Universo pluralístico

Li Não Matem o Bebé de Kenzaburo Oë, Nobel da Literatura, há dezoito anos. Uma passagem não me saiu da cabeça desde então: um diálogo entre Himiko e Passarinho. Falam do «universo pluralístico» nestes termos:

– Neste preciso momento tu e eu estamos sentados e a falar um com o outro num quarto que faz parte daquilo a que chamamos o mundo real – principiou Himiko. (…) Ora sucede que tu e eu existimos também sob formas completamente diferentes num mundo incontável de outros universos. Aí tens! Ambos nos recordamos de tempos passados em que as probabilidades de viver ou morrer eram de cinquenta por cento. Por exemplo, quando eu era criança apanhei febre tifóide e quase morri. E lembro-me ainda perfeitamente do instante em que cheguei à encruzilhada; ou descia para a morte ou subia a ladeira da convalescença. Naturalmente, a Himiko que se encontra sentada contigo neste quarto escolheu o caminho da convalescença. Mas, no mesmo instante, outra Himiko escolheu a morte! (…)”

Eu concordo com esta visão. Decidir, que acontece a cada momento da nossa vida, é isto mesmo! Há muitos caminhos que deixamos de fazer… por um.

Agora imaginem este «universo pluralístico» na cena política! E se Portugal tivesse enveredado por um outro caminho que não este em que nos encontramos e que já não há retorno? Ainda teremos outra oportunidade para escolher «a ladeira da convalescença»?

p.s.: o poema de Frost foi sugestão da Celeste Ramos!

Comments

  1. Amadeu says:

    E se tivéssemos … dá cenários infinitos. Cada um escolhe o(s) que confirma(m) as suas crenças. E não se consegue provar ou refutar coisa alguma.

    As sociedades são como os budistas. Quando morrem, renascem sobre outra forma qualquer. Há sempre retorno ou evolução.

    E se o Passos tivesse tido sucesso como cantor ?
    Era vê-lo a cantarolar:

    E se os tugas querem um aumentosinho
    nós pimba, nós pimba
    e se tugas querem um bom ensino
    nós pimba, nós pimba
    e se os tugas não querem mais impostos
    nós pimba, nós pimba


  2. Ora aí está, cara Céu, uma questão extremamente pertinente! E se a escolha fosse outra? E se a nossa liberdade de escolha, o nosso livre arbítrio, nos inclinasse mais para as opções menos egoístas?

    Infelizmente, essa escolha menos egoísta requer como condição sine qua non uma visão da sociedade, da civilização, bem mais profunda, bem mais instruída, bem mais sensata. Só assim se poderia escolher a “ladeira da convalescença”!

    Infelizmente, com a mentalidade idiota e o elevado nível de ignorância de uma grande maioria, as escolhas continuarão a recair sobre a “ladeira da morte”! Uma sociedade de mente fechada e parca educação é, definitivamente, uma sociedade moribunda.

    • Amadeu says:

      “… mentalidade idiota e o elevado nível de ignorância de uma grande maioria…”
      Que felicidade ler os posts da elite minoritária esclarecida.
      Minha cara, você é uma verdadeira vítima da incompreensão deste mundo pérfido. Se ao menos todos pensassem como v.exa …
      Muito atenciosamente

  3. maria celeste ramos says:

    Maria do Céu – leia um lindíssimo poema a propósito do que escreveu – do livro Treasures of the english Poetry de autoria de Frost – The road not taken – “two roads diverged in — ” – lindo

  4. Maria do Céu Mota says:

    Obrigada, Celeste!

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