Ceuta nos primórdios da ocupação portuguesa


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Vista de Ceuta a partir da Serra da Ximeira

A conquista de Ceuta em 1415 marca o início da expansão portuguesa em África e tem fortes motivações económicas e de estratégia local. Ceuta era nos inícios do século XV a grande ameaça aos navios portugueses e à costa do Algarve. Ponto estratégico para o domínio da navegação no estreito de Gibraltar, com uma situação geográfica que a tornava facilmente defensável, base da guerra de rapina de corsários e de apoio ao Reino de Granada, Ceuta era principalmente um importante entreposto comercial, que escoava para a Europa as mercadorias que chegavam do Oriente através das caravanas e “o porto da navegação que se fazia entre os dois mares”. (LOPES, 1989, pág. 10)

Para a sua conquista, D. João I utiliza uma armada de 270 navios e cerca de 30.000 homens. O ataque é cuidadosamente planeado e mantido no máximo secretismo, sendo precedido pelo envio de espiões que estudam meticulosamente as suas defesas e determinam os seus pontos fracos. “No dizer do seu cronista, Azurara, seis anos antes já D. João I se ocupava dela; mas seguramente se sabe que se trabalhava para ela desde 1412” (LOPES, 1989, pág. 5). Mas após a conquista a população abandona a cidade, e o bloqueio imposto pelo sultão de Fez inviabiliza o cultivo dos terrenos circundantes e o desvio das rotas comerciais para outros portos provoca o seu declínio.

“Ceuta tornou-se pouco mais do que uma grande e vazia cidade-fortaleza varrida pelo vento, com uma dispendiosa guarnição portuguesa que tinha que ser abastecida continuamente através do mar”. (LOPES, 1989, obra citada)

Gravura de Ceuta

Gravura de Ceuta no séc. XVI da obra Civitates Orbis Terrarum de Braun e Hogenberg, 1572

A importância da cidade é confirmada por Al-Hassan Al-Wazzan Al-Fasi, conhecido como Leão “o Africano”, que afirma na sua obra “Descrição de Africa” que Ceuta tinha 1.000 mesquitas, 360 casas de viajantes, 22 casas de banhos públicos e 103 moinhos.

“A primeira conquista no além-mar obrigou à preparação de uma frota capaz de transportar numeroso exército equipado com armas e abastecimentos. Foi necessário mandar construir, comprar e alugar muitos navios. As notícias da época registam galés, galeões, naus, barcas, fustas, cocas, e barinéis, entre outros…” (FARINHA, 1999, pág. 11) Segundo Pisano, a armada era composta por “sessenta e três naus de carga, vinte e sete trirremes, trinta e duas birremes, e cento e vinte navios de outras espécies…” (PINHO, 1915, obra citada)

A preparação da armada obrigou a um grande incremento a construção naval em Portugal. Só a cidade do Porto, com os estaleiros de Massarelos e Miragaia, “concorreu com setenta naus e barcas “afora outra muita fustalha”, ou sejam embarcações de remo, como consta da carta passada por El-Rei D. Duarte àquela cidade”. (VILLALOBOS, 2006, página electrónica citada)

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Ceuta vista do Monte Abila, actual Monte Hacho

Luís Villalobos, no seu texto “A Conquista de Ceuta”, esclarece as características e funções dos vários tipos de embarcações utilizadas. “Em primeiro lugar, será necessário referir que as galés, movidas essencialmente a remos, podendo recorrer a velas, eram as embarcações militares por excelência, enquanto os navios de vela eram essencialmente de mercadorias. Os de vela eram lentos, difíceis de manobrar e muito dependentes de ventos favoráveis (…) apesar disso eram considerados auxiliares preciosos para uma armada, em especial os de maior tonelagem, de alto bordo, capazes de transportar muitos homens de armas. Daí que a maioria dos navios fossem naus, uma vez que não se previa um ataque naval, mas antes o transporte de tropas até Ceuta e seu desembarque para posteriores confrontos em terra.” (VILLALOBOS, 2006, página electrónica citada)

O exército era maioritariamente composto por veteranos da guerra contra Castela e muitos mercenários, alemães, ingleses, polacos e franceses. “Uma carta do alferes-mor do rei (João Gomes da Silva) ao arcebispo de Santiago indicava que, a bordo das 270 velas da armada portuguesa, deveriam seguir 7.000 a 7.500 “homens de armas”, 5.000 besteiros e 20 ou 21.000 homens de pé (quer dizer, um total de 32 a 33.500 combatentes).” (VILLALOBOS, 2006, página electrónica citada)

Ceuta 1765

Gravura de Ceuta em 1765 da autoria de Gonzalez, cartoteca digital da Biblioteca Nacional de Espanha

