O PCP tem memória

O PCP não consagrou o voto de pesar pela morte de Jaime Neves, que a AR aprovou com os votos do PSD, PS e CDS-PP.

António Filipe, em nome da bancada comunista, disse respeitar “os sentimentos de pesar da sua família, amigos e admiradores”, mas acrescentou: “Compreenda-se, portanto, que em coerência e honestidade, nós não nos podemos associar à homenagem da Assembleia da República ao major-general Jaime Neves”, que tomou “como é sabido uma posição explicitamente no sentido da ilegalização do PCP“.

Rematando, aquela figura comunista, consumou: “Independentemente do que se possa dizer da participação do major-general Jaime Neves no 25 de Abril, no Movimento das Forças Armadas, temos presente que, após os acontecimentos de 25 de Novembro, se foi possível evitar um gravíssimo confronto entre portugueses e se foi possível criar condições para que o regime democrático prosseguisse tal foi devido ao sentido de responsabilidade de personalidades como o general Ramalho Eanes, como Melo Antunes, como o marechal Costa Gomes e não tanto relativamente à posição assumida pelo major-general Jaime Neves“.

Não deixa de ser estranho que, ao dissociar-se do voto de pesar, o PCP tenha, dessa forma, libertado Jaime Neves, nome de código “Sansão” nos acontecimentos militares que garantiram a democracia. Pelo menos, deixaram o seu espírito partir em paz, ele que se teria remexido no caixão se os comunistas tivessem chorado oficialmente a sua morte.

De realçar que António Filipe, como nos habituou, foi digno nesta declaração. Digno e, sobretudo, herdeiro da memória colectiva dos comunistas portugueses que nunca perdoaram ao comando dos comandos a participação acalorada no 25 de Novembro. Estamos para ver (e eu, se cá estiver ainda) se, quando Eanes partir, o porta-voz comunista da altura vai subscrever o “sentido de responsabilidade” deste general na consolidação do 25 de Novembro. Melo Antunes e Costa Gomes eram farinha de outra ceifa.Imagem

Comments


  1. Estúpido…

  2. Amadeu says:

    Abram a janela …

  3. Maquiavel says:

    Em Chawola, Wiriyamu e Juwau também näo se esquecem dele.


    • Quando escrevi este post, o que me importou foi a memória dum partido que não esqueceu o seu arqui-inimigo. Na campa de “Sansão” poderão nascer flores, mas não plantadas pelo PCP (“Na campa do nosso pior inimigo também nascem flores”, frase atribuída a Lenine).
      Escrevi, porque penso assim, que o partido se demarcou da homenagem de forma digna (António Filipe é um político sério, na minha perspectiva, que vale o que vale, e, não obstante a sua ideologia não plasmar na minha, sempre respeitei a sua praxis), não ensombrando o resultado que foi de aprovação do voto de pesar por uma maioria esmagadora de deputados, a que não é alheio o facto de, se essa maioria enche, hoje, a bancada parlamentar, muito dever à frontalidade, frieza, disciplina, destemor, força e “mediana inteligência” (a crer em alguns contemporâneos castrenses) de Jaime Neves.
      Jaime Neves era um operacional e, tal como outros que nos trouxeram a “alvorada de Abril”, poderia não ser superlativamente inteligente. Os inteligentes pensam demasiado antes de agir, e a um operacional exige-se rasgo. Lembro, numa associação esdrúxula, porventura supina porque exagerada, João XXIII, a quem se deve a revolução na Igreja, através do Concílio Vaticano II. Dizia-se, então, que só um papa pouco inteligente, mas destemido, teria assumido o ónus dessa revolução radical no pensamento e na liturgia do catolicismo.
      Sobre a dimensão histórica paralela a “Sansão”, que foi o militar e cidadão Jaime Neves, não aprofundei os dados para opinar sobre eles. Há à sua volta um quase misticismo entre os comandos e um anátema profundo entre alguns dos seus camaradas. A sua vida pessoal, desregrada segundo se diz, baila entre a ficção e a lenda (as lendas estragam sempre a verdade, como escreveu Serge Reggiani em O último comboio antes da noite). E com o cantor-escritor eu também digo, referindo-se ele a Picasso, e eu a “Sansão”: “excpcional em tudo, em tudo desmedido”.
      Parece-me, no entanto, que, se não podemos provar que Jaime Neves esteve na sanzala Mihinjo, em Wiriyamu, na Operação Marosca, alegadamente comandada pelo operacional da PIDE/DGS Chico Kachavi – e todas as fontes históricas indicam que não esteve – devemos abster-nos de citar esse e outros mitos duma personalidade de excessos. Por mais excessivo que fosse.


      • Jaime Neves cometeu em Moçambique, nomeadamente em Wiryamu Crimes Contra a Humanidade, imitando o nazismo no seu pior. Portugal é signatário do TPI e as matanças de homens mulheres e crianças em Moçambique pelos «Comandos da Amadora», qualitativamente são iguais ao nazismo alemão no seu pior.

      • Maquiavel says:

        Tanta conversa só para desculpar um assassino?
        Mais: no 25 de Abril, Jaime Neves conseguiu ser o único operacional a falhar os objectivos atribuídos, deixando fugir os ministros (literalmente mijados de medo) pelo tal túnel improvisado.
        Ele era bom mesmo era contra pretos desarmados. Ui… até saltavam cabeças!

  4. João Pedro says:

    Sobre o General Eanes é preciso dizer que rezam os oráculos que deu indicações à Força Aérea de que os aviões seriam abatidos se ousassem bombardear a Intersindical como queriam os ultras

  5. Jorge says:

    Por falar em memória prestemos homenagem ao exercito vermelho que ha 70 anos em stalinegrad derrotou as hordas nazi fascistas e libertou a humanidade de um regime monstruoso

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