Antologia da sacanice económica

A economia tem duas maneiras de ser albardada: com pessoas ou com números. É a diferença entre a esquerda e a direita. A direita quando discute economia fala assim:

as empresas (…) sabem tomar as suas decisões sem recorrer a António Borges ou aos que o aplaudiram. De facto, tem sido comum nas empresas privadas nestes últimos anos a contenção salarial, quando não mesmo o congelamento dos salários nominais (o que implica a descida dos salários reais) ou a diminuição de prémios de produtividade e outras regalias. (…)

Por estes dias, qualquer empresa oferece a um novo colaborador um ordenado mais pequeno do que o fazia há dois anos (…).  Por outro lado, quem procura trabalho actualmente sabe bem que não pode esperar ganhar o que esperaria há uns anos (…), tanto pela contenção de custos das empresas como pela abundante oferta de trabalho expressa nos nossos números de desemprego.

O insuspeito Banco de Portugal conta as coisas de outra forma:

Quando se vêem a braços com a necessidade de cortar nas despesas com pessoal, 72% das empresas portuguesas optam por despedir trabalhadores.

E o sempre brilhante João Miranda remata:

Se o desemprego é 15% e há poucos anos era inferior a 10%, eu posso estar muito confiante que houve muita gente que tinha um salário bem acima do novo equilíbrio.

Tudo isto num curioso divertimento de gente que discute a vida com a mesma displicência que acabo de usar numa troca de ideias com um jovem e brilhante cozinheiro sobre o peso dos cominhos num frango com requeijão.

O frango estava bom, mais de um milhão de desempregados estão mal. E se querem números, só no último ano os vencimentos e/os lucros dos patrões (chamem-lhes CEO, accionistas maioritários ou empreendedores) algumas (poucas) vezes baixaram.

Não sei o que está gente almoçou, mas tal como eu almoçou. Milhares de portugueses terão tido uma ementa mais frugal, a sopa de coisa quase nenhuma. Outros tantos nem isso, e os primeiros se calhar não  jantam. Estão desempregados ou viram o seu salário baixar nos últimos anos.

São as pessoas. A minha economia são essas pessoas; a da burguesia (recuperemos, sim, as coisas pelos seus nomes, que colaboradores é insulto e tem de ser ripostado) reduz-se a números e à forma ainda mais maliciosa de as explorar.

Comments

  1. Olá!
    Quando refere “burguesia”… Defina, se não se importa o conceito… pois fiquei confuso (meu cérebro é algo limitado)
    Obrigado…

    • Uma definição muito contextualizada e rápida: classe social onde cabem todos os que designam um trabalhador como colaborador.

      • jorge fliscorno says:

        O quê, querem ver que sou burguês? O fisco, face à carga fiscal que me aplica, acha-me entre os ricos (pena que os meus rendimentos também não me coloquem entre eles), daí que, se calhar, é mesmo verdade.

        Mas que a primeira citação é exacta, é. Sei-o por experiência própria e por observação do que se passa à minha volta. O privado paga muito menos do que pagava, por exemplo, em 2000. Mas enfim, não está ao alcance de todos manter ou melhorar as condições salariais com repetidas greves que prejudiquem milhares. Nem, muito menos, existirem empresas onde pouco importe a má gestão, pois o bolso do orçamento de estado é fundo.

  2. É interessante abordar o tema da economia pelo lado da esquerda ou da direita. É interessante abordar no campo sociológico a relação entre as pessoas entre burgueses e proletariado. É interessante ainda ver rejeitado por muitos pensadores estas dicotomias…mas não é nada interessante ter que viver nos dias de hoje constrangido por condições impostas por outras dicotomias…A realidade nua e crua é que a produção mundial de riqueza nunca atingio valores tão elevados como aqueles que hoje se assiste. Também é verdade que nunca a distribuição da riqueza foi tão desigual como a que se verifica nos dias de hoje. Face a estas duas realidades posso especular mais á esquerda ou mais à direita, posso defeni-las num quadro de luta de classes ou no expoente máximo da livre circulação de capitais. O que não posso e não consigo é escamotear a enorme desigualdade que esta realidade prespassa as diferentes sociedades. Não somos burgueses, nem proletários, não somos trabalhadores nem patronato, somos simplesmente pessoas que desempenham diferentes papeis numa sociedade de individuos com os mesmos direitos e deveres e que contribuem nos diferentes aspectos da criação da riqueza.
    É justo? É credível? É humano? Cada um que fique com a consciência das suas opções e do seu papel. Todos mas todos acabam do mesmo modo e na mesma maneira. De que vale a dicotomia se a vida é só uma!

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