Postcards from Romania (33)

Elisabete Figueiredo

 As cidades, como as pessoas, precisam de tempo

Sou turista. Não adianta dizer que sou outra coisa qualquer. Gostava de ser viajante. De preferência que me pagassem para correr mundo – não todo, vamos excluir os ‘países com moscas’, como eu lhes chamo – e me deixassem ver tudo muito bem e, talvez, escrever sobre isso.

Sou turista. E assumindo essa condição faço hoje uma coisa que deveria ter feito ontem. Uma viagem de autocarro à volta dos principais locais de Bucareste. É por onde começo, geralmente. Para dominar mais ou menos fisicamente as cidades. Desta vez não. E deixei, então, que Bucareste me dominasse e, de certo modo, me excluísse. Mas as cidades precisam de tempo. E eu não sou pessoa que desista facilmente, já sabemos.

Comecei o dia a tentar dominar a cidade usando os transportes públicos. Piata Kogalniceanu, aqui mesmo ao lado do hotel. Bilhetes de autocarro, tabaco. A Praça é tão feia. Terrivelmente feia e cheia de lixo. Apanho o autocarro em direção à Piata Universitatii. Chego lá, não é difícil. A partir daqui hei-de perder-me duas vezes dentro de autocarros. Estou sempre a perder-me e, geralmente, isso tem-se revelado bastante proveitoso. Hoje, se querem saber, também. Estou sempre a perder-me e a ganhar com isso, portanto. Devo ser a única pessoa que se perde na cidade onde nasceu, em cidades do tamanho de uma noz, a única pessoa que se perde em autocarros e que, uma vez, na Áustria, até se perdeu (de) (n) um comboio.

Pois da Piata Universitatii subi o Boulevardul Nicolae Balcescu. Não sei para quê, não me perguntem. Estava um sol abrasador. Resolvo desistir de estar perdida, meto por uma rua com sombra e eis uma paragem de autocarro. Apanho um qualquer para a Piata Unirii, onde já estive, e, claro, volto a perder-me. Em vez de sair na Piata Unirii, esqueço-me, distraio-me e só dou por isso quando reparo que o autocarro avança pelo Boulevardul Marasesti em direção à Piata Libertatii. Quando se está sozinho, não havendo ninguém a quem culpar pelos enganos (uma maçada, confesso) temos mesmo de nos desenrascar, isto se não quisermos ir dar a um qualquer subúrbio, cheio de blocos de apartamentos tenebrosos e sermos comidos por cães vadios (aos milhares em Bucareste, felizmente não no centro, mais outra consequência direta da política de ‘sistematização’ de Ceasescu). Desço do autocarro, pergunto aqui e ali e regresso incólume à Piata Unirii, onde decido que basta. Sou turista, vamos lá ser o que sou.

No autocarro distraí-me porque as pessoas se benziam repetidamente. Reparo que, de cada vez, o fazem 3 vezes. É por isto que me perco. Estas pequenas coisas. Não percebo porque está toda a gente a benzer-se a espaços dentro de um autocarro, até que compreendo, porque reparo (ou me distraio mais): quando passamos por uma igreja, seja ela qual for, os romenos (bom, pelo menos os que viajam de autocarro) benzem-se. Voltei a assistir a isto no autocarro turístico muitas outras vezes.

Portanto, sim, apanhei-o, ao autocarro turístico, na Piata Unirii. Foi o melhor que fiz. Poupei os pés. Não me perdi uma única vez. Dei uma volta completa à parte central da cidade, ouvi umas explicações muito superficiais sobre o que passava do lado esquerdo e direito e em frente e depois decidi ir ao Museu de Arte da Roménia que fica na praça Revolutiei. Uma praça tão bonita, tão comovente, tão gigantesca e tão pequena ao mesmo tempo.

O Museu não é um bom museu, sejamos francos. Os quadros de pintores romenos (só visito o piso dedicado à arte moderna) e as esculturas são muito bons, na sua maioria, mas o modo como estão expostos, o comportamento das ‘guardas’, que ora me perseguem como cães de fila (naquele piso ando eu e um rapaz, apenas), ora atendem aos gritos os telemóveis, em conjunto com um imenso calor (que coisa rara, num museu), fazem do ‘mAr’ um museu de onde se quer sair rapidamente. No entanto, já sabemos, dificilmente desisto, por isso, continuei. De tudo, só conhecia Constantin Brancusi, o escultor. Mas sou surpreendida por quadros de Luchian, Lazarescu, Tonitza, Brauner… os museus precisam de mais tempo ainda que as cidades, acho eu, sempre achei.

Saio do museu e atravesso a estrada gigante até ao Memorialul Renasterii (memorial ao renascer, traduzo eu, livremente). Tem várias partes. A pirâmide da Vitória e o muro das Vítimas. Foi deste local que Ceausescu tentou escapar de helicóptero em dezembro de 1989. Sem sucesso. Foi neste local que se deram também os combates mais violentos durante a ‘revolução de dezembro’.

Apesar de a praça estar mesmo junto à Calea Victoriei, há muito silêncio. Os nomes nos dois muros são muitos. Da pirâmide da Vitória sai um caminho construído com troncos de árvores e ladeado de bancos brancos até uma árvore de que não sei o nome. A seguir uma escultura magnífica (penso que não faz parte deste conjunto) e depois a água. Uma fonte. O ruído da água abafa o dos automóveis. Toda a praça da revolução, apesar do nome ou por ele, sim, digamos que por ele, é um lugar comovente. Silencioso. Fresco. Arejado. Circula o ar, como a água. Respira-se.

Respiro. Sento-me na fonte. Sou turista, bem o sei.

(Bucareste, 16 de Agosto de 2012)

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