«Os licenciados em História são inúteis para a economia» (I)

Alguém me pode dar o número de contribuinte do Camilo Lourenço?

Comments


  1. Convinha-lhes! Isto de os economistas, agregados à política, fazerem borrada atrás de borrada e não serem escrutinados é que era bom!
    Para eles, a história nunca será uma ciência, exactamente porque, como disse Pepetela, “que me perdoem os economistas – gente sempre muito séria e a tentar desesperada e infrutiferamente provar que segue uma ciência…”.
    Eles dão-se mal com historiadores, pudera!

  2. Hugo says:

    Criticar é mais fácil que contra-argumentar e infelizmente o Camilo Lourenço tem razão. E eu estou completamente à vontade para falar, porque sou licenciado, mestre e doutor em História e não exerço nenhuma actividade ligada à área. Longe de mim querer pôr em causa o valor da História – nunca o faria – e acho que o Camilo Lourenço também não o fez. O que ele apontou foi o número excessivo de licenciados na área quando há outros licenciados mais velhos, mais experientes e mais qualificados que estão no desemprego ou em áreas completamente diferentes da da sua formação. Então, para quê continuar a formar tantos licenciados em História? E quem diz História, diz Filosofia, Antropologia, Sociologia e outras ciências sociais. Quer-se apostar na investigação? Aposte-se, acho que se faz muito bem. Contratem-se (contratos de trabalho sem termo, não as bolsinhas que se costumam dar) 400, 500, 600 investigadores e coloquem-nos a fazer a investigação de que Portugal necessita; criem-se cadeiras de História aplicada nos cursos das engenharias ou das ciências (História da Engenharia, História da Tecnologia, História dos Instrumentos Científicos, etc.), desviem-se verbas da formação para a investigação e reduza-se drasticamente o número de vagas no ensino superior para a História. Portugal não necessita de 300 vagas por ano em seis universidades. Já temos licenciados suficientes para os próximos trinta anos. Creio que os docentes universitários até agradecem, pois passariam a fazer aquilo que realmente gostam: investigar. Entendo que isto demonstraria mais amor à História do que a manutenção do actual número de vagas no ensino superior. Nos actuais moldes, saem todos os anos 150 ou 200 novos licenciados que não conseguem arranjar emprego e exercer o que aprenderam. O licenciado em História é associado a um inútil, porque não exerce nem consegue trabalhar na área. Logo, é uma má despesa pública, porque se formam pessoas para trabalhar em call centers (com todo o respeito que merecem). Em consequência, é a própria História que é encarada como uma inutilidade, porque é curso que não gera emprego. E isto é que é grave. A História é vista como o avozinho lá de casa que diz uma coisas muito engraçadas do tempo da Maria Caxuxa e não como uma actividade cujo saber é útil para o presente e para evitar os erros do passado.

    • Nuno Nobrega says:

      Eu, como engenheiro, coloco a questão: criar cadeiras de história nos cursos de engenharia porquê? Posto de outra forma: que cadeiras retirariam das licenciaturas e mestrados para adicionar essa cadeira de história, e porquê? Há uma enorme componente técnica que fica por leccionar por os cursos estarem limitados aos 180 e 120 créditos, e ainda vamos empobrecê-los só para justificar um tacho de um licenciado em história? Não estaremos a tentar inventar uma utilidade sem qualquer justificação, somente para tentar justificar uma colocação de formados numa área muito específica?

      • Hugo says:

        Pela mesma razão que os cursos de economia têm a cadeira de História Económica, pela mesma razão que há engenheiros na UM, por exemplo, a tirar mestrados em engenharia com uma grande componente histórica, pela mesma razão que o MIT tem um departamento de História, pela mesma razão que levou o Óscar Niemeyer a dizer «Toda a escola superior deveria oferecer aulas de filosofia e história. Assim fugiríamos da figura do especialista e ganharíamos profissionais capacitados a conversar sobre a vida». E cidadãos, acrescentaria eu. Em relação à componente técnica dos cursos das engenharias, em muitos casos também é uma componente técnica que não interessa nem ao menino Jesus. Ainda há umas semanas os proprietários de fábricas de moldes se queixavam de que não tinham engenheiros capacitados para trabalhar nessa área, malgrado a alta componente técnica dos cursos de engenharia em Portugal.