A armada era liderada por D. João I, acompanhado pelo príncipe herdeiro D. Duarte e pelos infantes D. Pedro e D. Henrique, e por um seu irmão bastardo, o conde de Barcelos. Os principais responsáveis militares do reino estavam presentes, como o Condestável, D. Nuno Alvares Pereira, o Mestre da Ordem de Cristo, D. Lopo Dias de Souza, o almirante Carlos Pessanha, o almirante Micer (Meu Senhor) Lancerote, o capitão-mor Afonso Furtado, D. Pedro de Menezes, futuro governador de Ceuta, e muitos outros nobres, alguns dos quais iriam protagonizar os acontecimentos que marcaram a presença de Portugal em Marrocos, como Diogo Lopes de Souza, Vasco Coutinho ou Álvaro de Ataíde.

A expedição inicia-se no dia 25 de Julho de 1415 com a saída da armada da barra do Tejo. No dia 27, em Lagos, é finalmente anunciado o seu destino. A viagem entre Lagos e Ceuta é atribulada, já que uma forte tempestade obriga a armada a permanecer vários dias no mar alto. Ao dirigirem-se a Ceuta, os navios de carga são arrastados pelos ventos e correntes na direcção de Málaga, ficando os restantes à sua espera entre Tarifa e Calpe, mas acabam por se posicionar diante da cidade.

Praia de Santo Amaro Ceuta

A praia de Santo Amaro, local do desembarque das forças portuguesas

Os mouros, apanhados de surpresa, tratam de reforçar as suas defesas com a colocação de engenhos no tramo Norte das muralhas, frente á praia, onde aguardam um desembarque dos portugueses. Das aldeias vizinhas afluem cerca de 10.000 voluntários. Durante os dois dias em que se aguarda a chegada dos navios de carga dão-se escaramuças na praia, provocadas pelos guerreiros mais aguerridos de um e outro lado _ mouros que saltam para bateis e arremessam pedras e flechas aos navios atacantes, portugueses que respondem desembarcando na praia para os combater.

Após a chegada dos navios de carga voltam a soprar ventos ainda mais fortes que arrastam toda a armada para o largo. Os mouros convencem-se que os portugueses desistiram do ataque e Salah Ben Salah, governador da cidade, dispensa os reforços que haviam chegado. D. João I chega a por em causa a campanha, mas no final permanece a decisão de atacar Ceuta. Quando a armada regressa, Salah Ben Salah já não pode contar com os reforços e simula a sua presença através da iluminação de todas as casas confinantes com a muralha.

Conquista de Ceuta

Esquema da conquista de Ceuta

O plano delineado por D. João I consiste na concentração da maior parte dos navios frente à Ribeira, fixando o grosso das defesas mouras no local. Ao mesmo tempo, uma força menor seria colocada frente à Praia de Santo Amaro, onde se daria o desembarque das tropas.

No dia 21 de Agosto um contingente comandado por D. Duarte e D. Henrique desembarca na Praia de Santo Amaro, na base do Monte Abila, arremetendo contra os arrabaldes “de Baixo” e Zaklú, e evitando que os mouros encerrem a porta de Almina, que estabelecia a ligação com a cidade. A operação é bem-sucedida e as forças portuguesas penetram na cidade, conquistando-a de Nascente para Poente. Após percorrerem a Rua Direita, onde são surpreendidos por uma resistência que não esperavam, dá-se o segundo desembarque na Praia da Ribeira comandado por D. João I. A cidade está tomada.

Não é claro nas descrições de Mestre Pisano e de Zurara se o segundo desembarque se realiza no local do actual porto da cidade, na costa Norte, se na actual Praia da Ribeira, na costa Sul, no chamado Mar de Barbaçote, onde a esquadra estivera fundeada antes de ser arrastada na direcção de Málaga. Os textos referem que o desembarque se dá na Ribeira, mas não parece lógico que D. João I deslocasse o grosso da sua armada para a costa Sul, perdendo contacto com as forças desembarcadas em Santo Amaro. Para além disso, Pisano refere que “ao pôr do sol ancorava D. João, como dissera, em frente de Ceuta, e D. Henrique seguiu com os seus navios para o Monte Abila, que dali dista cerca de uma milha…”, (PINHO, 1915, obra citada) distância que não corresponderia à existente entre a Praia de Santo Amaro no Monte Abila e a Praia da Ribeira no Mar de Barbaçote.

