Carta aberta a um jovem treinador

por António M. C. Carvalho


Nos princípios deste ano enviei esta carta aberta, por e-mail, ao Jornal do Sporting, com pedido de publicação. Não foi merecedora da divulgação que eu julgava interessante para o público leonino e, em certa medida, útil ao então recente e jovem treinador.

No dia 25 de Setembro, dadas as pobres exibições da equipa que ia vendo pela televisão, temendo o pior, escrevi uma carta a Sá Pinto, em correio azul e com aviso de recepção.

Até hoje, 8 de Outubro, não sei se a recebeu !!!.

CARTA ABERTA A UM JOVEM TREINADOR
Em louvor do WM e do “jogar à Sporting”

 Reconheço que não havia razão nenhuma para me alegrar quando li nos jornais que os jogadores do meu clube de sempre iam voltar a jogar “à Sporting”. Foram as saudades de ver jogar bom futebol que me induziram em erro…

Sonhei que voltaria a ver o futebol dos 5 violinos, ou o futebol que, antes deles, jogavam o Mourão, o Pireza e o João Cruz… para só falar de avançados!

Na realidade, o novo “mister” do Sporting, nem sequer era então nascido, não há filmes que os recordem e os livros que mestre Cândido escreveu jazem infelizmente ignorados.

Passados que são mais de 60 anos, já são poucos os que se lembram de ver jogar o Jesus Correia, o Vasques, o Peyroteu, o Travassos e o Albano´. Por isso e antes que a memória me atraiçoe, vou tentar dar testemunho do que era, nos finais dos anos 40, a essência da sua arte de jogar à bola, o ”jogar à Sporting”

O futebol era então um jogo de “pares”. Havia marcação de homem a homem, por vezes levada a exageros de anedota.

Hoje corre-se o dobro do que seria necessário, numa tentativa de perturbar o adversário quando este já tem a bola dominada, e dá-se uma liberdade escandalosa aos avançados para rematarem ou fintarem já perto da grande área.

Havia um avançado centro, cuja missão principal era marcar golos e dois extremos que procuravam tornear a defesa contrária e centrar atrasado, fora do alcance do guarda-redes.

Hoje com os mirambolantes sistemas em voga, afunila-se o jogo e os centros feitos pelos “médios alas” (já sem fôlego para irem à linha de fundo), são quase sempre facilmente interceptados ou não encontram ninguém nas pontas em posição de os poder aproveitar.

Estes três jogadores atacantes eram apoiados pelos dois avançados interiores que tinham atrás de si outros dois jogadores, estes com funções essencialmente defensivas. Os quatro formavam o tal quadrado mágico, determinante no bom jogo da equipa.

Hoje é o desenrasca, o improviso e, na maior parte dos casos, o passe mal feito e a marcação falhada.

Na prática, as jogadas na matriz WM eram adaptadas às características dos jogadores disponíveis.

Hoje, são os jogadores, quaisquer que sejam as suas habilidades que se têm que encaixar no 442, ou no 433, ou no 531, ou qualquer outro pseudo sistema da simpatia do treinador.  Se falta alguém para integrar no sistema adoptado, não há problema: compra-se… Alguém há-de pagar.

Treinavam-se jogadas para levar a bola em passes de 2 ou 3 jogadores até à grande área adversária. Cada jogador sabia assim para onde a bola ia ser encaminhada, sempre para a frente, porque, dizia-se, “para trás mija a burra”.

Hoje pode-se ver que os passes para trás e para o lado são os mais numerosos, provando que não há treino de jogadas de ataque. Passa-se para trás, porque não se sabe o que fazer à bola.

Uma regra de ouro mandava que logo que a equipa perdesse a bola, todos os jogadores deviam jogar à defesa, marcando cada um o seu adversário que estivesse no nosso meio campo.

Hoje os avançados, depois de um ataque falhado, ficam “alheados do jogo” , à espera que os colegas da defesa consigam apanhar a bola para lha passar.

Com equipas mais fracas, o Sporting não as remetia ao seu meio campo. Pelo contrário, recuava os avançados para iniciarem as manobras de ataque no próprio meio campo e poderem desenrolar com êxito os seus esquemas de ataque. A média de golos por jogo chegou a ser superior a 5, (não hei-de ter saudades ?)

Hoje, o que acontece com equipas mais fracas é o que se vê. Domínio absoluto no tempo de posse de bola, dificuldade enorme em furar a defesa reforçada da outra equipa. Corações em sobressalto com receio de que num contra-ataque ou lance de bola parada o Sporting fique empatado ou perca o jogo.

Um pequeno pormenor. Todos os atacantes do Sporting rematavam bem à baliza mas não festejavam os muitos golos que marcavam. Quando muito, quem marcava ia agradecer a quem lhe passara a bola.

