Postcards from Romania (35)

Elisabete Figueiredo

 

La revedere, Lenin!

(que é como quem diz, Adeus Lenine!*)

Vou de Bucareste uns 20 km para norte, para Mogosoaia. Há um palácio do início do século XVIII e um parque, em Mogosoaia. Não me converti em turista de palácios, ainda não. Não é isso. O meu guia de 1998, o mesmo que dizia que, na Roménia, ‘the cleanest toilet is behind a bush’, informava que em Mogosoaia, nuns terrenos a norte do palácio, jaziam duas estátuas depostas em dezembro de 1989: uma de Petru Groza (primeiro ministro do primeiro governo comunista romeno) e outra de Lenine. Devia ser verdade porque o guia tinha uma fotografia e lá estava a estátua gigantesca de Lenine caída no chão, entre as ervas, qual erva daninha ela mesma, nuns quintais atrás do palácio. O guia de 2011 diz-me o mesmo, embora sem fotografia.

Em busca da estátua de Lenine, entre as ervas, apanho um táxi (nunca falei do custo de vida na Roménia, mas para terem uma ideia, faço 20 km, atravessando meia cidade e avançando uns 14 km para fora dela, por menos de 30 lei, isto é, mais ou menos 6 euros**) e rumo ao parque de Mogosoaia. O táxi deposita-me na entrada e eu avanço pelo caminho ajardinado, cheio de árvores frondosas, igrejinhas, torres, um lugar idílico, para quem gosta do género. Avanço e decidida, devo dizer. Entro na porta principal dos jardins. Entro no palácio. Já que ali estou vou visitá-lo. Acho que vou conseguir, depois, encontrar a estátua do Lenine, no tal quintal vizinho ao palácio. O palácio é aborrecido. Como a generalidade dos palácios. Muitos tapetes, muita mobília cheia de rococós, muita louça, muito rei, muita princesa, muito nobre. Depois vejo os mapas da europa, de várias partes da europa, do século XVIII e lá me vou reconciliando com aquilo. Os mapas são bonitos. Mas eu sou suspeita, dado que gosto de mapas.

Saio para o parque, dou umas voltas por entre a relva, admiro as árvores frondosas, o grande lago. Vejo as pessoas deitadas ou a passearem descalças. Da estátua de Lenine (ou de qualquer terreno vizinho, nem sinal). Decido perguntar. Volto ao palácio e pergunto à senhora da entrada onde está a estátua de Lenine. Ao princípio parece não perceber, repito Lenine. Olha para mim, ri-se e diz-me, em romeno, que a estátua já não está lá. Apetece-me bater na senhora, coitada, que não tem culpa de nada. Tenho a certeza que não foi ela que retirou a estátua do quintal vizinho. Seriam precisos vários homens, homens? De certeza que foi precisa uma grua e outros aparatos, para mover tamanha coisa. Por isso, claro, não bato na senhora. Apenas exclamo Oh! E saio outra vez para o parque a achar mas que parva que eu sou!… que grande parva que eu sou!

Sento-me num banco a remoer a desilusão. Fico ali uma boa meia hora a pensar naquilo. Na estátua de Lenine. Que queria ver a estátua de Lenine caída entre as ervas do quintal. Depois toca o telefone e ponho-me à conversa. Não falo da estátua do Lenine. Mais tarde conto esta história a outra pessoa, mas àquela que agora me telefona, não. Vou lembrar-me sempre da conversa, no entanto, por causa do Lenine. Por estar sentada num banco, num parque verde, verde, verde, a remoer na minha desilusão. Aquilo passa-me depressa, digamos assim, como devem passar as desilusões, creio eu, em podendo ser. Ou não passar, mas serem domadas. Nossas, connosco, mas domadas. Rapidamente e em força – Lenine não diria melhor. Nada de remoer as coisas. A vida é pequena e o mundo é grande. E assim é Bucareste também.

Regresso a Bucareste. Ou melhor, percorro o caminho ladeado de árvores, flores, igrejinhas e torres a pensar: e agora volto como? Naturalmente não tinha pensado nisso. Pergunto a um senhor sentado num banco à porta do parque do palácio. Diz-me que vá em frente até ao fim da estrada, vire à esquerda e 10 metros depois encontrarei uma paragem de autocarro. Devo, diz-me ainda, apanhar o 508. Multumesc,  la revedere e ala. A aldeia que devo atravessar é muito suja (que contraste com o palácio, logo ali). À esquerda fica a estrada principal que liga Bucareste a Brasov, por exemplo. Camiões e camiões. Vejo a paragem de autocarro, que basicamente consiste em quatro estacas com um toldo de zinco por cima. Nem um horáriozinho, nem um banquinho. Do outro lado da estrada há um bar. Entram e saem ciganos, um homem muito gordo sai com uma garrafa de dois litros de fanta na mão. E eu ali, a olhar para aquilo.