Planta de Ceuta

Gravura de Ceuta em 1758, cartoteca digital da Biblioteca Nacional de Espanha

Segue-se o saque, o massacre de muitos dos habitantes e as violações. Lojas e habitações são assaltadas e pilhadas, lançando-se para as ruas mercadorias e bens destruídos, situação que Zurara descreve assim:

Já passavam de sete horas e meia depois do meio dia, quando a cidade foi de todo livre dos mouros. (…) As outras Companhias [de soldados portugueses], não tinham maior cuidado doutra coisa que de apanharem o esbulho. (…) Muitos que se acercaram primeiramente naquelas lojas dos mercadores que estavam na rua direita, assim como entraram pelas portas sem nenhuma temperança nem resguardo, davam com suas facas nos sacos das especiarias, e esfarrapavam-nos todos, de forma que tudo lançavam pelo chão. E bem era para haver dor do estrago, que ali foi feito naquele dia. Que as especiarias eram muitas de grosso valor. E as ruas não menos jaziam cheias delas (…) as quais depois que foram calcadas pelos pés da multidão das gentes que por cima delas passavam, e de si com o fervor do sol que era grande, davam depois de si muy grande odor.” (ZURARA, 1792, obra citada)

Fosso navegável 2

As Muralhas Portuguesas de Ceuta

A riqueza de Ceuta estava patente nos seus edifícios, cujas características provocaram a admiração dos portugueses e das tropas mercenárias, e levaram a que o saque fosse generalizado e minucioso. Os habitantes são expulsos das suas casas, que são ocupadas pelos portugueses. Os soldados cavam os pavimentos das habitações em busca de valores escondidos ou descem aos poços para tentar encontrar outras riquezas.

Zurara refere-se às casas de Ceuta dizendo que “…ali acertava por pousada grandes casas ladrilhadas com tigelos vidrados de desvairadas cores, e os tectos forrados de olivel com formosas açoteias cercadas de marmores mui alvos e polidos, e as camas brandas e moles e com roupas de desvairados lavores, como vedes que geralmente são as obras dos mouros (…) e à derradeira não temos outro repouso, senão proves casas, que em comparação destas querem parecer choças de porcos”. (ZURARA, 1792, obra citada)

Catedral de Ceuta

A Catedral de Ceuta, edificada sobre a antiga Mesquita Principal

Conforme refere Zurara, “a cidade foi de todo livre dos mouros” (ZURARA, 1792, obra citada). Muitos habitantes foram massacrados, como foi dito, sendo os sobreviventes expulsos para o arrabalde Poente. Junto à Porta de Fez, concentram-se uns milhares de pessoas que não arredam pé, chorando os seus familiares mortos que se amontoam nas praças da cidade. Durante os primeiros dias que se seguiram à ocupação, permanecem junto dos muros, dando luta permanente aos portugueses, que faziam surtidas esporádicas sem se afastarem em demasia. A zona era densamente arborizada e as ciladas eram uma constante. Muitas árvores foram então derrubadas, valados destruídos e mato queimado, com o objectivo de se criar uma zona de segurança com pelo menos uma légua de extensão, com boa visibilidade e sem condições para que os mouros se escondessem.

No final do dia, na Mesquita Principal transformada em Igreja, planeia-se o ataque ao Castelo, ainda em poder dos mouros. Mas não haverá ataque, porque Salah Ben Salah consegue fugir com o seu séquito durante a noite. No seguimento da tomada de Ceuta, D. Pedro de Meneses é nomeado governador. O exército e a armada retiram, deixando no local uma guarnição de 2.500 homens.

Ao fim de vinte dias a multidão começou a afastar-se, refugiando-se nas quintas e hortas circundantes. O conde D. Pedro de Menezes manda então construir várias atalaias, como a Atalaia da Porta de Fez e a Atalaia de Cima, torres edificadas em outeiros vizinhos, onde são colocadas as escutas, que vigiavam os movimentos do inimigo e alertavam para qualquer perigo. As atalaias davam também cobertura aos habitantes que saíam pelas portas em busca de lenha e frutas. Foram trazidos cavalos para Ceuta, já que os que tinham ficado após a tomada da cidade eram em número muito reduzido, aumentando assim o raio de acção dos portugueses e a eficácia dos seus ataques.

Atalaia Ceuta

O Forte de Aranguren, uma das atalaias de Ceuta construídas já no século XIX pelos espanhóis

A construção das atalaias e a chegada dos cavalos empurrou ainda mais os mouros para fora dos limites da cidade. Foram ocupar as encostas das Serras da Ximeira e da Gomeira e concentraram-se em aldeias e vales, como são exemplo os vales de Bulhões, Barbeche, Castelejo ou Negrão, onde se defendiam mais eficazmente das surtidas dos portugueses. O perímetro de segurança de Ceuta é aumentado para as vinte cinco léguas.

