Hoje há bandarilhas – Canadá

Em nome do governo, que de resto ficou mudo como um penedo, Passos Coelho prometeu empobrecer Portugal, cortar a eito entre os mais modestos custasse o que custasse. Cumpriu a promessa e disse, orgulhoso, que ia “além da troika”.

Temos mais de um milhão de desempregados, um número impressionante de falências e de empresas fechadas, há largas bolsas de fome no país, as instituições de beneficência estão a ter a maior dificuldade em acudir a todos os necessitados, muitos estudantes tiveram de renunciar aos seus estudos por falta de meios, é escandaloso o número de professores atirados ao desemprego, é lancinante o número de pessoas que perderam a casa, o rio para e emigração vai caudaloso,etc.etc. etc. Tudo isto foi feito por um governo que se diz português contra Portugal.

E vai agora, a troika faz saber aos parceiros sociais que o memorando não é responsabilidade dela, mas sim do governo, que o mesmo é dizer que não se sente culpada pelo total fracasso deste pouco mais de um ano de governação neoliberal e ignorante.

Das duas uma: ou Passos mentiu (o que não aconteceria pela primeira vez) ou a troika (esperta, batida) adopta teatralmente aquela tirada romana que nos diz respeito por via do Viriato: “Roma não paga a traidores”.

Comments


  1. Talvez Passos Coelho se aperceba finalmente da verdadeira face dos seus amigos troikianos. Isto, claro, admitindo que em Portugal é tudo gente de bem.


  2. Quem se der a esse trabalho de ler o “programa da troika” vai encontrar um texto sintético, que especifica objectivos, estratégias e prazos. Olhando desapaixonadamente aquilo que é proposto, constata-se que muito do que lá está escrito faz todo o sentido. Infelizmente tiveram de ser “estrangeiros” a vir “puxar as orelhas” aos nossos políticos para os “convencerem” a racionalizar o Estado, a tornarem-o mais eficaz e eficiente. Há quanto tempo essa necessidade é conhecida entre nós? Ou não? — Qualquer espírito livre e racional, que não tenha parado no tempo ou não esteja frenado por ilusões utópicas ou negligência “clientelista”, há muito que o sabe… Deste modo, o “programa” é antes de mais um “vexame” à competência dos nossos decisores políticos, e também um exemplo de como se tratam assuntos com competência técnica, racionalidade e profissionalismo.
    Em Portugal não estamos habituados a isso. É-nos mais familiar a “velha” esperteza saloia, o texto palavroso, floreado, por vezes contraditório, e por fim, vazio! Implementar as medidas propostas – ainda que à luz da racionalidade muitas delas façam todo o sentido -, implicaria sempre sacrifícios e dor.
    O programa obriga a “racionalizar” serviços: menos gente na educação, na saúde, nas autarquias, nos serviços centrais. Implica eliminar duplicações e redundâncias, implica melhorar a eficiência e eficácia dos serviços. Implica “fazer” bem com menos dinheiro.
    Não obstante – ainda que o sacrifício fosse grande -, os eleitores subscreveram-o.
    No entanto, se a “toika” teve a responsabilidade da definição estratégica, aprovada e subscrita por PS, PSD e CDS, não as tem na componente táctica de implementação. Essa foi a parte entregue ao governo actual, e é essa que está agora a ser avaliada.
    A “troika” disponibilizou recursos para que Portugal eliminasse gorduras e reforçasse o músculo. Vem agora verificar – com todo o direito – se o “acordo” está ser cumprido.
    E aí, as coisas falham. Falham muito. O governo em vez de se dedicar a eliminar as gorduras do Estado, optou por “cortar a eito” levando também o músculo, com desprezo total pela vida das pessoas e consequências na economia. Num ano conseguiram destruir o mercado interno, tornando-o irreconhecivel. Quantos anos o sector automóvel irá levar para recuperar quarenta por cento de perda? E a construção? E o comércio no geral? – O governo avançou para a implementação como elefante em fúria numa exposição de porcelana. Destruiu, não criou. O Estado continua na mesma, as PPPs na generalidade também, a economia definha, o desemprego aumenta. Não fez o que deveria fazer, estimulou o pânico, a mesquinhez e meteu~se em guerras sem propósito, como por exemplo a oportunidade do dossier RTP.
    Vir agora atribuir “culpas” à “toika”, mesmo que de forma sinuosa – como o fez o Presidente da República -, é um exercício de desonestidade e um atestado de estupidez à capacidade crítica dos portugueses. A verdade é que este governo falhou em toda a linha. Pegou num país doente e aplicou-lhe uma sobredose de medidas que desiquilibraram a lógica e sentido da estratégica que a própria “troika” apontou. Demonstraram leviandade soberba, ligeireza e insensibilidade. Em três palavras: impreparação, irresponsabilidade, incompetência!