        • Pedro Esteves says:

          O Hugo fugiu à pergunta: que cadeiras retiraria das licenciaturas e mestrados para adicionar esse tacho de história, e porquê? É capaz de responder, ou vai limitar-se a atirar banalidades? Caso não deu para notar, a única justificação que conseguiu apresentar resume-se a dizer que não sabe porquê mas ouviu dizer que no MIT faz-se, não sabe porquê mas ouviu dizer que um arquitecto brasileiro fez um comentário sobre isso.

          Mas a pergunta mantém-se.

          Porquê? E para quê?

          • Hugo says:

            Aparentemente, há mais uma razão (além das que já indiquei) para incluir opções de humanidades nos cursos técnicos: ensinar os “especialistas” a ler textos corridos e sem números e entender aquilo que lêem. Se está à espera que eu diga que a História (ou qualquer outra área das ciências sociais e humanas) vai fazer com que as pontes que um engenheiro projecta sejam mais sólidas, espere sentado pois não o direi. Agora que a História lhe vai alargar a visão do mundo e fazer entender que este não é só betão, vidro e aço, disso não tenha dúvida. Além disso há outra coisa que se chama cultura geral, que também faz falta e o próprio conceito de Universidade se baseia num universalismo de conhecimentos (daí o nome: Universidade). Finalmente. se um aluno de engenharia não gosta de História (ou de Humanidades), então ainda mais uma vantagem: aprende que na vida nem sempre se faz aquilo que se gosta e muitas vezes tem que se fazer aquilo que não se gosta. Quanto às disciplinas a retirar, não sei, porque não conheço os cursos. Mas nem seria preciso retirar nada. Na pior das hipóteses retirava-se horas a uma ou outra cadeira. Dir-me-ão: “os alunos não poderiam aprender tudo aquilo que pretendiam”. Meu caro amigo, a Universidade também é isso. É aprofundar conhecimentos fora das aulas com base em indicações citadas pelo docente.

            Em relação ao MIT, eu não ouvi dizer que tem não sei o quê, feito não sei por quem. Eu trabalhei com investigadores do seu Departamento de História, que são tão considerados como os engenheiros que forma. Mas se o MIT não é suficientemente bom para os seus padrões, experimente-se o Imperial College de Londres com o seu Centre for the History of Science and Technology. Se for daqueles nacionalistas convictos, então vamos à Faculdade de Ciências e das Tecnologias da Nova, onde encontra o Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia.

            Se o seu problema é com um pretenso tacho, não se preocupe que não havia tacho nenhum: o que eu propunha (se leu os meus comentários anteriores) era que essas aulas fossem leccionadas por docentes que já se encontram no activo. Logo não havia despesa extra nenhuma e até creio que os conhecimentos desses docentes seriam mais bem aproveitados. Mas se está tão preocupado com os tachos, devia-se preocupar mais com a catrefada de tachos que a engenharia projecta, estuda e realiza com os ministros-engenheiros que assinam contratos com empresas das quais se tornam mais tarde directores executivos (ou qualquer outro nome pomposo), com os sites com duas funcionalidades que custam 50 mil euros ao erário, com as rotundas, rotundinhas e rotundonas que nascem por esse país fora como cogumelos ou com as PPP’s das auto-estradas entre vale da Burra e vale da Porca, que são realizadas sob a autoridade dos engenheiros que fazem delas instrumentos de desenvolvimento quando HISTORICAMENTE se comprova que as vias de comunicação não são só por si instrumentos de desenvolvimento e muitas vezes produzem efeitos contrários ao desenvolvimento que pretensamente deveriam trazer.


      • É muito simples: cague-se nas limitações da treta de adaptação de Bolonha que por cá fizeram e volte-se a ter licenciaturas com uma duração e conteúdos suficientes para uma formação básica decente, sem se gastar rios de dinheiro em mestrados e pós-graduações, esse novo filão. Portanto, arranjem lá umas cadeiras de história da Engenharia e de ética profissional, dadas por gente “de fora”, porque as Ordens só fazem merda.
        Mais: para impedir que se formem mais fornadas de engenheiros corruptos e broncos, sem noção do passado nem do dano que provocam com a sua própria corrupção, como os que andam a enxamear autarquias, empresas e administração pública há décadas.