A guerra em torno da praça fez-se a partir de então de “almogaverias” ou correrias. “É a guerra de surpresas e de ciladas, aproveitando os acidentes do terreno ou a escuridão da noite.” (LOPES, 1989, pág. 43) Osalmogavares” tornaram-se numa força de elite em permanente actividade fora de portas, que fazia razias nas aldeias, roubando gado, destruindo colheitas e fazendo cativos. Eram também utilizados como força de vanguarda e de reconhecimento nas expedições de maior envergadura em que participava o exército regular.

No ano de 1418 o sultão de Fez cerca Ceuta durante cinco dias, sendo repelido pela artilharia e pelos besteiros portugueses. No ano seguinte dá-se novo cerco, desta vez com o apoio de tropas do Reino de Granada. D. Pedro de Menezes consegue avisar atempadamente D. João I, que envia uma força de auxílio. Após duas semanas de combates os sitiantes retiram com pesadas baixas.

Armada_portuguesa

Armada portuguesa, Livro de Lisuarte de Abreu, 1565

Ceuta transforma-se rapidamente na maior base de corsários portugueses, suplantando a importância de Lagos. A guerra do corso tinha como objectivos, assegurar a navegação em segurança para os navios portugueses e da cristandade em geral, combatendo os corsários da Berbéria, e sabotar o comércio entre Marrocos e o reino de Granada, que se fazia principalmente através do estreito de Gibraltar. Mas a verdade é que os portugueses, conhecidos como os maiores corsários da cristandade, atacavam de forma indiscriminada os navios mercantes, não poupando as embarcações das restantes nações cristãs, fossem genovesas, aragonesas ou castelhanas.

Inicialmente D. Pedro de Menezes só tinha ao seu dispor duas galés deixadas por D. João I à guarda de Micer Tom, irmão do Almirante, que se mostraram embarcações pouco adequadas para combater os corsários muçulmanos.

“Na altura do regresso a Portugal, após a conquista de Ceuta, João I deixou em Ceuta duas galés para guardar o Estreito e defender a praça, recém-ocupada. O tempo demonstrou, no entanto, que para reprimir a pirataria muçulmana, era conveniente usar-se um tipo de barco, rápido e ligeiro, capaz de perseguir e se aproximar do inimigo e, naturalmente, apresá-lo. Ocorreu, assim, a necessidade de se construírem embarcações menores e mais velozes, a fim de se adaptarem às águas da bacia do Mediterrâneo e do «Mar das Éguas». Também se verificou o recurso a lenhos capturados pelos corsários, que iam engrossar a marinha de guerra portuguesa. A coroa e, em particular, Ceuta assimilaram esta experiência funcional, ao optarem pelo fabrico de naves de baixa tonelagem, adaptadas à singularidade de navegação no Estreito. Ao menor porte, exigia-se que fossem céleres. Ora, uma pequena vela actuava em qualquer praia, ancoradouro, enseada, o que não acontecia com outras de maiores dimensões, que exigiam lugares mais apropriados.” (CRUZ, 2003, pág. 54)

Fusta

Fusta com pavilhão português, de Jan Huygen van Linschoten, Koninklijke Bibliotheek, Holanda

O primeiro navio construído foi uma fusta baptizada “Santiago Pé de Prata”, cujo comando foi confiado ao corsário Afonso Garcia, homem que nutria um ódio muito particular pelos mouros, dado que passara algum tempo nas masmorras de Marrocos. Seguiu-se a construção de outros barcos de pequeno porte e a utilização de navios aprisionados. “Do que foi dado a estudar, a frota portuguesa empregou, preferencialmente, a fusta e o bergantim, seguido da galeota e da barca e, com menor expressão, a barqueta, galé, além da caravela e alaúde”. (CRUZ, 2003, pág. 55)

Muitos nobres mantinham frotas de corso em Ceuta, a começar por D. Henrique e D. Pedro, cujas embarcações circulavam entre a cidade e Lagos. Outros estabeleceram-se em Ceuta e aí geriam os seus negócios, como Micer João de Salla-Nova, Diogo Vasques ou Fernão Guterres. Muitos estrangeiros também utilizavam Ceuta como sua base, principalmente genoveses e aragoneses, como Pêro Palau ou Benito Fernandez.

Do lado dos mouros ficaram também nomes de corsários célebres na guerra de Ceuta, como Abenzagão, Bucar Caudil e Benzaguete. Mas o maior de todos, temido pela sua coragem e pela ousadia dos seus ataques, foi um corsário conhecido pelo nome de “o Esnarigado”, que chegou a fazer cativos portugueses na península de Almina.

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Ataques corsários portugueses realizados a partir de Ceuta, referenciados nas crónicas de Zurara

O aumento do número de corsários e dos recursos navais expandiu a actividade para o Mar de Alborán, a Leste, até ao Cabo Gata e para a costa Atlântica de Marrocos até Anafé. A esta expansão da actividade do corso correspondeu também o aparecimento das incursões em terra, muitas vezes de forma concertada com a marinha de guerra e a tropa regular, saqueando aduares com o objectivo de fazer cativos e pilhar gado, colheitas e outros bens.