    • Não tenho muito tempo para dar uma resposta elaborada como o comentário exige. Mas essas considerações sobre a “bondade” da troika incluem a recomendação da baixa de salários e outros rendimentos do trabalho, como indemnizações por despedimento? Ou será que aí eles se enganaram? É que lembro-me sempre do Pingo-Doce e de quanto ganhará uma operadora de caixa, agora também obrigada a trabalhar aos domingos e feriados pagos a 50%, com o ilustre empregador na lista das maiores fortunas de Portugal.


      • A “Troika” veio cá porque a chamaram. Não vieram para ser “bonzinhos”… Vieram emprestar dinheiro a troco de garantias expressas numa estratégia e num calendário. Ninguém estava obrigado a aceitar ou a negociar nos termos propostos… — Eles são “apenas” profissionais do dinheiro, nada mais, nada menos… Não tenhamos ilusões.
        Aquilo que afirmo é que a aplicação da “receita” foi deformada pelos “clínicos de serviço” (os drs. Coelho e Relvas!). E chamo-lhes incompetentes por isso. Não tenho dúvidas que o “programa” implicaria sempre sacrifícios para muitos. Não obstante, uma governação séria e responsável, deveria encontrar formas de os diluir no tempo, amenizar, levar em conta, encontrar formas compensatórias para diminuir efeitos sociais graves (que qualquer “pensante” sabe terem consequências nas finanças públicas…). Nem isso pensaram ou fizeram. Daí que para mim, qualquer coisa que passe por endereçar agora “culpas” à “Troika” é pura trafulhice!…


        • A responsabilidade do PSD (e já agora, do PS) é essa mesmo. A de terem aceite, porventura sem muita discussão e finca-pé. O PSD terá maiores responsabilidades por ter adoptado o programa como sendo seu de corpo e alma. Mas não nos queiram fazer de parvos, dizendo agora os funcionários dos senhores da finança troikianos que nada têm a ver com isto.


  3. Gostei desta intervenção e subscrevo-a, caro LuisF!

    Só um reparozinho: não foi só este governo que falhou; todos os governos têm falhado em toda a linha! Alguns tiveram a “sorte” de que a “coisa” não tivesse vindo à tona e passaram algo despercebidos; outros tiveram a “sorte” que a “coisa” flutuasse pouco, e com mais mossa menos mossa lá passaram despercebidos também; e outros finalmente, como este e o anterior, tiveram o “azar” de que a “coisa”, além de andar já a cheirar muito mal há muito tempo por efeito cumulativo, viesse esplendorosamente à tona!

    Gostei particularmente da série de adjectivos que aplicou e que tão bem definem, no continuum governamental, não só este, mas todos os governos!


    • “não só este, mas todos os governos!” — Verdade!… E esse é um dos aspectos de maior gravidade e preocupação: a incompetência (e leviandade) dos “profissionais da política”… A “cor” deles é apenas um pequeno pormenor circunstancial… A democracia precisa gente nova (ou novas abordagens) que “o sistema” tem dificuldades em criar…

  4. Catuta says:

    Bom bom era um reizinho da merda

  5. Vasco Monteiro says:

    A culpa da situação actual do país é igualmente do PS e do PSD que tem alternado no poder nos últimos 30 anos. A Troika essa veio a pedido desses partidos e veio emprestar dinheiro para solucionar problemas graves que existiam nomeadamente a nível dos compromissos financeiros do estado. Para emprestar esse dinheiro o FMI (vulgo Troika) impôs condições como qualquer credor e o governo eleito aceitou. Recordo aos mais esquecidos que Passos Coelho chegou ao poder depois de provocar a queda do governo de Sócrates ao recusar o PEC 4 dizendo que já bastava de impostos e que era preciso emagrecer o peso do estado na sociedade mas após vencer as eleições com votos de uma maioria de tontinhos ingénuos a primeira coisa que fez foi lançar um imposto extraordinário. Os cortes esses começam agora a doer… na saúde, na educação etc. O mercado interno esse descambou com o fim do crédito ao consumo principalmente e com isso disparou o desemprego pois as vendas baixam significativamente. Quanto a isso temos que nos habituar a viver com o que ganhamos. Não há dinheiro não há palhaços.

