-semana, numa cadeia de supermercados, uma mulher de 76 anos foi apanhada pelo gerente a roubar um saco de caramelos. Os caramelos custavam 78 cêntimos. O gerente é um homem de 37 anos e imagina-se que não teve dificuldade em apanhar a mulher. A polícia foi chamada. O gerente denunciou o roubo e a ladra, apanhada em flagrante. A mulher confessou e, humilhada (diz quem escreveu a notícia), admitiu que lhe apeteceu um caramelo mas que não tinha os 78 cêntimos.  O agente da polícia, comovido (também diz quem escreveu a notícia), pagou os 78 cêntimos do seu bolso, a mulher foi embora e alguns clientes aplaudiram. [Read more…]

Ironias

Um milanês interpreta “Arde Tróia” na Praça do Rei em Barcelona. Tantas ironias.

(Para quem não conhece Vinicio Capossela aqui ficam dois outros registos, completamente diferentes, de um autor com mil registos)

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A réplica e o original

   Na vertigem mediática e blogosférica dos tempos que correm, uma réplica mereceu recentemente mais destaque do que o original. Compreende-se, seja pelo teor da notícia, seja porque, convenhamos, seria difícil utilizar o original para perpetrar a agressão.

   Desfeita a espuma volátil do fait-divers, voltemos agora ao esplendor monumental do Duomo de Milão.

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   Nunca o tinha visto como agora, tão limpo e branco, o mármore tão aparentemente acabado de talhar. Tendo em conta os quinhentos anos que demorou a sua construção, é possível que nenhuma outra geração o tenha visto desta forma, com as suas 3400 estátuas tão inesperadamente resplandescentes, os fantásticos vitrais absolutamente recuperados, a Madonnina refulgente como nos primeiros dias. Mark Twain – e suponho que não só –  considerava o Duomo a primeira entre as obras feitas por mãos humanas.

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   Eu não digo tanto, mas não consigo ir a Milão sem o visitar, vez após vez.  No entanto, para mim, apesar de toda a sua monumentalidade, beleza e, acreditem, leveza, a obra mais impressionante presente no Duomo encontra-se, quase discretamente, no seu interior e mantém inalterada a patine do tempo. Trata-se da figura de S. Bartolomeu ( Miguel Angelo pintou-a no Juízo Final, na Capela Sistina, segurando a sua própria pele ) de Marco d’Agrate (1562 ) esfolado vivo, uma das maiores representações do sacrifício, da brutalidade e da intolerância humanas.

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Um provinciano

Quando o meu filho foi estudar para Milão e depois para Haia, basicamente disse-lhe que ele iria encontrar gente da mesma idade com comportamentos, hábitos e valores diferentes, o que não queria dizer que estavam errados. Cada um de nós resulta das circunstâncias que umas vezes encontramos, outras vezes são as circunstâncias que nos encontram a nós, do ambiente familiar, da educação…

Logo, seria natural que, uma vez ambientado, conhecesse amigos e amigas que o convidariam para sair, jantar e tudo o que um jovem deve fazer. E ele, ou se encolhia na sua concha com medo da vida ou sairia a gozá-la, o que em nada contrariava os valores e a educação que tinha recebido. Deixei tudo muito claro. Perante um hábito sexual, ou de consumo de drogas ou de álcool, a questão resumia-se a explicar que respeitava muito as opções de cada um, mas que aquelas não eram as dele. Sem juízos de valor.

Isso não impediu que eu na minha primeira visita a Milão, depois de ele lá estar, não estivesse próximo de um ataque cardíaco quando percebi que uma amiga dormia no quarto dele em cima de um colchão. Faziam intercâmbio, os de Milão iam passar fins de semana a Roma e Veneza e vice-versa.

Quando eu vim para Lisboa (reparem para Lisboa) o meu pobre pai não foi capaz de me dizer nada, a não ser que sendo eu jovem, havia o perigo de uns gajos mais velhos… enquanto um soluço abafava o que ele não era capa de encarar de frente. Que esses perigos existem e é preciso enfrentá-los.

E lá vim eu de “mala de cartão” na mão e aterrei em Santa Apolónia, onde sou de imediato assediado por um gajo que me diz “é pá, tu não és o Couto?” e eu que sim, e quando dou comigo estava dentro de um mini vermelho, conduzido por um gajo que nunca tinha visto na vida, a atravessar Lisboa, até a um bairro ( que mais tarde soube ser Alcântara) onde me esperavam os amigos de Castelo Branco.

Claro, andei a ser gozado meses seguidos…

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