“Como nos faz crer Zurara, era difícil a Ceuta manter-se sossegada: ora se faziam entradas território adentro, ora incursões marítimas”. (CRUZ, 2003, pág. 50)

A Ceuta afluíam muitos aventureiros em busca de fortuna, nobres que procuravam fama e honra, degredados que expiavam os seus crimes.

Muralhas de Ceuta 3

As Muralhas Reais de Ceuta

“A tomada de Ceuta, em 1415, marcou, não só o início da expansão ultramarina, mas também o ponto de viragem na política de degredo. Isso porque a conquista de Ceuta assinala o início do degredo colonial. Com ela, os portugueses davam início a uma prática que iria perdurar por cerca de 5 séculos: o envio de condenados para as franjas do império.” (TOMA, 2004, pág. 5)

A pena do degredo trazia para o estado inúmeras vantagens. Permitia a condenação de grande número de pessoas sem o problema da sua logística, evitando as despesas relacionadas com o funcionamento das prisões, afastava o condenado do local do crime e da sociedade e satisfazia as necessidades de povoamento e mão-de-obra de determinadas regiões. Para além disso a pena era cumprida em relativa liberdade e o condenado podia exercer funções remuneradas, facilitando a sua reintegração e eventualmente a sua fixação definitiva no local do degredo.

Antes da conquista de Ceuta já existiam dois tipos de degredo _ o degredo territorial, cumprido nas regiões mais recônditas do país, geralmente no Algarve, e o degrado nas galés, para crimes mais graves, que implicava um grande sofrimento físico do condenado, que era colocado numa situação de extrema precaridade, e correspondia de facto, na grande maioria dos casos, a uma pena de morte.

Fosso de S. Felipe Ceuta 1

As Muralhas Reais de Ceuta

Os crimes punidos com o degredo eram crimes de pequena e média gravidade, já que a legislação da época, concretamente as Ordenações Afonsinas, previa penas muito duras para a generalidade dos crimes de maior gravidade, como a pena de morte na fogueira ou por enforcamento, “as penas atrozes”, como suplícios vários, incluindo o corte dos membros e da língua, a marca de ferro ardente, os açoutes na via pública, para além é claro da pena de prisão régia.

As penas de degredo variavam entre três, cinco e dez anos. Os crimes punidos com o degredo eram por exemplo os crimes de “lesa-majestade” de segunda cabeça, relacionados com a quebra de segurança real, a causa de morte de reféns ou condenados, a traição, a conivência na fuga de prisioneiros, as ofensas a oficiais de justiça, o desrespeito pelas sentenças dos tribunais e os crimes de falsificação de moeda; eram também o caso dos crimes “contra o património”, como a causa de dano para proveito próprio, a destruição de cercas, a alteração da posição de marcos, o trespasse de habitação particular, a utilização de falsas medidas e falsos pesos, o jogo com dados falsos, o suborno e a venda de material proibido; eram os crimes “contra a pessoa, sua honra e reputação”, como a injúria e o insulto; eram os crimes “contra a moralidade”, como dormir com moça virgem ou viúva honesta, o adultério por parte da mulher, desde que perdoado pelo marido, possuir uma barregã ou concubina, ser amante de clérigo, as relações com parentes e a rufiagem, “ou prática de sedução de mulheres retiradas da sua família em concubinagens, hospedando-as em albergues para dormir publicamente com homens de passagem e tendo o alcoviteiro todo o dinheiro que elas ganham no dito pecado”. (PIERONI, 2013, pág. 18)

Surgem assim identificados nos textos como degredados para Ceuta muitos rufiões, prostitutas, concubinas, barregãs, mariolas, vilãos, alcoviteiros, insultadores, falsificadores e outros que tais.

Ceuta é referida muitas vezes nos textos da época como o “presídio de Ceuta”. Ocupada essencialmente por militares, corsários e condenados, esvaziada da sua população, privada de actividades comerciais e dependente de abastecimentos exteriores, a vida na cidade não se estruturava como numa comunidade urbana tradicional, com a agravante de se encontrar isolada do território rural circundante.

