Por falar em manipulação

ImagemA jornalista Patrícia Silva Alves, de quem já li outras coisas na Visão, no i e por aí na blogosfera (umas, com interesse; outras, nem tanto), publicou na última Sábado um trabalho sobre manipulação de dados. Sob o título “Como usar os números para enganar”, a plumitiva usa o exemplo da Argentina, onde a inflação oficial é de 10%, e peritos internacionais apontam para 25%.

A Revista The Economist terá mesmo abolido como referência nos seus indicadores os dados oficiais, sob o argumento de que “estamos cansados de compactuar com o que parece ser uma tentativa de enganar votantes e investidores”. O caso é tanto mais grave quanto é certo que o FMI deseja suspender o direito de voto do país enquanto não forem emitidos dados fiáveis.

A ser verdade o que se afirma ali, e nada nos move em contrário, a McDonald’s terá articulado com o governo um preço abaixo da tabela para o Big Mac (será o mais barato de menu), usado pela revista The Economist para medir o custo de vida em vários países. Sendo a jóia da coroa e o hambúrguer mais famoso da cadeia, aquela multinacional tenta contornar o preço baixo ao tirá-lo da circulação em muitas das suas lojas, obrigando a que se consumam hambúrgueres mais caros.

ImagemOutro país a entrar nesta guerra é a Espanha, com os preços dos combustíveis: descem à segunda-feira, dia em que as gasolineiras reportam os preços à União europeia, e sobem-nos na mesma percentagem à terça, cerca de 1%, uma forma de as petrolíferas ficarem bem na fotografia, bem como o governo que, em Setembro, pediu contenção nos preços dos combustíveis.

Já na China, a aprender depressa as regras do capitalismo selvagem, falsos clientes de casas faziam subir o interesse nas vendas, permitindo que os construtores pudessem subir os preços dos imóveis, ganhando mais. Ora, como a China é muito grande, e o governo apresentava dados da média nacional, estes esquemas ficavam diluídos pelas cidades mais pequenas. Com a publicação dos resultados por cidade, tendo ainda sido retirados da análise os prédios para investimento, as médias terão baixado, mas não deixa de ser exemplar que o preço tenha triplicado com o esquema anterior, e em Março de 2012 os preços tenham subido 11,7% em 70 pequenas cidades do país…

Imagem

Voltando a Espanha, Madrid era, em 2011, uma cidade poluidíssima: a maioria das estações de medição registava níveis de dióxido de azoto cinco vezes superiores ao permitido por lei. Hoje, Madrid continua com esse flagelo. Mas, se consultar os índices, eles dir-lhe-ão que desceu 30%!

Como?! Simplesmente, desactivando – fazendo-as desaparecer – as estações colocadas nas zonas mais poluídas da cidade. E está salva a honrado Ayuntamiento que, numa penada, fez baixar drasticamente a poluição… Para todos os efeitos estatísticos.


Em termos de manipulação informativa, não falar dos EUA seria um sacrilégio! Nova Iorque, a crer nas estatísticas, será uma das cidades mais seguras do país: o número de crimes violentos baixou 80% relativamente a 1990.

Para a consecução do milagre, apenas isto: juntar todos os roubos ocorridos num prédio (daqui a pouco, no bairro…) num só, como terá sugerido o comandante de uma esquadra de Nova Iorque num breefing. Ou, como dizia outro, “suavizar” a linguagem dos relatórios: assédio passa a chamar-se perseguição; grande furto passa a pequeno; o roubo muda o nome para ofensa criminal, seja lá o que isso for…

Descendo até ao Brasil, onde as Universidades têm também rankings, como melhorar posições? O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes é o barómetro que permite avaliar a qualidade dos estabelecimentos de ensino. Se só os melhores fizerem esse exame, os resultados da Universidade subirão nas médias nacionais. O esquema, iniciado em 2011, foi descoberto e, em 2012, 30 universidades foram investigadas por suspeita de manipulação deste exame. A retenção dos alunos no penúltimo semestre, para não passarem de ano e não se inscreverem no exame para recém-licenciados, parece ter sido um dos métodos usados. Outro, que chamou a atenção do Ministério, foi o facto de haver muito menos alunos presentes a exame do que os que estavam habilitados a inscrever-se.

A dupla contabilidade, que tem enchido milhões de páginas de jornais e milhares de horas de televisão e rádio, é um fenómeno global. Claro que, com o peso universal da sua população, a China, com alguma abertura, eufemísticamente tímida, vai mostrando alguns índices preocupantes. Sabe-se agora, por exemplo, que os governos regionais de algumas províncias, para revelarem melhor desempenho económico, combinavam as versões que as empresas privadas deveriam remeter ao Instituto Chinês de Estatística: o próprio governo provincial enviava às empresas, por email, os dados que deveriam reportar, ou, mais prático, ditavam-nos por telefone… A bronca deu-se quando o PIB das províncias chinesas, em 2011, foi superior em 558 mil milhões de euros face ao PIB do país, quando deveria ser igual…

Quer ver-se livre dos emigrantes ilegais nas estatísticas? Siga o exemplo dos Estados Unidos. Prenda-os na fronteira, reenvie-os para o país de origem, mas nunca – mesmo nunca – os registe. Emigrante clandestino sem registo não existe, certo? Larry Dever, xerife norte-americano, terá dito à Fox News que conhecia casos de pessoas deportadas mais de duas dezenas de vezes sem que haja registos.

Como reflexo, o número de apreensões terá descido 36% nos últimos dois anos, na versão oficial do responsável pelo controlo de fronteiras. Elementar!

Comments

  1. Maquiavel says:

    Será que o FeMI também vai retirar o direito de voto aos EUA, por aldrabar as estatísticas relativas, por exemplo, à inflaçäo?
    Já há muitos anos que li que o truque usado na altura para esconder inflaçäo era de meter “produtos substitutos” no cabaz de compras (num ano era vaca, no outro era frango, e por aí fora).
    Hoje em dia, como nem com esse truque conseguem esconder a inflaçäo, väo mais longe, pegando no “cabaz de compras” e… retirando-lhe, por exemplo, os combustíveis e os alimentos!
    http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Consumer_Price_Index

    Some critics believe that changes in CPI calculation due to the Boskin Commission have led to dramatic cuts in inflation estimates. They believe that using pre-Boskin methods, which they also think are still used by most other countries, the current U.S. inflation is estimated to be around 7% per year.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.