    • Gauloise says:

      Sim acabaram as férias em Palma de Maiorca, os Audi A4 e o apartamento em Telheiras he he he he


    • Sim, sim, convém não esquecer que a situação se precipitou com o “golpe de estado” palaciano contra o PEC4…
      No entanto a situação não “nasceu” apenas da quebra do crédito. Ela veio primeiramente da campanha “difamatória” e baixa contra os portugueses lançada pelo dr. Coelho. A economia perde o carácter de exactidão “cientifica” porque tem subjacente a reacção psicológica do mercado. E foi essa a primeira razão para a avalanche que se seguiu. Os aumentos de impostos e fractura do poder de compra vem a seguir, obrigando as empresas a despedir na tentativa de sobrevivência, ao mesmo tempo que os trabalhadores do Estado perderam aquela franja de margem “orçamental” que lhes permitia por dinheiro a circular… Afirmar que os portugueses – na generalidade – viviam acima das suas posses, apontando críticas ao acesso ao crédito é mais uma falácia criada em laboratório. Exemplo: as pessoas deixaram de poder pagar as suas casas, porque o Passos Coelho lhes “roubou” os empregos!…

      • Vasco Monteiro says:

        As pessoas perderam as suas casas por terem avaliado mal a decisão de comprar casa própria a qual não tinham condições para pagar caso algum problema lhes acontecesse (numa economia de mercado não existem empregos garantidos para sempre). 80% dos portugueses eram proprietários das suas casas.Isso é completamente irrealista!


        • Convém não confundir dinâmica do mercado de trabalho com HECATOMBE…
          E não é por serem proprietários da casa que habitam que os portugueses se distinguem dos outros povos. Por exemplo em Espanha, nosso vizinho, Reino Unido, EUA, Brasil, etc. a percentagem é superior. Não sei onde é que esses 80% se encaixam… Podes citar a fonte? (de preferência inserida numa listagem internacional).

          • Zé da Burra says:

            Concordo!
            De acordo com as estatísticas, cerca de 70% dos portugueses serão também os proprietários da casa que habitam, realidade que não será muito comum noutros países. Este foi o tema de uma notícia televisiva recentemente e os analistas parece não entenderem o motivo que é até bastante simples.

            1.º) Para quem procura arrendar uma casa as rendas sempre foram e são desajustadas em Portugal face aos baixos rendimentos da generalidade dos portugueses;

            2º) Creio ser sensato que se opte por adquirir um imóvel pelo mesmo valor que se pagaria pela renda de um outro que nunca seria seu nem dos seus descendentes.

            3º) As leis portuguesas têm dificultado exageradamente o despejo de arrendatários incumpridores, os processos arrastam-se durante anos nos Tribunais. Os senhorios têm que reservar uma parte das rendas recebidas para as Empresas que administram os prédios, para as devidas taxas legais e para a manutenção. Com alguma frequência os imóveis são devolvidos vandalizados pelos anteriores ocupantes. Assim, à normal manutenção do imóvel há que considerar despesas adicionais para o recolocar em condições de voltar ao mercado. Este panorama não é muito favorável à estabilização do custo das rendas de novos imóveis e leva até a que muitos proprietários optem por mantê-los fora do mercado e a aguardar melhores tempos.

            4.º) Depois da entrada de Portugal na união monetária e no euro os juros cairam abruptamente e foi essa nova situação que levou muitos portugueses, que nem sequer teriam posses para pagar uma renda de casa, tivessem feito as contas e aproveitado a ocasião para comprar uma, de resto como fez um país pobre como Portugal quando construiu centros culturais, uma exposição mundial, um conjunto de estádios de futebol para um evento, uma verdadeira rede de autoestradas e até um desnecessário aeroporto em Beja. As regiões e os municípios fizeram o mesmo e endividaram-se, por vezes construindo rotundas também desnecessárias em muitos casos.

            A lógica explica o resto: a determinada altura as agências de “rating” repararam que o país se estava a endividar ao mesmo tempo que perdia a sua capacidade produtiva por causa da globalização e que por isso difícilmente pagaria os empréstimos, assim baixou a classificação do país e os juros pedidos subiram para os novos empréstimos a Portugal, o que provocou “cortes”, PECs, baixas nos apoios sociais, nos salários, nas reformas, cancelamento de obras, situação que provocou a falência em massa de muitas empresas e o despedimento de muitos trabalhadores. Com menores contribuições de empresas e de trabalhadores foram necessários mais cortes nas despesas do Estado o que provocou mais falências e mais desemprego, numa espiral crescente, e a história ainda vai a meio e não terá final feliz. O clientelismo partidário e uma pitada de corrupção antecipou o processo. Eis o resultado de políticas insensatas que não dizem respeito só a Portugal mas a toda a zona euro.

            Assim, o facto de muitos portugueses terem optado pela compra da sua casa e de agora não a conseguirem pagar é fácil de entender, não é?!

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