elogio de Humphrey Bogart

Foto: Yousuf Karsh

Cada vez gosto mais do Bogie. E olhem que pode ser complicado a gente gostar dele. Quando se cresce a levar com Tom Cruise a fazer coquetéis (é assim que se escreve?) não é fácil afirmar a preferência por tipos de tez acinzentada pelo tabaco e mortos há mais de 30 anos. Tipos que, reparem bem, nasceram em 1899 (!), coisa espantosa para um galã de cinema. Não é por ele fumar como um carroceiro e não ser o Tom Cruise que eu gosto dele, embora ambas sejam características que me podem levar a simpatizar com uma pessoa, mas porque o Bogart tinha aquela aura (conquistada em grande medida, mas não em exclusivo, com o seu Rick Blaine) de tipo generoso, incapaz de virar a cara ao sofrimento alheio, mas sem pachorra nenhuma para as lamechices. E eu acho que o mundo está a precisar urgentemente de gente dessas.

Já não há sais de frutos suficientes para tantas criaturas que querem dar-nos abraços grátis (como se habitualmente eu pagasse por eles), que nos entopem as caixas de correio electrónico com imagens de cãezinhos, gatinhos e outros bichinhos em poses Walt Disney, ou de criancinhas angelicais,  ou que nos dedicam chi-corações (é assim que se escreve?) e “beijos no coração” (argh!), ou que acreditam que a existência dos pobrezinhos é necessária para que possamos exercer a cristandade, e nos saturam com a descrição inflamada da sua própria generosidade, e outras coisas abomináveis. Por mim, a regra é simples: se tenho dúvidas quanto à lamechice de alguma coisa, basta perguntar-me: “O Bogart faria isto?”

Do que o mundo precisa mesmo é de bondade, parece-me. Aquela bondade genuína, que vê no outro um semelhante, e não um diminuído, a bondade que não depende do grau de fofura do outro, da sua benignidade. E o Bogart era gajo para isso. Para se condoer sem deixar cair a prisca do canto da boca, para sacrificar os seus interesses e não admitir que ninguém olhasse para ele como vítima. Atenção, falo da persona Bogart, da imagem que ele foi construindo através de algumas das suas personagens. Pouco sei, e não quero ficar a saber mais, da vida privada do tipo. Não tenho paciência para a hagiologia, só gosto de ficção (se calhar acabo de contradizer-me, paciência).

A bondade que se apregoa a si mesmo, que antes de sacar a moeda da carteira olha para o lado para assegurar-se de que há testemunhas, que se perde em jactantes auto-elogios, que se gaba de encher o tupperware de um desgraçado com as sobras do almoço, não é bondade, é só falta de vergonha na cara.

Comments


  1. E que dizer da Ingrid? Onde as há?


  2. De facto; ténue é a linha que separa a vã glória do acto, da simples empatia para com os outros – o seu sofrimento incluído.

    Pessoalmente, cheguei a um bom entendimento introspectivo sobre tal. Ser apenas bondoso e solidário quando obtenho um egoísta prazer em tal ser.
    Está certo, não ando a dar comida à boca das infelizes crianças africanas, não tenho interesse em activismos de solidariedade, só mando roupa e livros para caridade quando me recordo.. mas lá está, quando o faço – e por pouco que seja-, faço-o pelo inato prazer que me dá.

    Fará tal de mim, melhor ou pior pessoa?
    Honestamente não sei responder a isso, mas sim sei que -ao menos!- a minha bondade é sincera e sejamos igualmente sinceros, isso já pende para o lado da “melhor pessoa”.

  3. Amadeu says:

    E o Cantinflas, a Marisol e o Joselito ? Esses sim. No Cinearte, aos sábados. Com as avós de lágrima no lenço.
    Ainda me lembro do vagabundo que mamou o peixinho do Joselito, a espalitar os dentes
    Chorei que nem um perdido.
    Quem foi o Bogarti ??


  4. Cara Carla, texto excelente, perfeito e pleno de conteúdo. Adorei!

  5. norma7 says:

    Belo texto. Grata.

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