        Não é preciso dizer que a dita “reforma” de Bolonha foi feita por um engenheiro, obviamente. Só uma besta com a cabeça enfiada no cu é que pode ter preconceitos – ou complexos de inferioridade – ao ponto de fazer taxativamente aquela cagada.

        P.S. – Para que conste, não sou nem nunca fui de Letras. Mas irrita-me profundamente este pseudo-utilitarismo de Cratos, Gagos e de boa parte da “sociedade” (sim, com aspas) portuguesa.


  3. Porque não me admira este ódio às Letras e Humanidades?
    Porque, quanto a primeiros-ministros dos números já eu cansei…


  4. esse deve ser engeheiro alimentar

  5. RONALDO says:

    A pergunta que se deva fazer é : O que é útil para Economia ? Constitui um grave erro condicionar a formação acadêmica para atender somente aos interesses do mercado . Na verdade o mercado não deve ditar nada de forma unilateral, são as pressões do mercado que causam as guerras, talvez se soubesse um pouco de História veria que o Capital (sinônimo de mercado) não possui ética, para ilustrar somente sugiro que pesquise sobre as atrocidades cometidas pelos belgas na figura nefasta de Leopoldo II no início do século XX no Congo. Um exemplo, moradores de rua não são inúteis para a economia , seguindo essa lógica deveriam ser exterminados. Claro que ninguém concorda com essa visão, somos seres humanos , não somos raros, somos mais que isso, muito mais , cada indivíduo é único. Um engenheiro constrói uma ponte, mas se sua formação for humanista ele não a construirá sem levar em conta os impactos de sua construção quanto as manifestações culturais da localização a que faz parte. História é cultura, economia é mercado (por isso deveríamos humanizar os cursos técnicos). Eu sou brasileiro, não consigo pensar em meu país sem levar em conta a sua herança portuguesa, a cultura de Portugal é para nós muito importante. Importância que transcende razões econômicas. Ainda que as produções cinematográficas de Spilberg movam mais dinheiro , atendam ao mercado , tenham mais importância econômica , elas não são nada se comparadas a um único soneto de Camões.

  6. Joao Pedro Pinto says:

    Eu como Licenciado em História, pós-graduado e mestre, com muito orgulho, gostaria de deixar uma mensagem clara, ao Dr. Camilo Lourenço.
    O Camilo Lourenço é Licenciado em Direito Económico! Gostaria de saber o que é que ele produz para o país? (Produtos acabados para venda, enfatizo)
    Gostaria também de saber pq existem tantos Gestores, desempregados e tantos Engenheiros a dar aulas (afinal licenciaram-se para produzir algo para o país, ou não é??)
    E porque dão engenheiros aulas de matemática?? Afinal, os matemáticos (que me merecem todo o respeito), supostamente também não produzem nada para o país (em produtos acabados, afirmo)
    Eu podia ficar aqui o dia todo a exemplificar, porque achei esta afirmação de uma ignorância e de uma burridade monumental.
    Só para acabar, o Camilo sabe (só por acaso, que o turismo vale 11% do PIB, e que nesta actividade inserem-se todas as atividades culturais (museus, guias, formações, bibliotecas, actividades culturais diversas, etc, etc).
    E só para acabar, sabia que para opinar sobre Direito, teve que dar “História”.
    E também sabia, que os muitos jornais neste país, em que escreve para alguns deles, promovem produtos históricos, manuais e atlas, para alavancar as suas vendas, porventura sem qualidade nenhuma, elaborados por jornalistas?
    Bem, isto já vai longe, mas vou-lhe dar mais duas dicas. Sabia que mais de metade dos americanos não sabe aonde se situa Portugal e aqueles que sabem que é na Europa, afirmam ser parte de Espanha!!?
    Sr. Camilo, haja respeito, eu estudei um ano Engenharia Informática e um curso não anula o outro. Ponha um aluno de engenharia, que nada percebe de cultural geral e de conteúdos, mas percebe tudo de algoritmia, álgebra, UML e Frameworks, ao lado de um Historiador, com uma vasta cultural geral e transversal, além de excelente comunicador e terá aí uma simbiose perfeita.
    Deixo-lhe uma exemplo, se se quiser cultivar um bocadinho, em vez de dizer asneiras. (www.iclio.pt)
    Pedro Pinto

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