Espero. Que mais poderei fazer? Resolvo acender um cigarro. É certo que quando acendemos um cigarro, os autocarros aparecem logo. Uma passa, duas passas, três passas e há uma cigana com uma saia vermelha até aos pés que se junta a mim na paragem (penso: eu bem sabia, acendia o cigarro e aparecia o autocarro!). De repente, vejo uma carrinha que avança pela estrada, tem um papel na frente que não consigo ler, ainda. A cigana faz sinal, levantando o braço direito. A carrinha pára e eu leio ‘maxi taxi’. Maxi taxi? A cigana abre a porta e eu espreito também lá para dentro e o condutor pergunta-me para onde quero ir. Praça 1 de Maio, respondo, foi o que vi no mapa, onde há metro para o centro de Bucareste. Diz-me para entrar. O maxi taxi vai exatamente para a estação de metro da Praça 1 de Maio. Por 4 lei (80 cêntimos mais coisa menos coisa) leva-me. Entro.

Caí outra vez num filme do equivalente romeno do Kusturica. A carrinha de 10 lugares, vai cheia de ciganos. ‘Nicio problema’, evidentemente, aparte o facto de se porem todos a olhar para mim espantadíssimos. Compreendo-os perfeitamente. Eu também me poria a olhar para mim, espantadíssima, se estivesse no lugar deles. Mas sento-me. Os bancos estão forrados com toalhas de praia berrantes e o tecto da carrinha está cheio de santinhos ortodoxos. E a música? Altíssima e péssima. O maxi taxi vai avançando pela estrada, pára aqui e ali, entram uns e saem outros, uma animação sem fim. Eu cá vou descansadíssima a olhar para tudo, já que a paragem final é aquela onde devo sair.

Na Praça 1 de Maio apanho o metro. A primeira vez que ando de metro em Bucareste e tenho logo de mudar 2 vezes de linha. Bonito, penso, vou perder-me. Compro o bilhete para o percurso todo (mais 80 cêntimos) e lá vou eu direitinha a Basaran. Em Basaran apanho a linha amarela para a Praça Vitória e nesta a linha azul para a Praça da Universidade. Não só não me perdi, como devia ter ar de romena, depois do maxi taxi. Dois rapazes, na estação de Vitória, vieram pedir-me indicações em inglês e eu dei-lhas. Assim se domina uma cidade, penso, quando te tomam por habitante. É isto.

As estações de metro são longíssimo umas das outras. São feíssimas também. Por que raio a arquitetura ‘comunista’ há-de ser tão feia? (sim, mas agora não tenho tempo). Nos subúrbios (1º de Maio a Basaran) as carruagens são velhas e escuras. Depois, os comboios são muito mais modernos e limpos. Há até seguranças nas carruagens, que andam de cá para lá e de lá para cá e nos olham como se nos quisessem arrancar alguma confissão. Um deles tem escrito nas costas: Security Scorceze. Se fosse um s em vez de um z faria sentido, dado que esta viagem foi muito cinematográfica, embora não, nunca, ao estilo de Scorcese.

Na estação da Universidade, saio. Subo as escadas em direção ao Museu de História, caramba, penso, já sei isto tão bem! E avanço até à rua Lipscani, o coração do meu bairro preferido em Bucareste. É o último dia. Mais vale aproveitá-lo. E o Lenine? Ora, adeus!

*Goodbye Lenin! É um filme de Wolfgang Becker (de 2003).

**o salário mínimo na Roménia são 150 euros/mês (mais ou menos 750 lei).

(Bucareste, 17 de Agosto de 2012)

Comments

  1. Amadeu says:

    Sou fã dos seus postais.
    Para mitigar a desilusão com a estátua do Lenine, aqui vai um link da dita cuja.

    http://tinyurl.com/craeszc

  2. Piçalho says:

    Já alguém se perguntou porque é que a Roménia um país pequeno e relativamente destituído de recursos tem uma situação económica estável e Portugal que foi o maior império do mundo no século XV está de rastos e profundamente endividado? Mas que grande mistério este!


  3. Sabe bem ler relatos de viagens escritos por quem gosta de viajar.

  4. Elisabete Figueiredo says:

    obrigada Amadeu 🙂

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