Cândido de Oliveira achava que não era desportivo achincalhar o adversário!…

Hoje, com profissionais muito bem pagos, são as fantochadas comemorativas da marcação de um golo, depois de terem falhado dezenas de oportunidades…

Por último. Desde Carlos Queiroz que venho tentando alertar os treinadores que têm passado pelo Sporting da necessidade de repensarem a maneira de jogar das equipas sportinguistas. Sinceramente, não creio que o “jovem treinador” a quem dirijo estas linhas pense imitar Cândido de Oliveira. Pelo menos num aspecto sei que não o poderá fazer e ninguém lho levará a mal. Mestre Cândido treinou o Sporting, por amor à arte, de borla.

29 de Fevereiro de 2012
António M. C. Carvalho (simpatizante do S.C.P e membro do Conselho Geral em 1966)

Comments

  1. Amadeu says:

    Sou Benfiquista desde piquinino e nunca me passou pela cabeça, quando o Benfica está na mó de baixo, de sonhar com o jogar à Benfica do Eusébio, do Coluna, do Torres, do Simões.
    Não há dúvida. O amigo vive noutra época. É um saudosista à espera dum cândido Sebastião, do regresso dum tempo que já não volta mais.
    Basta ir ao estádio e ver o Alvaláxia na mais profunda decadência (com um nome daqueles também nunca poderia ir longe). Dá dó. De 3 em 3 anos esqueço-me e volto lá ao cinema. Não há ninguém na SAD que dê a volta àquilo !!
    Quanto mais à equipa de futebol. É uma questão de tempo. Vão-se transformar num outro Belenenses.
    (Aaaaahhh. Já me sinto melhor. Não há nada como cascar no Sporting para me esquecer das TSUs, IMIs e IRSs)

  2. Hugo says:

    O que esse simpatizante treinador de bancada não percebeu é o facto de nas últimas décadas o jogo ter mudado especificamente para anular o efeito desse estilo de jogo arcaico e ineficaz. Ter um avançado centro acampado na grande-área já não funciona, nem essa ideia que fazer sistematicamente os 3 passes de sempre. O jogo desenvolveu-se para anular essa estratégia de ataque e para tomar proveito das completas falhas da defesa. Talvez o simpatizante treinador de bancada tivesse percebido isso se ao longo destas décadas tivesse assistido a um jogo de futebol.

    • António M. C. Carvalho says:

      Meu jovem amigo,
      O que quererá dizer com “estilo de jogo arcaico e ineficaz” ? Por acaso sabe que o Sporting nos anos 40 chegou a marcar, em média, 7 golos por desafio?
      O avançado centro não estava “acampado” e, ao contrário dos actuais “pontas de lança”, sabia rematar à balisa.
      Ainda não reparou no afunilamento sistemático das jogadas de ataque devido a não existirem os antigos extremos direito e esquerdo? ´Não viu como os jogadores das defesas parecem baratas tontas a querer interceptar, fora de tempo, os passes dos adversários?
      Nunca fui treinador, nem de bancada, mas sim espectador atento. Hoje tenho a possibilidade de ver inúmeros jogos pela televisão e, até, de os gravar para analisar melhor.
      Infelizmente não tenho videos dos jogos dos “cinco violinos”… mas acredite em mim, o futebol era muito mais bonito no meu tempo de jovem.

  3. António M. C. Carvalho says:

    Não é, creio eu, uma questão de saudosismo ! Nem estou à espera de nenhum D. Sebastião ! Já não tenho idade para ter ilusões !
    É mais uma questão de revolta por ver a impossibilidade de “acordar” os que verdadeiramente gostam de futebol para a fraude monumental que é o futebol-negócio, ou os negócios do futebol.
    Eu, se fosse benfiquista, ao recordar as equipas que ganharam Taças Europeias só com jogadores portugueses e a jogar bom futebol, sentiria revolta e vergonha pelo Benfica, tão falido como o Sporting, apresentar em campo equipas quase só com jogadores estrangeiros e a jogar como jogam.
    Questão de feitios !

    • Amadeu says:

      Futebol negócio ? Qual é o mal ? Se for futebol espetáculo, futebol desporto, que seja negócio. As SADs não podem entrar em insolvência ? Já os negócios do futebol … não os houve sempre ??

      O António vive numa ilusão pré globalização, em que os tomates eram todos portugueses, em que mais ou menos isolados do resto do mundo fazíamos grandes feitos no futebol com a prata da casa.
      Não vê que agora exportamos a prata (Ronaldos & Cias.) ?

      Se calhar devia-se expulsar os estrangeiros, principalmente os riquíssimos emigrantes estrangeiros jogadores de futebol. A ganharem balúrdios à nossa conta. Malandros.
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Chauvinismo

      Questão de mentalidade.

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