Infante

D. Henrique foi o grande vencedor com a conquista de Ceuta. Os poderes que recebeu na altura deram-lhe uma enorme força militar e “amplos rendimentos em moeda e em género”. (MARQUES, 1973, pág. 207)

 “Com a decisão de manter Ceuta como domínio luso, em 1416 D. Henrique recebeu os cargos de vedor e superintendente dos negócios de Ceuta e da defesa marítima da costa algarvia contra a pirataria berbere, e para provê-lo dos recursos necessários para tal feito, D. João I, com anuência do papado, nomeou o Infante D. Henrique governador e regedor da Ordem de Cristo no ano de 1418.” (BERTOLI, 2007, pág. 96)

Oliveira Marques aborda o percurso de Henrique a partir da conquista de Ceuta e o enorme império económico que construiu. “As viagens de descobrimento, se podem ter interessado o infante D. Henrique (…) foram não obstante encaradas, antes de mais nada, como uma maneira de aumentar património e receitas, constantemente em maré baixa devido aos seus empreendimentos políticos e militares e à sua casa opulenta. (…) Tem interesse notar que muitos desses esforços se relacionaram com a pesca e actividades marítimas, incluindo a pirataria e a guerra de corso.” (MARQUES, 1973, pág. 208)

A política expansionista africana personificada pelo infante D. Henrique, foi uma política belicista que promoveu os interesses da nobreza, interessada na obtenção de riqueza através dos saques, anexações de territórios e do tráfico de escravos, em detrimento dos interesses da burguesia, baseados nas transacções comerciais e no mercantilismo.

O Infante em Ceuta

Estátua do Infante D. Henrique em Ceuta

Henrique inclusivamente manipulou as crónicas da época, escritas por Gomes Eanes Zurara, criando uma imagem ideal da sua pessoa, que foi transportada até aos nossos tempos, dando origem ao mito do “Navegador”.

Segundo André Bertoli, “A Crónica da Tomada de Ceuta é o relato oficial do ataque à dita praça marroquina. Tal Crónica foi iniciada em 1449 e terminada no ano seguinte, ou seja, 35 anos após a conquista de Ceuta. Como se pode notar, essa obra contém um discurso legitimador da política expansionista portuguesa empreendida após a conquista de Ceuta e um elogio a grandes nobres do reino, dos quais o Infante D. Henrique foi especialmente destacado.” (BERTOLI, 2007, pág. 96)

Nessa crónica, primeira obra do cronista, D. Henrique surge como o protagonista da operação, relegando para segundo plano o seu pai, o Rei de Portugal D. João I, os seus irmãos D. Duarte e D. Pedro.

“…O rei não foi um personagem de grande destaque na acção (…) foi narrado o ataque e conquista de Ceuta, onde o rei aparece como um personagem coadjuvante (…) o mérito da tomada de Ceuta na narrativa de Zurara recaiu, em sua maioria, sobre D. Henrique, reduzindo o papel de seus irmãos D. Duarte e D. Pedro, além do próprio monarca D. João.” (BERTOLI, 2007, pág. 97-98)

Conquista de Ceuta

O Infante D. Henrique na conquista de Ceuta num painel de azulejos de Jorge Colaço na
estação de S. Bento, Porto

Zurara constrói um perfil ideal para D. Henrique, que surge na crónica como um cavaleiro ao serviço da fé e da pátria, movido por valores e ideais cruzadísticos. O domínio de Henrique sobre Zurara explica-se facilmente por dois factos. Henrique era o último sobrevivente dos acontecimentos de Ceuta, não existindo ninguém para contestar a crónica, e Zurara fora contratado pelo próprio Henrique, que inclusivamente participara na elaboração do texto:

“Como se pode averiguar, Zurara foi feito cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo pelo seu governador, o Infante D. Henrique. O que levou a conclusão de que esses dois personagens tinham relações em comum, na qual o cronista foi favorecido com um cargo importante dentro de uma ordem militar religiosa, enquanto D. Henrique ganhou papel de destaque em um dos escritos mais importantes do período, o que lhe aumentou seu prestígio como cavaleiro cristão português (…) no último parágrafo da página 43, (Zurara) afirmou que o Infante D. Henrique colaborou com ele ao relatar suas memórias.” (BERTOLI, 2007, pág. 96-97)

Como escreveu Oliveira Marques, “Parece estar bem estabelecido que, de todas as viagens que conhecemos, realizadas entre 1415 e 1460 (data da morte do Infante), só cerca de um terço foram devidas a iniciativas suas. Os outros dois terços deveram-se ao rei (D. João I, D. Duarte, D. Afonso V), ao regente D. Pedro, aos senhores feudais, aos mercadores e terratenentes vilãos, etc. (…) Este facto, sem obliterar o papel desempenhado pelo infante D. Henrique, reduz consideravelmente a sua chefia a uma dimensão mais humana e mais medieval.” (MARQUES, 1973, pág. 209)

Bibliografia:

BERTOLI, André Luiz. “Uma Leitura Possível da Crónica da Tomada de Ceuta, levando em conta a Representação do Infante D. Henrique nessa obra de Zurara”. Sociedade em Estudos, Curitiba, 2007

CRUZ, Abel dos Santos. “A Guerra naval no «Mediterrâneo Atlântico» (1415-1437): relatos do corso português no texto literário de Gomes Eanes de Zurara”. Universidade Portucalense Infante D. Henrique, 2003

CRUZ, Abel dos Santos. “A Nobreza Portuguesa em Marrocos no Século XV (1415-1464)”. Porto 1995

FARINHA, António Dias. “Os Portugueses em Marrocos”. Instituto Camões, 1999

LOPES, David. “A Expansão em Marrocos”. Editorial Teorema, Lisboa, 1989 (Publicação original BAIÃO, António, CIDADE, Hernâni e MURIAS, Manuel . “História da Expansão Portuguesa no Mundo, 3 vols. Editorial Ática. Lisboa, 1937)

MARQUES, A. H. de Oliveira. “História de Portugal”. Volume I. Edições Ágora, Lisboa, 1973

PIERONI, Geraldo. “Banidos para o Brasil. A Pena do Degredo nas Ordenações do Reino”, 2013

PINHO, Roberto Correia. “Livro da Guerra de Ceuta, escrito por Mestre Mateus de Pisano em 1460”. Academia das Ciências de Lisboa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1915

TOMA, Maristela. “O Degredo no Contexto do Império Português”. ANPUH/SP-UNICAMP, 2004

VILLALOBOS, Luís. “A Conquista de Ceuta”. Blog Conquista de Ceuta, 3 de Março de 2006

ZURARA, Gomes Eanes. “Crónica da Tomada de Ceuta por el rey D. João I” (1450). in CORREA DA SERRA, José. “Collecção de Livros Inéditos de História Portugueza, dos reinados de D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II”, Vol. II. Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1792

ZURARA, Gomes Eanes. “Crónica do Conde Dom Pedro de Menezes”. Academia da Ciência de Lisboa 1792

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    O Forte e muralhas de Ceuta é das obras primas mais importantes da engenheria militar portuguesa – vi esse forte de S. filipe e como há séculos se fazia tal tesouro do mundo e hoje temos Motas Soares – revisitar os lugares e monumentos dos portugueses é nem podem acreditar ao que foi feito e ao que se chegou hoje – claro que espanha e frança e inglaterra andaram sempre atrás do cú dos portugueses coitados e a aliança com os ilhéus saíu cára demais – ainda sai – mas a decadência de hoje do país nem tem a ver com esses saquedores – não é preciso “sair de casa” – estáo cá dentro e há os que lhe dão abrigo

  2. Ceuta, saudade e tristeza

    “Señora, señora, mu fresco” gritavam-me, acenando vigorosamente, os marroquinos das tendas de peixe do mercado aonde ia todas as manhãs. Disputavam-se em árabe para conseguir a cliente, ao mesmo tempo que me sorriam amplamente chamando “Senõra, aquí, señora”. Tratavam-me tão bem. Mostravam-me as guelras vermelhas dos peixes e faziam-me cheirar o marisco. “Mu fresco, mu fresco!”. A princípio custava-me escolher um vendedor em detrimento dos outros. Depois, pensando na melhor maneira de evitar essa “injustiça” de me dirigir só a um, optei por comprar um dia em cada tenda. A simpatia e o respeito que tão naturalmente pareciam nutrir por mim faziam com que a minha despedida com um profundamente reconhecido “shoukran” me parecesse sempre insuficiente.

    Quando chegava a casa, entranhado na roupa e na pele o aroma forte das especiarias, Azma, a minha querida empregada que, diariamente, se deslocava de Tetouan até minha casa para me ajudar nos trabalhos domésticos, vinha ao meu encontro, olhava para os peixes e mariscos com ar entendido, cheirava-os e murmurava com a sua adorável modéstia “mu frescos, señora”. E lá ia ela cozinhá-los como só ela sabia fazer.

    A compra da carne estava a cargo dela. Como eu fazia questão que ela partilhasse sempre das nossas refeições, era a Azma que ia ao talho do Ahmed comprar a carne de animais mortos segundo a tradição muçulmana. Que saudades tenho do “cordero com cous-cous” que ela tão bem preparava!

    Por vezes tocavam à campainha e normalmente era o meu companheiro que abria a porta. Era o Mohamed, o dono do barzinho lá do sítio, entradote, muito moreno e de rosto sisudo, que entregando-lhe um prato coberto com um guardanapo, dizia com voz rouca “Esto es pa su mujé”. Eram “boquerones en vinagre” que ele próprio confeccionava. E como sabia que eu gostava muito, mesmo que durante semanas nem sequer nos cruzássemos, lá vinha ele, de quando em quando, com um prato cheio deles para me oferecer.

    Ceuta, um punhado de quilómetros quadrados na costa onde o Atlântico e o Mediterrâneo se beijam. Que racismo constatei por parte dos espanhóis. Daí a minha tristeza! Que estupidez quererem um território cujas mais profundas raízes são indubitavelmente marroquinas. Por muito que a História diga o contrário, Ceuta jamais foi portuguesa e jamais será espanhola. Ceuta é Marrocos, Ceuta é Islão, daí a minha saudade! E ao recordar tudo isto, quase que sinto na boca o paladar único do “té de menta” com que a Azma tantas vezes me brindava!

    Caro Frederico, obrigada! Este seu post foi muito especial para mim!

  3. Amadeu says:

    É pena que o degredo para Ceuta no caso dos crimes “contra o património”, como a causa de dano para proveito próprio, já tenha acabado.
    Dava cá um geito agora.

    • Frederico Mendes Paula says:

      É verdade. Na política portuguesa actual também há muitos rufiões, mariolas, vilãos, galifões, barregãs, concubinas, alcoviteiros, falsificadores e outros que tais…

  4. antonio cristovao says:

    Belo post. Sobre os D.henriques de hoje nao se esquecam que nao foram la postos pelo pai, foram mesmo por nos!! ainda me lembro quandoo os psd entre passos e f.leite escolheram o incompetente.

  5. maria david eloy says:

    Excelente trabalho! Gostei do que li, das imagens que vi e aprendi bastante com os aspectos técnicos focados. Ceuta foi para mim o primeiro contacto com África, nos longínquos anos 60. Atmosfera especial, odores, culturas cruzadas e aquele forte tão carismático, ponta de referência especial do nosso Portugal de outrora. Muito obrigada, Frederico Mendes Paula, por esta lição de história!

  6. Miguel Ángel Ortiz says:

    La representación que hace del día del desembarco no es exactamente así. Las dos partes en que se dividió la flota, una fue a la bahía sur y la otra, la que desembarca fue al norte (bien representada esta ultima en el lugar que lo hizo). Si es cierto que el primer intento de desembarco del día 14 víspera de la Asunción, las dos partes de la flota se situaron tal como ha dibujado.

    • Frederico Mendes Paula says:

      Caro amigo
      Agradeço a questão que coloca, que tem sido para mim uma dúvida que sempre tive sobre o desembarque português. Este artigo foi reformulado neste link _ https://historiasdeportugalemarrocos.wordpress.com/2014/02/22/a-conquista-de-ceuta/
      Nesta nova escrita a questão é por mim abordada, com o seguinte texto:
      “No dia 21 de Agosto um contingente comandado por D. Duarte e D. Henrique desembarca na Praia de Santo Amaro, na base do Monte Abila, arremetendo contra os arrabaldes “de Baixo” e Zaklú, e evitando que os mouros encerrem a porta de Almina, que estabelecia a ligação com a cidade. A operação é bem-sucedida e as forças portuguesas penetram na cidade, conquistando-a de Nascente para Poente. Após percorrerem a Rua Direita, onde são surpreendidos por uma resistência que não esperavam, dá-se o segundo desembarque na Praia da Ribeira comandado por D. João I. A cidade está tomada.
      Não é claro nas descrições de Mestre Pisano e de Zurara se o segundo desembarque se realiza no local do actual porto da cidade, na costa Norte, se na actual Praia da Ribeira, na costa Sul, no chamado Mar de Barbaçote, onde a esquadra estivera fundeada antes de ser arrastada na direcção de Málaga. Os textos referem que o desembarque se dá na Ribeira, mas não parece lógico que D. João I deslocasse o grosso da sua armada para a costa Sul, perdendo contacto com as forças desembarcadas em Santo Amaro. Para além disso, Pisano refere que “ao pôr do sol ancorava D. João, como dissera, em frente de Ceuta, e D. Henrique seguiu com os seus navios para o Monte Abila, que dali dista cerca de uma milha…”, (4) distância que não corresponderia à existente entre o Abila e Barbaçote.”
      Ou seja, de facto as referências dizem que o segundo desembarque é feito na Praia da Ribeira (baía Sul), mas sempre me fez confusão que as forças portuguesas se dividissem tanto e por outro lado a distância entre as duas armadas só coincide com as descrições se o desembarque fosse realizado na costa Norte. Mas possivelmente terá razão. Existe algum texto que refira categoricamente que o segundo desembarque é feito na baía Sul?
      Obrigado pelo seu comentário e cumprimentos

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  1. […] e suas famílias, que, juntamente com os fidalgos que ali buscavam fama, os fronteiros, e com os degredados, formavam o grupo dos habitantes que residiam em Mazagão por um período de tempo limitado. Do […]

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